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Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – LXXXVIII

O Relativismo – V

Não conseguimos acabar com o relativismo. Mas não vamos alongar-nos mais nestas páginas sobre este tema. Vamos pois começar a concluir e resumir. E colocamos aqui o desafio do relativismo moral. É uma das interrogações mais complexas sobre o relativismo. Se o compararmos com o absolutismo moral, poderemos encontrar respostas, ou até perceber a sua ontogénese. Sem julgamentos, nem relativismos, ou absolutismos sequer, tentemos perceber algumas das ideias que o definem, um pouco na história, mais na realidade do mundo de hoje.

O que é o relativismo moral? É mais facilmente compreendido quando comparado com o absolutismo moral, já se disse. Mas porquê? Ora, o absolutismo afirma que a moralidade depende de princípios universais (lei natural, consciência). Os absolutistas cristãos acreditam que Deus é o recurso principal – senão o único – da moralidade comum dos homens, criaturas que somos, e que essa moralidade é tão imutável quanto Ele.

Por seu turno, o relativismo moral afirma que moralidade não é baseada em qualquer padrão absoluto. Mas pelo contrário, as “verdades éticas” dependem da situação, cultura, sentimentos, etc., de vários factores e condicionalismos, determinismos ou contextos. Por isso, a popularidade do relativismo moral é enorme nos dias de hoje, dada a zona de conforto e facilitismo na vida que cria, pelo menos no imediato. De certa forma, assim se explica a atitude da avestruz, quando esconde a cabeça na terra…

O ABSOLUTISMO DO RELATIVISMO

Mas como se pode desconstruir o relativismo moral? Talvez se lhe possa aduzir uma natureza duvidosa. Primeiro, embora muitos dos argumentos usados na tentativa de apoiar estas afirmações possam até parecer bons ou certos à primeira vista, há, no entanto, uma contradição lógica inerente em todos eles, pois todos propõem um esquema moral “correcto” – ou seja, um esquema que todos devem seguir. Logo, há aqui uma forma de absolutismo. E não relativismo.

Em segundo lugar, muitos dos que se podem denominar como relativistas, rejeitam o relativismo muitas vezes – um assassino ou um violador não são culpados contanto que não tenham violado os seus próprios padrões. Em terceiro lugar, temos a semântica. O facto de que existem palavras como “certo”, “errado”, “deve”, “melhor”, “pio”, etc., pode ajudar a mostrar que essas coisas, afinal, existem. Se a moralidade fosse realmente relativa, provavelmente estas palavras não teriam qualquer significado ou sentido. As pessoas então diriam que “isto ou aquilo faz-me sentir mal”, por exemplo, e não “isto é errado”.

Os relativistas costumam também argumentar que valores diferentes entre culturas diferentes mostram que as morais são relativas para pessoas diferentes. Mas esse argumento confunde as acções dos indivíduos (o que eles fazem) com padrões absolutos (se devem fazê-lo ou não). Se a cultura é o que determina o certo e errado, como poderíamos ter julgado certos grupos radicais que perpetraram crimes violentos contra a Humanidade? Se, afinal de contas, esses grupos estavam a seguir a moralidade da sua própria cultura. Estariam errados apenas se o homicídio fosse universalmente errado. O facto de que afirmam que tinham a “sua moralidade” não muda isso. Além disso, apesar de muitas pessoas demonstrarem a moralidade de formas diferentes, elas ainda compartilham uma moralidade em comum. A moralidade universal absoluta existe, com efeito. Mas nem sempre é intuída ou aceite.

Alguns afirmam que situações diferentes causam tipos de moral(idade) diferentes: em situações diferentes, os actos, diferentes, são julgados de uma forma que talvez não seja correcta em outras situações. Há três coisas pelas quais devemos julgar uma acção: a situação, o acto e a intenção. Por exemplo, podemos condenar uma pessoa que tentou cometer assassinato (intenção) mesmo se tenha falhado (acto). Desta forma, as situações fazem parte da decisão moral, pois preparam o contexto no qual podemos escolher o acto moral específico (a aplicação dos princípios universais).

Os defensores do relativismo têm como principal argumento a tolerância. É uma forma de intolerância dizer a alguém que a sua moralidade está errada, proclamam os relativistas, consideram que a sua “filosofia” (de vida…), o relativismo, tolera todas as posições e formas de opinião. Não residirá aí um erro? Pois, antes de tudo, o mal jamais deverá ser tolerado. Ou pode-se tolerar o ponto de vista de um violador, de alguém que abusa de crianças ou de mulheres? Depois, em segundo lugar, os relativistas não toleram a intolerância ou o absolutismo: logo, o argumento de que toleram todos os pontos de vista não vale. Em terceiro, o relativismo não pode explicar porque é que qualquer pessoa deva ser tolerante em primeiro lugar. O princípio de que devemos tolerar todas as pessoas (mesmo quando se discorda delas) é baseado numa regra moral absoluta, a de que devemos sempre tratar as pessoas de forma justa e igualitária, sem distinção. Mas, então, “isto” não é absolutismo? Parece que, em boa verdade, sem os princípios universais morais, a bondade não pode existir. Além de tudo o mais, todas as pessoas nascem com uma consciência e todos sabem quando ofendem ou são ofendidos. À partida, presumimos que todos saibam isto, agimos em boa parte com base nessa presunção (natural). Até na infância se sabe distinguir o que está bem e o que está mal, o que é justo e o que é injusto. Ou não é assim?

Aqui acabamos por chegar ao relativismo moral. Este pode-se definir como a visão de que as afirmações morais ou éticas, que variam de indivíduo para indivíduo, são todas igualmente válidas e que nenhuma opinião sobre o que é “certo e errado” é melhor do que qualquer outra, mas sim relativa, variável. O relativismo moral é uma forma mais ampla – e aplicada aos indivíduos – de outros tipos de pensamento relativista, tal como o relativismo cultural. A base é a ideia de que não existe um padrão definitivo de bem ou de mal, por isso cada decisão sobre o que é certo e errado acaba sendo um mero resultado das preferências e do contexto ou ambiente de um indivíduo. Não existe um padrão definitivo de moralidade, de acordo com o relativismo moral, e nenhuma declaração ou posição pode ser considerada em absoluto como “certa ou errada”, “melhor ou pior”, “boa ou má”. Tudo é relativo!

O relativismo moral está muito disseminado no mundo moderno, embora, como acontece com outras formas de relativismo, é apenas “usado”, ou referido, de forma meramente defensiva. Com efeito, há um uso selectivo, pois os princípios do relativismo moral só podem ser usados para justificar ou permitir certas acções, nunca para as condenar, o que seria “absoluto”, como veremos brevemente….

Vítor Teixeira 

 Universidade Católica Portuguesa

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