Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

A Questão Social – I
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Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – LXVII

A Questão Social – I

De repente, o mundo acelerou. A partir de finais do século XVIII, a começar pela Inglaterra. A economia substituiu a ideologia, a utopia, a liberdade e a fé. Devassou o mundo e sobrepôs-se a tudo. E a todos. A Igreja estava mergulhada numa luta contra os ataques que vinha sofrendo das ideologias liberais. Procurava adaptar-se, sem perder a essência e o essencial. Intentava uma modernização paulatina, uma aproximação à nova sociedade, embora com debates internos e vias que não desligavam da tradição a obstar esse progresso na Igreja em renovação. Mas, neste esforço titânico, uma nova frente abria-se no mundo ocidental, sem ninguém a defender os que ficaram fragilizados ou deserdados do progresso material e vítimas das mudanças brutais que se operavam. Todos os sugavam no trabalho e nas fábricas, mas quase ninguém olhava por eles e os ajudava, integrava. Uma vez mais, quem deu a mão aos novos pobres, uma massa crescente, foi a Igreja. Uma vez mais, mesmo em sofrimento e dilaceração, foi a Igreja que procurou o novo rosto de Cristo nos novos pobres do mundo industrial. Nascia a Questão Social.

Desde os alvores da Revolução Industrial, do Reino Unido à Alemanha e Bélgica, França e uma série de regiões em vários países da Europa, que multidões rumavam às cidades, antigas e novas, à procura de trabalho nas novas fábricas, portos, minas, nas novas infra-estruturas urbanas, enfim, à procura de um lugar e da sua vez na corrida pela riqueza. As máquinas invadiam os campos, roubando postos de trabalho na ruralidade. Nas cidades, nas minas, nas fábricas, clamava-se por braços para o trabalho, nem sempre devidamente pago, sem justiça social nem protecção aos desfavorecidos. Os bairros da lata cresciam, os arrabaldes sujos e pobres dominavam as novas paisagens poluídas da combustão do carvão, enfim, um novo modo de vida abruptamente substituía outro: o da voracidade e imediatismo das cidades em vez do bucolismo e pacatez dos campos.

Desintegrados na sociedade, os migrantes do êxodo rural que rumavam às cidades criavam bolsas de pobreza e vazio afectivo, social e espiritual, sem apoios nem respostas de integração ou de equilíbrio numa nova ordem social justa e igualitária. O Liberalismo e as novas ideologias não tinham respostas, a modernidade afinal não era o absoluto, pois não sabia responder a estas novas exigências. Nem mostrava saber ou interesse: a outra face afinal dos modernismos. O Liberalismo dava origem, assim, aos socialismos, que se mostravam também incompletos nas respostas aos novos problemas e exigências. Porque afinal todos se esqueciam de um aspecto bem importante e que quase foi aniquilado na sociedade: o ser humano é também espiritual, religioso também, mas não é só matéria e racionalidade. E esse lado invisível e metafísico estava mesmo esquecido…

 

A “nova” pobreza

A industrialização mostrou acima de tudo a desumanização da sociedade e da economia. Como? Provocou, por exemplo, uma concentração urbana sem rostos nem sentimentos, sem vizinhos nem amigos, apenas sombras e vultos correndo para sobreviver. As condições de vida eram penosas, como as de trabalho, duras, com jornadas laborais de 12, 14 ou até 17 horas. E tempo para a família? Para a interioridade? Se essas horas eram para homens, mulheres e crianças, muitas vezes a partir dos sete anos, onde restava tempo para sorrir, para vestir um fato de Domingo e uma roupa decente para ir à igreja e sociabilizar? Não: o tempo era para sobreviver, não para viver. Como hoje, noutro registo e contexto…

A troco de salários irrisórios, de insuficiências no sustento de famílias numerosas, que só algumas esmolas poderiam mitigar, mas não resolver. Alimentação precária, más condições de vida e alojamento, de saúde e higiene. A tuberculose andava à solta, de braço dado com a morte: esta já não era como a morte antiga, em família, em grupo ou oração, mas antes anónima, esquecida e triste, inglória… A miséria campeava, era impressionante, a par das doenças, do abandono, da precariedade e do sofrimento…

O capitalismo moderno, liberal, não tinha religião, nem a contemplava. Deificava, antes, um novo estilo de vida material, cujos “valores” não tinham valor social ou nenhum mais senão o do lucro e o do progresso. Nem sempre humano, diga-se… Não tinha nada a ver, isso sim, com o Cristianismo. O “homem novo” do Liberalismo e do capitalismo industrial que dele adveio colocava o homem ao serviço da economia, e não o contrário. O homem era não apenas um instrumento desta nova deidade, a economia, mas também um servidor, substituível e sem rosto.

Só a Igreja – ou melhor, muitas das igrejas cristãs, sejamos justos – se posicionaram para dar rosto a este sofrimento, a este sorvedouro de trabalho, a esta dobadoira de vidas sem fim, à sangria que o êxodo rural evidenciava. As igrejas cristãs souberam procurar respostas e acção para colmatar e mitigar o sofrimento dos operários, embora nunca tenham sido rápidas a formular teoricamente uma doutrina social. Por isso, as ideologias socialistas, de que advirá o legado de Marx de forma proeminente, ganharão muitas vezes o operariado, laicizando, porém, e dando-lhe formas de luta que redundaria em alimento de novos conflitos. O egoísmo do capitalismo industrial de então foi combatido por várias congregações católicas criadas até para o efeito, como sucedeu entre os anglicanos e outros credos protestantes. A generosidade e a caridade tinham sido extirpadas dos ideários capitalistas, mas não esquecidos pela Igreja, que devotou parte da sua acção ao amparo e cuidado dos doentes, dos marginalizados, dos pobres, da prostituição, dos idosos, de todos os enjeitados da roda da sorte do progresso. Podemos dizer que a Igreja Católica e as suas instituições tiveram um papel preponderante no refrear da senda devastadora do rosto humano que o capitalismo liberal tonalizava de sofrimento e de obscuridade.

No mundo rural, as condições eram de austeridade e dureza. Famílias decompostas pelo êxodo para as cidades industriais, pobreza e desemprego, grassavam num mundo outrora estável e coeso. Agora, os que partiam perdiam os pontos de referência religiosos e sociais, os que ficavam, eram abandonados à sua sorte muitas vezes, ou da míngua e da fome. Mas mantendo os costumes antigos, os rituais e formas de vida tradicionais, centrados na Igreja e na paróquia, no encontro diário, na vida comunitária e na vida com sentido e ordem natural. Muitos rezavam ainda o angelus (ou “hora das ave-marias”, a recordar a Anunciação a Maria) nos campos, às 6:00 horas, 12:00 horas ou 18:00 horas, ou as trindades ao meio dia. Nas cidades e nas fábricas não era mais possível parar o trabalho para rezar, dar graças… Era pois todo um mundo em transformação, em erosão, sem sentido. O valor da vida era cada vez mais reduzido, até se perder, ou então tinha um preço, ou era calculado em horas de trabalho e produtividade, em dinheiro. Sem rosto, sem coração, sem piedade nem verdade, apenas materialidade. Mas não era o fim do vale de lágrimas da industrialização e do novo “modernismo”…

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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