A aprendizagem do Butanês

Bengala e o Reino do Dragão – 36

A aprendizagem do Butanês

Também ficamos a saber, ao ler a “Relação”, que os nossos padres logo desde o período inicial de itinerância deram os primeiros passos no idioma local. Como confessa Cacela, “em estes meses procuramos com toda a diligência aprender a língua”. Em Chagri os padres continuariam com a aprendizagem do Butanês, mas com grande dificuldade devido à falta de mestres adequados. Como já se viu, o monge que os acompanhava era de Chaparangue, no Tibete Central, onde se falava uma língua totalmente diferente. Cacela chama a atenção para as diferenças notórias nos dialectos do universo tibetano: “(…) posto que estes reinos tenham todos a mesma língua, há muita variedade na pronunciação e nas terminações, e a corrupção dela em algumas partes a faz quase outra, particularmente neste Reino, que, por ficar neste canto sem trato, nem muito comércio dos outros reinos, está muito mudada”.

Como seria de esperar, a principal preocupação dos padres foi começar a traduzir para Butanês os cânones cristãos: “(…) compomos as orações e instruções necessárias nesta língua e as fazemos escrever nos seus caracteres para que mais facilmente a aprendam. Ajuda-nos também muito sabermos já ler os seus livros, posto que não os entendamos ainda bem por estarem compostos no melhor e mais polido da língua”.

Tendo como principal tarefa a conversão do monarca, Cabral e Cacela encetaram com ele profundas conversas teológicas, mas cedo se aperceberam do seu desinteresse. Desiludidos, manifestaram desejo de prosseguir viagem. O Butão não era destino, tão-só uma simples etapa. Porém, a presença de tão distintos visitantes trazia prestígio a Shabdrung e este não queria nada vê-los como hóspedes do seu rival e inimigo. Assim, foi-os atrasando, pedindo entretanto aos monges que demovessem os portugueses do seu intento, acabando por ele mesmo dar uma resposta. Transcreve deste modo Cacela o sentir do monarca: “(…) dizendo que era descrédito seu deixarmo-lo e ir avante; que todos estes reinos sabiam que estávamos com ele, e que, o ter-nos aqui era uma grande honra sua, pelo que, para diante não havíamos de passar, particularmente tendo-lhe nós dito que estaríamos aqui sempre, nem o deixaríamos”.

Cacela e Cabral permaneceram o resto da sua estada no Butão numa ambígua situação. Eram hóspedes e simultaneamente prisioneiros. Face à proibição, os padres pediram autorização para evangelizar, que lhes foi de imediato concedida. Foi-lhes ainda prometido que poderiam construir uma igreja em Paro. Instalaram, entretanto, uma capela numa das salas do mosteiro-fortaleza que acabaria por se transformar numa verdadeira atracção. O próprio rei, acompanhado pelos monges superiores, visitou-a e inquiriu acerca da simbologia de todos aqueles objectos, novos para o seu olhar. Apesar dos roubos de que foram vítimas, restavam aos padres algumas alfaias religiosas com as quais decoraram o novo espaço. Um dos objectos perdidos, “uma lâmina da Virgem Senhora Nossa”, acabaria por ser resgatado das mãos dos ladrões por um monge que também conseguiria recuperar uma Bíblia, como se pode depreender na seguinte passagem da “Relação”: “(…) e foi o senhor servido que, depois de dois roubos, nos achássemos ainda com todo o aparelho que trouxemos para o altar e com todas as imagens (…) mais uma bíblia que também lá tinham”.

Certamente com o intuito de os agradar, por não gostar de manter infelizes “prisioneiros” tão distintos, o monarca pôs ao seu serviço, para que aprendessem os assuntos da religião dos estrangeiros, mais alguns monges, um deles com apenas doze anos, “menino ingénuo e de habilidade”, e outro de dezanove. Com toda a diligência e muita esperança os padres foram pregando, sendo frequentemente visitados por pessoas que demonstravam apurado interesse. Certo dia um velho camponês foi ter com eles à capela mostrando vontade de ali ficar de modo a conseguir perdão para “um pecado que o trazia muito desconsolado”. Afinal – acabaria por confessar – tinha atingido mortalmente um homem com uma flecha e sentia por isso um enorme remorso. Diz-nos Cacela que outros lhes tinham prometido trazer os filhos para que os padres portugueses os ensinassem, mesmo que isso significasse abraçar uma nova religião. Um deles, imensamente agradecido, atribuíra a melhoria do estado de saúde de um filho enfermo a uma relíquia que lhe fora oferecida por João Cabral. Eram comuns os pedidos de água-benta “com que dizem se acham bem dos seus achaques”. Cacela salienta ainda a enorme curiosidade dos monges, que lhe traziam ofertas de leite e fruta para colocar junto às imagens dos santos, da Virgem e de Jesus Cristo presentes no interior da capela, prostrando-se até diante delas, “beijando com devoção o pé do altar”.

Em contrapartida, Cacela queixa-se dos cânticos e rezas – “ao som de vários instrumentos com que sempre estão ocupados” – vindas do interior do pagode existente junto à casa do rei, “onde é contínua a guerra que o demónio faz às almas”, salientando o facto de ser caso único. Nas suas palavras: “(…) fora deste não há outros pagodes, senão raríssimos e andando por estas serras as primeiras dezasseis jornadas não encontramos nenhum, mais do que no alto de uma serra, um alpendre de pedras, umas sobre as outras, bem mal feito com algumas pinturas do demónio e alguns ídolos”. Entre as mencionadas “pinturas do demónio” estariam certamente os famosos pénis, símbolos de fertilidade de que falámos há já umas semanas.

Joaquim Magalhães de Castro

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