A moeda evocativa

Bengala e o Reino do Dragão – 26

A moeda evocativa

Considero estranho, agora, há distância de muitos meses, que o professor Yonten Dargye, aquando a nossa conversa num dos belos salões da Biblioteca de Thimphu, não tivesse feito qualquer alusão a uma moeda local evocativa da memória de João Cabral com o valor nominal de 300 ngultrum, emitida em 1994 pelas autoridades do seu país. Deparei com ela por mero acaso ao fazer uma pesquisa na Internet. No verso da dita temos em primeiro plano um João Cabral barbudo e de bordão na mão palmilhando terreno pedregoso. Em segundo plano uma outra pequena figura, quiçá o mesmo João Cabral, desta feita acompanhado de um iaque com uma enorme carga no lombo. Como pano de fundo um mosteiro encavalitado numa série de picos montanhosos no que me parece ser uma representação do famoso “Ninho do Tigre”, carta postal por excelência dos serviços de turismo butaneses. No reverso, dois dragões em redor de uma dorje vajra, a dupla cruz tântrica também conhecida simplesmente como “cruz tibetana”. Quanto a palavras, “João Cabral” e as datas de nascimento, “1599”, e de passamento, “1669”, no verso; “Reino do Butão” (em Inglês e Butanês) e “1994” no lado oposto. Em vão procurei moeda similar, embora dedicada ao confrade Estêvão Cacela. Justo era que assim fosse pois o desempenho deste último foi bem mais relevante do que o de Cabral, que viveria mais anos e abarcaria maior geografia. Mas isso são contas de um outro rosário, ainda por desfiar. Em bom rigor, a história de João Cabral, um dos mais viajados e multifacetados missionários jesuítas da Ásia, continua por contar.

No decorrer da minha infrutífera busca acabaria, não obstante, por entender o porquê da omissão de um e a divulgação do outro. Acontece que dois anos antes do surgimento da mencionada moeda a norte-americana Nancy M. Gettelman, estudiosa do Budismo, publicou na revista Kailash – editada em Katmandu, Nepal – a tradução da carta que João Cabral escreveu de Xigatsé em Outubro de 1627, a qual refere a sua partida do Butão rumo ao reino de Utsang, no Tibete Central, carta essa acompanhada de uma brevíssima introdução onde, de resto, detectei algumas imprecisões. “Kailash: Revista de Estudos Himalaicos” é uma publicação académica impressa em papel de arroz nascida em 1973 e que versa temas da história e da antropologia da região dos Himalaias. É hoje de muito difícil aquisição e apenas um punhado de bibliotecas universitárias possui cópias de todos os números.

Dissolvido o mistério, vamos ao que interessa. O título da publicação, “Carta do primeiro ocidental a visitar o Butão, Tibete, Nepal, João Cabral (1559-1699)”, é enganoso, pois omite o desempenho de Cacela. Não esqueçamos que este era superior hierárquico e responsável pela missão. Não obstante, permaneceria Cacela figura meio esquecida até que uma outra investigadora, a sul-africana Luiza Maria Baillie, publicaria no Journal of Bhutan Studies a tradução para Inglês da carta de Cacela – a “Relação” que temos vindo a analisar e que serve de guia a esta nossa viagem. O Journal of Bhutan Studies é uma publicação bi-anual do Centro de Estudos Butaneses, unidade académica autónoma dedicada à promoção da investigação e atribuição de bolsas de estudo nesse país dos Himalaias.

É importante recordar que a divulgação de tão preciosos documentos se deve ao jesuíta holandês Cornelius Wessels que em 1924 os desencantaria dos arquivos da Companhia de Jesus em Roma. Não entendo porque razão, passados todos estes anos, o seu “Early Jesuit Travellers in Central Asia”, obra de referência, continue a não estar disponível para descarregamento gratuito na Internet, como tantos outros trabalhos de idêntico ou maior quilate. Apenas o e-book se pode obter, mas ao astronómico preço de 86 euros. Enfim, certamente exigência absurda por parte de uma qualquer gananciosa editora…

As ditas cartas seriam parcialmente traduzidas pelo historiador britânico Michael Aris, autor de uma história do Butão e marido da dirigente birmanesa Aung San Suu Kyi. Se tivermos em conta que este episódio consta do currículo escolar butanês não é de espantar que João Cabral e Estêvão Cacela sejam figuras minimamente conhecidas nesse país. Pena é que em todo o Tibete não aconteça o mesmo. Aí estiveram os padres da Companhia às dezenas e mais duradoura seria a sua presença, se bem que o resultado alcançado fosse, num como noutro caso, nulo. Nenhuma das poucas conversões durou mais de que uns quantos meses e no Tibete actual parecem não subsistir quaisquer vestígios dessa passagem. Porém, só um estudo apurado o poderá confirmar.

No final da nossa visita à Biblioteca de Thimphu há tempo ainda para uma conversa a dois, prontamente registada pela câmara do Pedro Sousa, no decorrer da qual o professor Yonten Dargye apresenta a versão butanesa dos factos. Sobre ela discorreremos ao longo dos próximos capítulos do nosso relato.

Joaquim Magalhães de Castro

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