O cerimonial da “fova”

Bengala e o Reino do Dragão – 22

O cerimonial da “fova”

Intrigados nos deixa, logo à chegada, uma pequena fogueira no meio do estradão que um homem de meia idade de quando em vez atiça com a ajuda de uma longa vara. Trata-se, como informa Sangay, de um ritual de cremação conhecido entre os povos de origem tibetana como “fova”. Quando algum membro destas comunidades morre, uma parte dos seus objectos pessoais é distribuída pelos mais necessitados enquanto a outra é queimada, como prova de total desapego às coisas materiais deste mundo. Durante a sua estada no reino, os padres devem ter presenciado cerimoniais do género, pois Estêvão Cacela dá-nos notícia dessa e de outras práticas semelhantes. A respeito da “fova”, por exemplo, diz o seguinte: “Depois de morto o homem, repartem o que lhe acham pela mais gente, porque vá bem a alma na outra vida, e os que ausentam a morte dos parentes trazem ao rei as principais coisas dos defuntos e levam a fazer sobre eles as suas deprecações”.

Apercebendo-se da nossa curiosidade vem ter connosco um familiar do falecido, Jigme de seu nome. Acompanha-o a mulher que traz consigo uma travessa com canecas de ngaja (chá com leite), zao (arroz insuflado) e biscoitos que prontamente nos oferece. Manda a tradição butanesa que, perante uma qualquer oferta de comida, se recuse proferindo as palavras “meshu, meshu” e cobrindo a boca com as mãos. Só após uma ou duas insistências se deve aceitar. É claro que desconhecemos a bizarra etiqueta e, como bons portugueses, aceitamos de bom grado o que nos oferecem, até porque o almoço há muito foi digerido e o apetite de novo aperta. Ainda a degustar um pedaço de zao questiono Jigme acerca da razão de ser de umas ruínas ali próximas – quatro paredes de argamassa sem tecto no meio das quais crescem várias árvores. Jigme afirma serem da casa de um antepassado seu, «quinta reencarnação de um afamado lama», e ter «mais de quatrocentos anos». Ou seja: é da época em que por cá andaram Cacela e Cabral. Estaria este, ao mencionar “a prima casa deste Rei”, a referir-se a uma destas residências quadrangulares, mais para o alto do que para o largo, que se vêem ali e acolá, ou ao mosteiro? Quanto a mim, aparenta ser bem mais provável esta última possibilidade.

Reduzido o refugo a quase nada, graças ao poder das chamas, dá-se por concluída a “fova”. Jigme convida-nos então a visitar a sua casa, de onde nos chega continuada e sussurante ladainha. «São os monges que ainda não terminaram a cerimónia», informa o simpático butanês. Porém, ao chegarmos, concluída está e agora os oficiantes, semi-ocultos pela penumbra do lar, desforram-se nos biscoitos e no chá. Dado que estamos num local comprovadamente visitado por Cacela e Cabral, achamos apropriado abrir uma das garrafas do Reserva Infinitae que trazemos connosco. Ocasião para informar os nossos anfitriões da importância desse bem de consumo, sempre presente no alforge dos padres e nas barricas bem amarradas às espias dos conveses, aquele que era designado como o vinho de torna-viagem. Quanto mais revolto, melhor. À memória deles e à do falecido, assim como ao sucesso do nosso empreendimento, evocamos o brinde da praxe e os homens da casa acompanham-nos, embora com goles tímidos. A julgar pelo semblante não me parecem nada impressionados com a bebida. Para eles, porventura, de sabor desconhecido, embora tal não queiram admitir.

A respeito de bebidas e comidas urge fazer um parênteses lembrando que a sintaxe nos pode pregar algumas partidas. É aqui designado de “suja” o peculiar chá de manteiga; adorado por uma minoria (entre os quais me incluo); detestado por quase todos. Falo de estrangeiros, claro, porque para os povos dos Himalaias é infusão quase sagrada, fundamental para bem iniciar e findar o dia e enganar a fome e o frio, quando é caso disso. Pode ser confeccionado com simples folhas de chá ou ervas de montanha, às quais se acrescenta manteiga e sal, ao gosto do freguês. Se no Tibete mais agreste o precioso chá com manteiga é, invariavelmente, acompanhado de tsampa (cevada torrada), no Butão impera o arroz vermelho, a única variedade desse cereal capaz de medrar nas altitudes elevadas. A sua textura assemelha-se à do arroz integral e o sabor lembra-nos o miolo das nozes. No leste do País é também comum o trigo sarraceno e o milho, dieta acompanhada pelas carnes secas de iaque, porco ou carneiro. Sopas e guisados de carne com lentilhas e vegetais secos são sempre temperados com pimenta-caiena e queijo. Aliás, o picante é talvez a característica mais distintiva da culinária local. O queijo, feito a partir de leite de vaca, nunca é comido cru, e integra sempre os molhos.

Também no domínio dos sólidos, e no que à gastronomia butanesa diz respeito, nos prega partidas o luso léxico. Muito comum na região de Bumthang, “puta” é uma massa feita de trigo sarraceno que faz lembrar o “soba” japonês, e que é frita com óleo de mostarda, levando como tempero sal e malagueta de Sichuan. Como se vê, além de traiçoeira, a língua portuguesa é também bastante marota.

Joaquim Magalhães de Castro

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