Emanuel: um sinal rejeitado e cumprido (Isaías 7, 10–16)
CONTEXTO HISTÓRICO E A CRISE SIRO-EFRAIMITA
Para compreender estes versículos, devemos considerar o contexto histórico fornecido nas passagens anteriores. Os reis da Síria e de Israel – aqui referidos como Efraim, uma das tribos dominantes do Reino do Norte – formaram uma aliança para resistir ao poder em expansão da Assíria. Quando Acaz, rei de Judá (o Reino do Sul), se recusou a juntar à coligação, aqueles decidiram atacá-lo e instalar um governante-marioneta no seu lugar, ameaçando assim acabar com a dinastia davídica.
Em resposta, o profeta Isaías é enviado pelo Senhor para encontrar Acaz juntamente com o seu filho Shear Yashub, cujo nome significa “um remanescente pode retornar”. Este nome denota que o reino terá que enfrentar tanto o perigo quanto a insegurança. Deus garante a sobrevivência de Judá, mas a um custo elevado. Por outro lado, o Reino do Norte desaparecerá como nação e a Síria será totalmente derrotada:
«Pois a cabeça da Síria é Damasco, e a cabeça de Damasco é Rezim. Em sessenta e cinco anos, Efraim ficará muito devastado para ser um povo» (Isaías 7, 8).
Este conflito, conhecido como Guerra Siro-efraimita, eclodiu entre 735 e 732 a.C. e trouxe consequências devastadoras para Judá. De acordo com 2 Crónicas 28, 6–8, Judá perdeu 120 mil soldados num único dia, e milhares foram levados prisioneiros. Estes eventos deixaram o jovem rei Acaz profundamente vulnerável.
Em vez de seguir o conselho de Isaías de confiar no Senhor e rejeitar alianças estrangeiras, Acaz optou por se submeter à Assíria, tornando-se um vassalo do império. A sua decisão, motivada pelo medo e não pela fé, marcou um ponto de inflexão na trajectória política e espiritual de Judá. Os assírios chegaram a impor um compromisso religioso: Acaz adoptou práticas religiosas assírias, incluindo o desenho dos altares e os costumes de adoração, destruindo a fé da aliança de Judá.
ACAZ RECUSA-SE A ACEITAR O SINAL DE DEUS
«Então o Senhor enviou ao rei Acaz a mensagem: “Pede um sinal miraculoso ao Senhor, o teu Deus, seja das profundezas do Sheol, seja das mais elevadas alturas!”. Acaz respondeu: “Não pedirei nada, não colocarei o Senhor à prova!”» (Isaías 7, 10–12).
Nesta passagem, não é Isaías, mas o próprio Senhor que fala directamente ao rei Acaz. O rei é convidado a pedir qualquer sinal que desejar – um evento ou milagre que confirme a ajuda divina, dependendo da sua obediência à vontade de Deus (cf. Êxodo 3, 11-12; Juízes 6, 15–18). O alcance da oferta, “profundo como o Sheol ou das mais elevadas alturas”, ressalta a natureza extraordinária do sinal que Deus está disposto a fornecer.
No entanto, tudo sugere que Acaz já tomou a decisão. Não quer que a intervenção divina interfira na sua estratégia política: planeia enviar uma embaixada para negociar um acordo com o rei da Assíria. Por procurar segurança junto de um império cruel e egoísta, Acaz resiste à voz de Deus. Escolhe o que parece prático e politicamente sensato, mesmo que isso signifique quebrar a aliança, profanar o templo e introduzir práticas religiosas assírias – incluindo substituir o altar de bronze de Salomão por outro de estilo assírio. Tudo é feito sob o pretexto da humildade e da reverência: “Não colocarei o Senhor à prova!”.
A hipocrisia de Acaz provoca uma repreensão severa do profeta:
«“Ouvi vós, todos os descendentes da Casa de David! Parece-vos pouco o fatigares e provares a paciência dos homens? Agora quereis também abusar da paciência do meu Deus?”» (Isaías 7, 13).
Este oráculo não é dirigido apenas a Acaz, mas a toda a casa real de David. A recusa de escutarem fez perder a paciência ao povo e agora cansa o próprio Deus. As suas escolhas levaram à devastação; e a rejeição persistente da voz de Deus faz julgar a nação.
A PROFECIA DE EMANUEL: TIPO E ANTÍTIPO
«Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: a jovem mulher está grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel» (Is., 7, 14).
O texto hebraico de Isaías 7, 14 refere-se a uma jovem em idade de casar, que em circunstâncias normais também seria virgem. No entanto, a tradução grega, conhecida como “Septuaginta”, traduz o termo explicitamente como “virgem” (parthenos). Esta tradução foi concluída por volta do período entre 285 e 246 a.C., em Alexandria, no Egipto, e tornou-se amplamente utilizada em toda a diáspora judaica.
Na época de Jesus, o Grego havia-se tornado a língua franca do mundo mediterrâneo oriental. A “Septuaginta” era a versão mais lida e citada pelos autores do Novo Testamento e pelas primeiras comunidades cristãs. Nesta tradução, a profecia de Isaías é traduzida com a palavra “virgem” (parthenos), que eles reconheceram como uma referência clara ao nascimento virginal de Cristo. Tanto Mateus como Lucas usam este termo para afirmar o cumprimento da profecia:
«Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho» (Mt., 1, 23; cf. Lc., 1, 26–37).
Esta é uma profecia multivalente. Todas as indicações sugerem que Isaías referia-se originalmente a uma criança nascida na sua própria geração, uma vez que afirma que antes que a criança amadureça os dois reis ameaçadores serão derrotados (versículo 16). Os estudiosos da Bíblia referem-se a esta passagem como um “tipo” – uma figura histórica que prenuncia uma realidade maior. O “antítipo” é Jesus, nascido da Virgem Maria, que cumpre o significado mais profundo da profecia.
Também é possível ver que a concepção virginal de Maria levou a uma releitura do Antigo Testamento, especialmente da profecia obscura de Isaías, em busca do seu significado mais completo. A sua experiência iluminou o texto sob uma nova luz.
Jesus é o Emanuel, «Deus connosco», porque foi concebido pelo poder do Espírito Santo para revelar a presença divina entre o seu povo. Este nome expressa a encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se fez carne na pessoa de Jesus, nascido da Virgem Maria.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Leia com atitude de oração e medite a passagem Isaías 7, 10–17.
Acaz preferiu o poder do mundo, ao invés de confiar na vontade de Deus. Também nós podemos ser tentados a apoiar-nos no que parece mais prático, descartando os ensinamentos morais da Igreja por os considerarmos demasiado idealistas. A nossa resistência à oração pessoal e à escuta dos outros pode revelar uma resistência mais profunda à escuta da vontade de Deus. Esta tentação pode atingir-nos a todos: podemos dar ouvidos à voz do demónio, que nos engana com pretextos, desculpas e falsos álibis.
. Estais disponíveis a reconhecer os sinais de Deus na vossa vida e na vossa comunidade cristã?
. Escutais aqueles que agem como “mediadores” da vontade de Deus?
. Reflecti sobre os momentos em que vos inclinastes ou conformastes com a opinião do mundo, sob a influência da “ditadura do relativismo”, sobretudo em questões que dizem respeito à dignidade da vida humana, desde a concepção até à morte; à chamada “saúde reprodutiva” e a outros temas que desafiam a nossa fé católica.
Maria viveu em plena sintonia com a Palavra de Deus e respondeu: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc., 1, 38).
Pedi vós ao Senhor essa mesma disposição, disponibilidade e abertura para cumprir a sua vontade.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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