A tragédia grega – último acto (adiado)

A tragédia grega – último acto (adiado)

No último fim de semana os povos do Velho Continente de fronteiras indefinidas estiveram prestes a vê-las encurtadas, com a ameaça de expulsão de quem mitologicamente lhe deu o nome.

A Europa, sem estar em guerra formal entre si, como aconteceu em largos períodos da sua longa história, acabou por cavar trincheiras no lugar dos caboucos dos seus alicerces, destruindo a vã esperança de um entendimento entre os seus povos.

O “ultimato” imposto à Grécia pelos credores europeus e o FMI, do qual resultou um pré-acordo minado de armadilhas e mais cruel do que o anterior conjunto de medidas a que os queriam sujeitar, vergou o Governo grego à aceitação de condições sociais catastróficas, a penhorar a sua soberania e património e a admitir uma solução sem solução.

Bloqueado pela pressão financeira e sem plano “B”, Tsipras, o Primeiro-Ministro grego, viu-se forçado a dizer sim a tudo o que antes tinha dito não, para conseguir o apoio a um terceiro resgate, essencial para evitar um generalizado tumulto social por falta de liquidez nos bancos.

A “União” Europeia, no seu conjunto, decidiu-se pela humilhação política do Governo grego e do partido que lhe dá apoio, com o claro objectivo de erradicar da paisagem política grega e dos restantes países europeus em dificuldades todos aqueles que são críticos da austeridade cega que tem afundado os países do sul da Europa e que colocam em causa a supremacia alemã na direcção dos destinos da Europa.

Ao obrigar o Syriza a colocar em prática, em 72 horas, um conjunto de medidas que os antigos Governos gregos (conservadores e socialistas) não conseguiram fazer durante os últimos cinco anos, os credores institucionais europeus e o FMI tentam, mesmo após o recente acordo e porque nenhum país pode formalmente ser expulso da moeda única, dar a “machadada final” no Governo grego, levando-o a admitir por si próprio a sua incapacidade para se manter na Zona Euro.

Agora e mesmo que o actual Governo grego consiga sobreviver às contradições internas que a aceitação destas medidas lhe possa ocasionar, que consiga impô-las a tempo e pagando atempadamente e enquanto pode as suas dívidas aos credores, a Grécia entrará num caminho sem retorno que a conduzirá, em pouco tempo, a uma situação bem pior do que aquela em que se encontra actualmente. E, numa situação de desespero total, após a falência de tantas experiências políticas vividas pelos gregos, não me admira que um partido de extrema direita nazi, como o Aurora Dourada, ou a reactivação de um qualquer “regime dos coronéis”, ou ainda uma congregação de movimentos anarquistas, venham a apresentar-se como interlocutores perante esta Europa que os fabricou.

Talvez o Syriza tenha falhado no tempo e no modo como conduziu estas negociações ao longo destes últimos meses, mas não faltou à verdade. Criticando e condenando, sem hipocrisias, os males de que enferma a Zona Euro e a própria União Europeia, embora sendo o elo mais fraco, os gregos puseram a nu muitos dos males de que esta construção europeia padece.

O que se passou não foi um simples problema que será ultrapassado na penumbra dos corredores dos tecnocratas e políticos de Bruxelas, foi o adiar do “último acto” desta tragédia grega.

Ficou claro quem manda e quem são todos aqueles que no “circo” dos actuais líderes europeus se ajustam aos seus “patrões” e se “borrifam” nos objectivos transnacionais da UE, em consequência das suas disputas políticas internas ou em função das suas aspirações económicas nacionais.

Foi evidente o desprezo pela situação social de um povo, parte integrante de uma Europa que sustenta como prioridade académica a integração europeia.

Foi leviana a forma como foi tratado um país, antes barreira contra as pretensões do Império Otomano e actualmente um muro de defesa contra muitas outras ameaças do mundo moderno.

A partir de agora nada será como dantes, pelo menos na forma como os cidadãos europeus olham para a Europa e uns para os outros.

Os gregos, orgulhosos da sua história e cultura poderão curvar-se agora, mas não esquecerão um dos piores episódios da sua vida, passados no seio de supostos amigos…

Luis Barreira

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