Tesouro da Revelação

A Tradição Apostólica

Tesouro da Revelação

A palavra “Tradição” deriva do Latim traditio, “entregar”, de “trader” que pode também significar “transmitir”. A etimologia ajuda-nos já por si bastante neste conceito. “Apostólica”, já se sabe, dos Apóstolos, ou melhor, da era apostólica: o ensinamento dos testemunhos transmitidos pelos fiéis de geração em geração a partir da comunidade de Jerusalém. A Tradição Apostólica, ou Sagrada Tradição, é a transmissão da mensagem de Cristo desde os começos do Cristianismo, através da pregação, dos testemunhos, das instituições, do culto e dos escritos inspirados. Como refere o Catecismo da Igreja Católica (75-79, 83, 96-98), os Apóstolos transmitiram aos seus sucessores – os bispos e, por meio destes, todas as gerações até ao fim dos tempos – tudo o que receberam de Cristo e aprendido do Espírito Santo. A Palavra revelada por Deus, transmitida na Igreja instituída por Cristo, através da guia do Espírito Santo. A Igreja Católica é pois uma Igreja da Tradição.

Deus «(…) quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade», assim nos lembra Paulo na Primeira Carta a Timóteo (1 Tm, 2,4). A verdade é Cristo, pelo que por isso Ele deva ser anunciado a todos, como aliás ele nos ordenou através do Evangelho de São Mateus (28,19), no mandamento da Missão Universal, para que não restassem dúvidas: «Ide, pois, fazei discípulos em todos os povos». O Catecismo remata este imperativo, afirmando que essa missão se leva a efeito através da Tradição Apostólica. Como? De duas maneiras: através da transmissão viva da Palavra de Deus, que simplesmente se pode chamar de Tradição; ou com as Sagradas Escrituras, o anúncio da Salvação, mas por escrito. Uma e outra estão interligadas, actualizam e dão sentido ao Mistério de Cristo, a partir da mesma fonte divina: sagrado depósito de fé, no qual a Igreja vai buscar a segurança e certeza acerca de toda a Revelação.

Depósito da Fé? Sim, o Catecismo assim proclama. Foi confiado, transmitido, pelos Apóstolos a toda a Igreja. Compõe-se das Sagradas Escrituras (Bíblia) e, claro, da Tradição Apostólica, ou Católica também dita. O Povo de Deus, vincado no sentido sobrenatural da Fé, estribado no Espírito Santo e guiado pelo Magistério da Igreja, processualmente vai acolhendo então a Revelação Divina, compreendendo-a, cada vez melhor, aplicando-a à vida. Interpretar esse depósito de fé, de forma autêntica e clara, para que esta cadeia de transmissão seja conduzida, cumpre apenas ao Magistério vivo da Igreja, ao Sucessor de Pedro, portanto o Bispo de Roma, o Papa, e aos bispos em comunhão com ele. Por estar ao serviço da Palavra de Deus, ao Magistério possui em si o carisma da verdade, competindo-lhe por isso definir os dogmas, ou seja, as formulações contidas na Revelação Divina. Autoridade e verdade, autenticidade pois na Tradição Apostólica, autoridade essa que também se estende às verdades ligadas à Revelação. Escritura, Tradição e Magistério estão extremamente ligados entre si, não existindo nenhum sem os outros, contribuindo para a Salvação dos homens, graças à graça do Espírito Santo. Teologicamente, a partir do Catecismo, poderíamos assim esclarecer o que é a Tradição Apostólica.

Há vários sentidos e significações de Tradição Apostólica entre os Padres da Igreja e os escritores da mesma, podendo-se distinguir alguns sentidos principais: o da transmissão do depósito da fé pela sucessão apostólica, advogado por São Irineu de Lyon; aquilo que não foi anotado ou redigido pelos Apóstolos, mas que a Igreja aceita como autêntico, como por exemplo as normas litúrgicas do Baptismo e da Eucaristia (Tertuliano, São Hipólito, São Cipriano de Cartago, São Cirilo de Jerusalém); a exposição da Sagrada Escritura não anotada pelos Apóstolos (São Clemente de Alexandria); o que se aceita na Igreja num determinado período (São Agostinho, São Jerónimo); e, como defendia São Vicente de Lerins, tudo em que crê a Igreja, sempre e em toda a parte. Quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est, dizia este último santo. Ou seja, “o que em toda a parte, o que sempre e o que por todos é aceite pela fé”. É um dos sentidos mais aceites, tal como o primeiro, mas com controvérsias, com outros sentidos acrescentados, pelos Papas, por exemplo, pelos Concílios, como fazendo parte da Tradição: a fé do Povo de Deus, a liturgia, os Padres da Igreja, por exemplo. «Portanto, irmãos, estai firmes e conservai as tradições nas quais fostes instruídos por nós, por palavra ou por carta» (2 Ts 2,15).

A transmissão, recorde-se, começou por ser oral, só depois passando a forma escrita, ou ambas ao mesmo tempo. Mas a plenitude da Revelação das Sagradas Escrituras está pois na Tradição Apostólica. E foi nesta Sagrada Tradição que os escritores, também por isso ditos “sagrados”, retiraram o conteúdo para escrever, plasmar, o que foi revelado. Nem todas as doutrinas que Jesus confiou aos Apóstolos foi escrita, o Novo Testamento recorda-nos isso muitas vezes, tal como ensina que devemos guardar toda a Revelação Divina, seja oral ou escrita. A Constituição Dogmática “Dei Verbum” (1965) clarifica toda a Tradição Apostólica, entre a Revelação, a Escritura, a Tradição em si: «Esta “economia” da revelação realiza-se por meio de acções e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na História da Salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido» (Cap. 1,2).

A Tradição Apostólica é pois uma exaltação da fé, o «tesouro da revelação confiado à Igreja» para que se «encha cada vez mais os corações dos homens», como proclama aquela Constituição. Ou, recordando São João Paulo II (Carta Apostólica “Ecclesia Dei”, 1988), Papa de boa memória, a Tradição progride na «(…) percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração, quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade».

Vítor Teixeira

Universidade Católica Portuguesa

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