Os Romanos na Palestina

A Terra Santa – V

Os Romanos na Palestina

Como vimos há quinze dias, assistiu-se a partir do séc. III a.C. à helenização do mundo judaico, não apenas no território de Israel mas também ao crescente número de judeus nas cidades gregas. Mas com isto não se pense na perda de fulgor ou identidade do Judaísmo ou mesmo de Israel. Não, pode-se mesmo falar no ressurgimento do grande Israel, através da dinastia dos asmonianos. Mas não sem conflitos, divisões e até perseguições.

Em Jerusalém, por aqueles tempos, séc. II a.C., os conflitos internos grassavam. Os selêucidas, isto é, os gregos da Síria, a Norte, descendentes de Alexandre Magno, aproveitam esses conflitos e dominam gradualmente a Palestina, que controlam de forma efectiva (200 a.C.), sucedendo aos lágidas, os gregos do Egipto, o outro ramo descendente do grande conquistador helénico.

Entretanto aproxima-se a vaga conquistadora romana, que se faz sentir na Síria selêucida. Aqui impõem pesados tributos. Os selêucidas, para fazer frente aos pesados impostos romanos, tentam apoderar-se dos tesouros do Templo de Jerusalém. A desordem aumenta na cidade, graças às divisões entre sacerdotes e às lutas entre os membros da classe dominante do País.

Os selêucidas forçam então ainda mais a helenização da Palestina, em particular da Samaria e da Judeia (centro e sul da Palestina). O shabat (sábado sagrado) e as circuncisões rituais são proibidos por exemplo, além de se erigir um altar pagão no Templo, em Jerusalém.

 

Dos Asmonianos aos Romanos

Uns aceitam o jugo selêucida: os helenizados. Outros não, e exilam-se no Egipto. Outros ainda revoltam-se, liderados pelos asmonianos, uma casta sacerdotal judaica. Insurreições e revoltas levantam-se, transformando-se rapidamente em luta pela independência, como nos relatam os dois livros dos macabeus. Um dos descendentes de Matatias, líder asmoniano, tomaria as rédeas e assumiria papel decisivo mais tarde, Judas Macabeu, purificador do Templo. Morreu em combate (160 a.C.) mas a independência conquista-se. Embora tributária de Roma, que a apoia o reino asmoniano. Um território que chega a ter a designação de “reino”, com um “rei”, ao mesmo tempo sumo sacerdote do Templo. Estamos na transição para o séc. I a.C., a Palestina, helenizada, está independente, mas controlada por Roma. Todavia, o território quase que atinge a dimensão do saudoso reino de David.

Mas depois de 76 a.C., ano da morte de um desses reis, Alexandre Janeu, a situação degradou-se, devido às desavenças familiares. Ali perto, na Síria, estavam os romanos, vigilantes, ainda como árbitros, atentos… Mas interventivos: em 63 a.C., o grande Pompeu, general romano, cerca e conquista Jerusalém. Como rei, colocam alguém que manipulam: Idumeu Antípatro, pai de Herodes… Este, alcunhado de o Grande, será “rei” dos judeus durante mais de trinta anos, conseguindo um reino territorialmente idêntico ao de David. Mas sendo um satélite de Roma no Oriente.

Na prática, podemos afirmar que a Síria e a Palestina se tornaram domínios de Roma. Mesmo com políticas favoráveis aos judeus, que tinham um “rei”, fantoche, os romanos dominava Israel. Primeiro Antípatro, depois seu filho, Herodes.

 

Herodes, o novo Salomão

Foi nomeado rei dos judeus pelo Senado de Roma, no ano de 40 a.C. E foi com a ajuda das legiões romanas que ascendeu ao trono, em 36 a.C., pois durante quatro anos sozinho não o conseguira. Durante mais de trinta anos será ele o senhor da Palestina. Com os romanos, entenda-se. Nesse reinado, nascerá em Belém um menino que mudaria a história e o mundo: Jesus. Mas Herodes, “amigo e aliado do povo romano”, um rei cliente de Roma, consolidou o seu poder, impondo a sua dinastia, através do afastamento, sangrento, dos asmonianos, mais legítimos que a sua casa. Até á sua morte, em 4 a.C., dominou Israel, que só com David e Salomão conseguira maior esplendor.

Com Herodes e suas alianças (Marco António, Cleópatra, Octávio…), o reino judeu dominava a totalidade da Palestina. Grande benfeitor e obreiro, Herodes mandou edificar inúmeras construções, a maior parte dos monumentos da Palestina aliás, anteriores ao Cristianismo. Inúmeras obras, impressionantes, tornam-no o “novo Salomão”: portos, aquedutos (Cesaréia…), fortalezas (Massada…), anfiteatros, templos, edifícios públicos, eis Herodes, o “construtor”. Mas tirânico e despótico! Até à morte, que adveio entre a praga que dominava a realeza israelita: dissensões familiares. O seu testamento dividia o reino pelos três filhos, mas seriam quatro (Tetrarcas) os herdeiros, por ordem, claro, de Roma, sempre atenta.

 

Roma, enfim…

Era inevitável, Roma dominava cada vez mais a Palestina. Com destaque para o sul, a Judeia, onde governava um “prefeito”, ou “governador”. Como seria Pilatos. Não falaremos aqui de Jesus, uma figura e uma história que correm paralelas e sobejamente conhecidas do estimado leitor. Falemos do contexto e da terra: a Palestina… romana.

Os judeus transformaram a sua terra num dos piores destinos para os legionários romanos. Poucos destes trouxeram de lá boas recordações, entre os que lhe sobreviveram ou de lá saíram mutilados ou incapacitados. Os abusos da autoridade romana eram contínuos, enervando e impacientando os judeus, a toda a hora em revoltas. Pilatos foi o mais perverso, tirânico, governando entre 26 e 36. Num clima de agitação, insurreições e revoltas cíclicas. Aparecem então grupos armados, de resistência, entre os judeus, como os zelotas, absolutamente opositores à dominação romana e odiando os colaboracionistas de Roma. Os zelotas têm apoios fortes entre os senhores rurais, que os apoiam. Sonha-se com a restauração do reino de Israel, mas tal era cada vez mais difícil. Os romanos impunham cada vez mais o seu jugo e silenciavam oposições. Em 66 as coisas atingiram um ponto de ruptura e de guerra.

Roma sabia bem como fazer uma guerra, por mais difícil que fosse. Iniciou-se aqui uma das fases mais dramáticas da história da Palestina. Vespasiano, famoso general e futuro imperador romano (69-79), desembarcaria em 67 em Israel, à frente de um poderoso exército de 60 mil homens, muito bem armado e organizado. Com ele vinha Tito, seu filho, e imperador mais tarde (79-81, sucedendo a seu pai). Tito completará a “pacificação romana” da Galileia, por exemplo, onde venceria José Ben Matias (futuro Flávio Josefo). Ao mesmo tempo, em Jerusalém, a situação efervescia, com facções judaicas envolvidas em guerra. A guerra civil aumentava todos dias, em 68. Neste ano, morria o imperador Nero e Vespasiano regressa a Roma. Fica Tito em Israel. Para terminar as “guerras judaicas” e impor a “paz romana”. Conseguirá?

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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