Os “Cristãos Escondidos” no Japão – I

A Secreta Transmissão da Fé

Os “Cristãos Escondidos” no Japão – I

São os “Kakure Kirishitan” (隠れキリシタン), ou “cristãos escondidos” do Japão. Fazem parte de uma das mais incríveis histórias de fé, de testemunho contínuo do Cristianismo durante mais de dois séculos, sem contactos com o exterior nem qualquer vínculo institucional. Em segredo, escondidos, não abandonaram a fé e, dentro do possível, alimentaram-na e transmitiram-na, geração atrás de geração.

Hoje fazemos uma pausa nos cismas e heresias, divisões e reformas, que têm ao longo de dois milénios torpedeado a Igreja.
A par de todas essas questões e dissidências, que valorizaram a fé e a robusteceram, no meio de todas essas querelas, lá longe, nos confins do mundo, no Japão, uma cristandade submergira no silêncio e no esquecimento, escondida e encriptada.
Hoje falaremos desses criptocristãos, os “Kakure Kirishitan”, que durante cerca de dois séculos e meio transmitiram a sua fé de forma secreta, às vezes sincreticamente, mas sem perderem os fundamentos doutrinais e alguns sacramentos. Entraram na clandestinidade após a Rebelião de Shimabara (perto de Nagasaki; rebelião composta por camponeses maioritariamente cristãos), entre 1637 e 1638, a qual terminou na derrota dos revoltosos e no édito de clausura do Japão às missões católicas e comércio com nações fiéis a Roma, bem como na proibição de saída de qualquer japonês para o exterior. Assim foi até 1873, quando foi reestabelecida a tolerância religiosa, em plena era Meiji (abertura do Japão, iniciada em 1868). Os “Kakure Kirishitan” passaram então a ser os “Mukashi Kirishitan” (昔キリシタン), ou “cristãos antigos”.

 

Da clandestinidade à restauração

Depois da morte de São Francisco Xavier, em 3 de Dezembro de 1552, na ilha de Sanchoão, bem perto de Macau, a Igreja no Japão cresceu de forma rápida. Xavier terá estado no Japão entre 1549 e 1551. Depois deste santo, a obra missionária no Império do Sol Nascente foi fortemente impulsionada pelo padre Cosme de Torres, da Companhia de Jesus, e principalmente pelo seu confrade Alexandre Valignano, visitador da Companhia no Oriente. A ele se deve a acção missionária de Matteo Ricci, jesuíta também. Valignano visitou o Japão e não raro escreveu cartas a exortar a missão ali, com base em mútuos entendimentos entre missionários e os japoneses. Estabeleceu um seminário em Azuchi (Quioto) e depois em Arima (Nagasaki), onde vários japoneses e também europeus estudariam. São Paulo Miki, São Tomás Nishi e os beatos Juliano Nakaura e Peter Kibe foram alguns dos estudantes mais conhecidos. Também leigos ali estudaram.

Graças ao labor de Valignano, partiu o primeiro grupo de enviados japoneses à Europa para demonstrar o fervor missionário e as conversões. Partiram quatro enviados, senhores feudais japoneses (daimyo) de Nagasaki em 1582, chegando a Roma em 1585, após penosa viagem. O Papa Gregório XIII recebeu-os a 23 de Março daquele ano, tal como quase toda a Cúria Romana. Depois de visitarem algumas terras na Europa, estavam de volta ao Japão em 1590. Parecia tudo correr bem para a nova cristandade nipónica. Mas não estava: em 1587, na ausência dos legados, o xogum Toyotomi Hideyoshi promulgou um édito de proibição do Cristianismo no País. Com efeito, no ano da partida do grupo, Oda Nobunaga, um xogum favorável aos cristãos, fora assassinado. Tomou o poder Hideyoshi em 1583, depois de um relativo vazio de Governo. Dominou o Japão até 1598, na aliança entre o seu clã e o dos Tokugawa, que governaria o País até 1868 (era Meiji). Os Tokugawa passaram a governar a partir de 1600, depois de dois anos de transição com o conselho dos Cinco Anciãos. Para os católicos, fora o clã de todos os pesadelos, da inconstância até à perseguição e depois ao Sakoku ( 鎖国, “país fechado”) final, decretado pelo xogum (ou “bakufu”) Tokugawa Iemitsu, em 1635.

Os enviados, refira-se, foram bem recebidos, todavia, transmitindo as impressões da recepção que mereceram na Europa. Entretanto, existiam já sacerdotes japoneses, ordenados pelo único bispo residente no Japão, D. Luís Cerqueira, SJ (bispo entre 1594 e 1614). Depois da morte deste, muitos mais seriam ordenados, principalmente fora do Japão (em Macau, Manila…). A cristandade nipónica floresceu, mas as dificuldades eram cada vez maiores. As perseguições tornaram-se mais e mais frequentes, principalmente desde a chegada de Tokugawa Yeiasu ao poder (1600-05) e dos seus sucessores (Hidetada, 1605-23, e Iemitsu, 1623-51, o que encerrou o “século cristão”…). Em 1597 temos os “26 Mártires do Japão”, franciscanos e jesuítas, japoneses e europeus; depois conheceram o martírio Pedro Manrique de Zúñiga y Velasco, agostinho, Luís Flores, dominicano, e os seus treze companheiros, martirizados em 1622. No ano seguinte, temos Vicente de Santo António (mais conhecido como São Vicente de Albufeira), martirizado a 3 de Setembro de 1623. Em 1632 recebem a palma do martírio os padres agostinhos recolectos Martín Lumbreras Peralta e Melchor Sánchez Pérez. Em 1637 temos os chamados “mártires tomasianos”, porque eram frades dominicanos do Colégio de São Tomás de Manila: São Lourenço Ruiz, Santo António Gonzalez, São Domingos Ibáñez de Erquicia, São Jacobo Kyushei Tomonaga e outros treze companheiros. Existem ainda os “205 mártires” (1598-1632); os “16 mártires” (1633 e 1637) e ainda o grupo dos 188 Mártires do Japão (1603-39). Mas o número de mártires é muito maior, estes são que a Igreja já canonizou ou beatificou, pois mais padres, irmãos e leigos foram cruelmente martirizados até 1639, quando temos os últimos vestígios públicos dos cristãos nipónicos.

Por aqui se vislumbra a terribilidade da vida dos católicos no Japão dos Tokugawa, até 1628. Depois temos ainda algumas notícias, mas pouco se sabe. A cristandade encriptou-se para viver, ou seja, para fazer mais do que sobreviver… nada mais se soube.

É importante termos este contexto histórico, que em tudo se assemelha ao Cristianismo dos primeiros séculos, em Roma, mas não só. Aqui, no Japão, conheceu pormenores incríveis. Por exemplo, em 1614 Tokugawa Hidetada ordenou o abandono do Japão pelos missionários e a obrigatoriedade dos japoneses convertidos de abandonarem a fé, sob pena de morte. Muitos não renunciaram e por isso as listas de mártires, conhecidas, acima referidas. Outros disfarçaram, ou até “misturaram”, subrepticiamente, a sua fé com as crenças locais. Mas muitos seriam descobertos e crucificados, queimados ou decapitados, além de horrendas torturas a que eram submetidos. Entre 1619 e 1622, deram-se grandes perseguições aos católicos no País, para extirpar a sua fé e cumprir os decretos de Hidetada. Nagasaki voltou a ser o palco de cruéis matanças, entre sacerdotes e leigos. Muitos ainda tentavam entrar no Japão para apoiar os cristãos que se escondiam, mas eram chacinados. Mas… que cristãos?

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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