27º DOMINGO COMUM (Mc., 10, 2-16) – Ano B

27º DOMINGO COMUM (Mc., 10, 2-16) – Ano B

O matrimónio católico é missão para pessoas maduras, caridosas e humildes

O Evangelho deste Domingo trata de uma das questões mais exigentes do Cristianismo: a indissolubilidade matrimonial. A exemplo dos dias de hoje, há dois mil anos as pessoas também questionavam esta verdade. Para justificar o seu ensinamento, Jesus reporta-nos para a criação ao mostrar que o projecto inicial e ideal de Deus para o ser humano chamado a esta vocação é a união indissolúvel entre o homem e a mulher (cf. Gn., 2, 16).

Apesar da dificuldade de os discípulos entenderem a radicalidade do que seria o matrimónio cristão, Jesus foi explícito: «o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne. Deste modo, já não são dois, mas uma só carne» (Mc., 10, 6). Aqui merece destaque desde logo a igualdade entre o homem e a mulher estabelecida pelo Sacramento do Matrimónio. Num contexto onde o Império Romano tratava a mulher como uma propriedade do homem – realidade que ainda persiste em algumas religiões até aos dias de hoje, em que o homem pode ter várias mulheres –, a Igreja fundada por Jesus sempre acreditou e defendeu que o homem e a mulher foram criados por Deus com igual dignidade, e que através do matrimónio esta dignidade atinge o grau sublime de Sacramento, podendo ser dissolvido apenas pela morte. Assim, diante da liturgia de hoje, percebemos que a indissolubilidade matrimonial é uma verdade revelada por Cristo que a Igreja não tem autoridade para mudar. Com o matrimónio católico falamos de um plano de relacionamento entre o casal elevado por Jesus à condição de Sacramento.

Infelizmente, hoje em dia, a agitação do dia-a-dia vende-nos uma realidade das novelas e séries em que tudo é tratado de uma forma relativista, ou seja, vivemos numa ilusão em que cada um considera que pode decidir o que é certo para si e tal deve tornar-se uma verdade que todos devem aceitar. Por outras palavras, como dizia o Papa Bento XVI, vivemos numa era de relativismo, em que não existe mais uma verdade absoluta, mas em que cada um decide o que é correcto segundo os seus critérios e conveniências. Ora, basta pararmos um pouco para reflectir, para chegarmos à conclusão de que isto só nos pode conduzir ao desastre da Humanidade, tal como aconteceu com Adão e Eva que quiseram ser como pequenos deuses decidindo eles mesmos o que era certo e errado.

A Igreja é sábia e está atenta ao que se passa à sua volta e compadece-se com o drama das pessoas de fé que vivem numa segunda união matrimonial e desejam comungar. Cabe a ela ajudar pastoralmente os casais a fortalecerem-se na fé, terem mais maturidade humana para viverem com fidelidade o que foi assumido e acompanhar aqueles que vivem de forma irregular. Como sacerdote, tenho tido a oportunidade de acompanhar alguns católicos que vivem numa segunda união matrimonial. Grande parte dessas pessoas desejam regularizar a sua situação de acordo com os ensinamentos de Cristo para voltarem a confessar-se, receber a Eucaristia, ou simplesmente poderem ser padrinhos de Baptismo. Na maioria dos casos, o segundo relacionamento já está estabilizado, às vezes já com filhos, pelo que é muito importante que estes casos sejam acompanhados com todo o zelo pelo sacerdote, o qual deverá inclusivamente averiguar a eventual possibilidade da nulidade matrimonial do primeiro relacionamento. Muitas pessoas confundem esta realidade e dizem que a Igreja anula o primeiro casamento. Ora, tal como se disse logo no início da reflexão, nem a Igreja, nem o Papa, podem anular um casamento validamente consumado, pois a Igreja acredita na indissolubilidade matrimonial. Nos casos de nulidade matrimonial, estamos perante casos de relacionamentos que tiveram a bênção do padre, festa, lua-de-mel e até moraram juntos por algum tempo, mas como faltou algo para que essa união se tornasse válida, na verdade, ela nunca existiu. Apesar deste tema ser novidade para muitos católicos e até incompreendido por alguns, as dioceses têm assistido cada vez mais a uma crescente procura do tribunal eclesiástico por parte dos casais em segunda união, a fim de apresentar o seu caso pessoal e confirmarem se existe nulidade matrimonial. Deve ficar assente que para que seja efectivamente decretada a nulidade matrimonial deve existir uma matéria de facto concreta que prove que o casamento na Igreja, de facto, nunca existiu.

Diante do crescente número de divorciados e segunda união matrimonial, precisamos formar melhor os nossos jovens para o sentido do amor verdadeiro. Recordo que nos meus primeiros anos de padre, quando comecei a acompanhar a preparação dos casais para o Sacramento do Matrimónio, iniciava as sessões perguntando aos casais de noivos se eles estavam a casar-se para serem felizes. A resposta dos casais era obviamente que sim, mas depois explicava-lhes que aquela meta só poderia ser alcançada se cada um deles se casasse com o propósito de fazer o outro feliz. Após alguns anos de sacerdócio, acredito cada vez mais que o matrimónio é uma missão assumida por pessoas maduras que desejam levar o outro para o céu, que sabem perdoar, dialogar, fazerem renúncias e, em alguns momentos, ter gestos heroicos de fortaleza na fé. A Igreja, ao defender o ensinamento de Jesus de que o amor deve ser duradouro e celebrado como Sacramento, reafirma que ele é possível, nobre e santificador. Diante dos diferentes dramas de católicos espalhados por todo o mundo, peçamos a graça de vivermos sempre a caridade na verdade.

Pe. Daniel Ribeiro, SCJ

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