QUINZE ANOS APÓS A TRANSFERÊNCIA DE SOBERANIA

Quinze anos após a transferência de soberania

Prosperidade pouco social

Chui Sai Cheong, Manuel das Neves, José Maneiras, Carlos Marreiros e Jorge Silva falaram a’O CLARIM sobre a transferência de poderes e os quinze anos da RAEM. Se a entrega de Macau à China foi exemplar e a liberalização da indústria do Jogo trouxe prosperidade ao território, já outras políticas ficaram aquém do desejado.

O deputado eleito pela via indirecta, Chui Sai Cheong, disse a’O CLARIM que «houve muitas conquistas após a entrega de Macau à China» e que quinze anos após o estabelecimento da RAEM «muito mais poderá ainda ser feito, porque há espaço para melhorias e o mundo está a mudar rapidamente».

Desse modo, defendeu que «os secretários e o novo Governo devem olhar para a história dos últimos anos e estar cientes de quais as maiores preocupações da população».

O também 1.º secretário da Assembleia Legislativa é da opinião que as relações entre a República Popular da China e Portugal vão continuar a ser excelentes, tendo Macau como ponte de entendimento: «Estou muito seguro disso. A amizade, a relação especial e a cultura têm sido essenciais, porque Macau é a melhor plataforma para ambos os países».

Para Manuel das Neves, «a transferência de poderes foi uma data importante», porque sob o lema «Macau governada pelas suas gentes também a comunidade portuguesa tem estado activa».

O director da Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) congratulou-se ainda com as «garantias dadas à continuidade da comunidade portuguesa», que «ficaram confirmadas com o passar do tempo», porque os «portugueses têm desempenhado um papel importante» na RAEM. «Os receios e as incertezas no período que mediou a transferência revelaram-se infundadas, porque pouco se alterou desde então», exemplificou o responsável da DICJ.

Se a liberalização da indústria do Jogo, em 2002, foi um marco importante do pós-1999, ao resultar no sucesso do crescimento económico da RAEM, também reconheceu que nem tudo correu bem. «É impossível ser tudo perfeito, mas no computo geral, pesando os pratos da balança, foi muito positivo para Macau, que tem um desenvolvimento económico único do mundo. Podemos considerar a liberalização como uma medida acertada», frisou Manuel das Neves.

 

Nova bandeira

Segundo José Maneiras, a transferência de poderes «não foi dramática», porque «funcionou de forma exemplar», quando comparada com «a descolonização portuguesa noutras partes do mundo», porque no caso de Macau «foi tudo preparado atempadamente».

«A prova é que Macau continua hoje com bastantes portugueses, enquanto muitos outros continuam a chegar, por vezes por iniciativa própria, e o Português é uma das duas línguas oficiais», explicou o arquitecto e ex-deputado da AL.

«Foi o mudar de bandeira, o que era natural depois do regresso de Hong Kong [à Mãe-Pátria], embora ao contrário da ex-colónia britânica, com terras arrendadas ao Reino Unido até 1997, em Macau não havia limite temporal», acrescentou José Maneiras.

Para Carlos Marreiros, o sucedido há quinze anos foi «proporcionado por um instrumento do Direito Internacional, chamado Declaração Conjunta, que as duas soberanias [Portugal e RPC] contrataram atempadamente para fazer o “handover”».

Apesar da incerteza que pairava no ar, o arquitecto macaense não se arrependeu de continuar no território. «Disse na altura que acreditava no futuro de Macau. Lembro-me muito bem de ter consultado a minha família em 1991 e de termos decidido continuar em Macau. As pessoas estavam preocupadas e o meu pensamento foi que se tivéssemos de recomeçar a vida, porque não continuarmos no mesmo lugar?», lembrou.

«Acreditei na continuidade da minha vida, indivíduo e família, e também na vida colectiva. Quinze anos depois Macau está muito bem e a comunidade portuguesa, além de respeitada, é parte importante do segundo sistema», referiu Marreiros, sublinhando que «todas as comunidades de Macau, juntas, constroem o futuro por mais quinze anos, e por aí fora, até ultrapassarmos os cinquenta anos da Lei Básica».

 

Futuro

O jornalista Jorge Silva enalteceu o «momento decisivo na história de Macau» que «decorreu com total normalidade», porque «a transferência foi exemplar devido à amizade e estreita cooperação entre os Governos de Portugal e da República Popular da China».

Salientou depois que a «nova fase marcante» da vida local, «sobretudo por causa da liberalização da indústria do Jogo, foi uma decisão muito sábia do antigo Chefe do Executivo, Edmund Ho», porque «permitiu à RAEM dar um salto de desenvolvimento económico notável, sendo um dos locais com mais prosperidade e dinheiro face à sua dimensão territorial».

Mas o editor e apresentador do Canal Macau da TDM, a residir no território desde 1983, também não esqueceu várias situações negativas: «O desenvolvimento económico não tem sido acompanhado por um melhor planeamento urbanístico e rodoviário, o Governo, teimosamente, não quis intervir no imobiliário após o disparar dos preços das rendas de casa e muitos taxistas comportam-se de forma inqualificável».

Jorge Silva atribuiu culpas ao Governo, que acabou por não intervir em vários sectores que mexem com a vida dos cidadãos: «Percebe-se que nestas áreas há uma série de interesses ligados ao Governo e aos deputados da Assembleia Legislativa que está a esmagar a classe média e os jovens, que não têm perspectivas de emprego, para além da Função Pública e dos casinos».

As «renovadas esperanças» do veterano jornalista vão para «o novo Executivo da RAEM», que a partir de amanhã passará a ter «algumas personalidades fortes que poderão aconselhar melhor o Chefe do Executivo a mudar de políticas».

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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