Francisco José Viegas

Quetzal assume risco de publicar “Best Seller” de autor chinês em Portugal

Contra o preconceito

A editora Quetzal vai publicar em Portugal, no próximo mês, o livro “Cifra”, do escritor chinês Mai Jia (pseudónimo de Jiang Benhu). Trata-se da versão portuguesa do best seller “Decoded”, que recebeu críticas bastante favoráveis no Ocidente.

«Vou ainda publicar mais dois livros dele. Não vou ter grande sucesso, porque há um grande preconceito contra os chineses em Portugal», assumiu a’O CLARIM Francisco José Viegas, responsável pela direcção editorial da Quetzal.

No seu entender, «[a classe política] ou tenta vender-lhes vistos “Gold” ou tem uma reacção política muito preconceituosa, tanto à esquerda, como à direita. Tenho pena que assim seja», referiu o também escritor, que vai lançar em Outubro um novo romance policial do inspector Jaime Ramos, decorrendo a parte final do enredo em Macau.

«É uma história que tem a ver com Angola, Macau e o Brasil, e com um indivíduo que a certa altura da sua vida só tem uma solução, a de fugir, e o sítio onde se esconde é Macau. O inspector [da Polícia Judiciária do Porto] faz todo este percurso desde Portugal até Macau, e também pelo norte da China», explicou à margem da 4ª edição da “Rota das Letras – Festival Literário de Macau”.

No romance, o leitor terá a oportunidade de seguir Jaime Ramos por locais tão insuspeitos, como a pastelaria Caravela, o Hotel Sintra, o Venetian, a praia de Hác-Sá e o restaurante “Fernando’s”. «Há uma coisa que não é. Não é sobre o Jogo, mas há uma cena em que o inspector vai ao Venetian, porque precisa falar com um tipo, por isso marca um encontro com ele e fica completamente deslumbrado pelo ambiente circundante, ao ponto de não se lembrar de uma única palavra que o outro lhe disse», desvendou o autor do best seller “Morte no Estádio”.

«Nos outros livros o inspector Jaime Ramos vai a Cabo Verde, à Guiné, a Angola, ao Brasil, a Moçambique, mas no que será lançado este ano vamos poder encontrá-lo em Macau, que é uma espécie de último refúgio», acrescentou.

«Quando uma pessoa está do outro lado do mundo e quer mesmo esconder-se vem então para Macau, que além de ser um território pequeno é mais estranho para os portugueses de Portugal, porque na sua generalidade não o conhecem e têm muitos preconceitos, visto não terem a noção do que é Macau», salientou.

Francisco José Viegas esclareceu que o seu pensamento sobre os portugueses não está relacionado com a criminalidade propriamente dita, porque «seria de uma arrogância muito grande» se «não vivesse cá e escrevesse» sobre o que desconhecia.

Ainda sobre o último refúgio: «Não é nada de mau para Macau. É a noção de que Macau é um território especial, um bocado como se alguém quisesse estar num lugar onde não fosse estranho, mas mediante todos os outros lugares onde ele não podia ser estranho a cara dele podia passar despercebida em Macau».

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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