Unidos pela língua e pelo prato

Rota dos 500 Anos-Unidos pela língua e pelo prato

Na semana passada queixava-me da pouca chuva. Pois esta semana veio toda de uma vez. E o calor, esse, ficou também a acompanhar o ambiente bem húmido, um pouco ao estilo de Macau nos meses de Verão. Foram três dias em que caiu mais água do que em Macau num ano inteiro; um dilúvio ao estilo das Caraíbas. Mesmo com o nosso rudimentar sistema de captação de água da chuva foi possível recolher alguma para ajudar a encher os tanques.

Desde que chegámos a Grenada ainda não foi preciso comprar água, graças a Deus! É que apesar de ser cara, o que pesa no orçamento, temos sabido que aqui não é de muito boa qualidade. A que cai do céu e a que vamos produzindo tem dado para todos os nossos gastos diários.

Para quem não sabe, produzimos toda a nossa água, tanto para cozinhar como para beber, como também para tomar banho e lavar a roupa. São cerca de 500 litros a cada quinze dias, com lavagem de roupa incluída, pelo que toda a que se poder aproveitar da chuva é bem-vinda.

Os dias negros e chuvosos começaram logo na segunda-feira e duraram até quarta-feira. Depois voltou o calor e o céu limpo com nuvens passageiras. Ao final do dia, regra geral, tem sempre chovido um pouco mas por curtos períodos de tempo.

A semana foi preenchida com o aviso das autoridades para a implementação de um perímetro de segurança de cinco quilómetros em redor do vulcão subaquático que aqui existe. A sua actividade intensificou-se e têm sido registados fenómenos sísmicos mais frequentes, pelo que as autoridades decidiram interditar a passagem de barcos pela zona do vulcão. Não fosse o facto de termos de passar por essa zona quando formos a Carriacou, pouco nos teria dito, por isso temos mantido alguma atenção ao desenrolar da situação.

A meio da semana foi altura para mais uma reunião da “turma” que fala Português nestas paragens. Desta feita não foi para discutir itinerários ou planos para o futuro, mas para acolher um jovem português que nos veio bater ao casco.

Chama-se Joel, é do Alentejo, de perto de Beja, e vive na Suíça, onde acabou de terminar o mestrado em Microbiologia. Antes de entrar na árdua vida activa veio passar uns dias a Grenada e escolheu ficar alojado num dos veleiros ancorados ao lado do nosso. O barco é propriedade de um sueco, que o aluga a preços módicos para viajantes de mochila às costas. Uma opção diferente dos hotéis e que muitos viajantes aqui – e na Europa – usam para reduzir os encargos com alojamento.

No dia em que nos conheceu jantou à nossa mesa e ficou muito surpreendido por saber que havia outros falantes de Português nestas paragens, por isso achei por bem organizar o jantar para que os ficasse a conhecer. Para além das tripulações do El Caracol e do Gentileza – os velejadores do Arthi e do Cabo Frio não puderam comparecer – travou conhecimento com um tripulante francês, que fala Português fluentemente (até eu pensava ser brasileiro) e que tem os filhos a viver na mesma cidade suíça.

Apesar da chuva, os dias têm sido muito preenchidos. Quando o tempo assim o permite, há sempre algo para fazer no exterior. Depois de muito ponderarmos e discutirmos, deixámos de lado a cobertura fixa do poço. Neste momento as soluções possíveis não nos atraem muito, por isso avançámos para a transferência do painel solar, que se encontrava na popa do veleiro, para cima da cobertura de lona do poço. O Dee está agora com a traseira mais livre e o leme de vento pode ser utilizado sem qualquer impedimento. Passados dois anos de termos o enorme painel solar na parte de trás do veleiro, ainda nos faz um pouco de confusão olhar e ver o espaço livre. O mesmo coube na estrutura por cima do poço sem qualquer problema – a maior dificuldade foi passar os cabos eléctricos de forma a que não obstruíssem quaisquer movimentos. Foi uma manhã de muito suor e alguns arranhões a trabalhar em espaços apertados. Por vezes queria ter umas mãos bem mais pequenas.

O sistema solar continua com a mesma capacidade, mas como o painel é enorme temos de puxar a retranca para o lado para evitar que faça sombra sobre o mesmo. Os outros dois painéis que já ali se encontravam tinham sido instalados de forma a que a retranca ficasse centrada não fazendo sombra.

A meio está ainda o projecto de reparação das janelas frontais da cobertura do poço. Tinha rebentado na parte de baixo, onde encaixa a fibra de vidro, e tinha de ser reforçada. Está terminado o trabalho a bombordo; falta o estibordo.

Entretanto, enquanto escrevia estas linhas, tivemos a sorte de apanhar um xárem com cerca de quatro quilos. Tem sido recorrente nestas águas, ao início da noite, apanharmos xárens (ou xaréu) com isca viva. Quando temos tempo durante o dia apanhamos uns “jaquinzinhos” com linha à mão, na borda do barco, e usamos um deles para isca viva na cana mais forte, que fica segura ao lado do barco durante a noite. Nos últimos tempos não temos tido muita sorte. Desde que chegámos a Grenada apenas apanhámos uma moreia (ao anzol com isca viva, acreditem!) e agora este xarém. Vai servir de almoço para as tripulações do Dee e do Gentileza porque é muito peixe apenas para uma família.

João Santos Gomes

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