Teologia, uma dentada de cada vez (6)

Mateus foi o autor de Mateus?

Mateus foi o autor de Mateus?

Os manuscritos das Sagradas Escrituras (“evidência interna”) e as obras que a eles se referem (“evidência externa”) fornecem-nos garantias de que a Bíblia dos nossos dias não é uma falsificação feita na Idade Média. Podemos, no entanto, desejar conhecer mais sobre os seus autores. Estamos especialmente interessados nos quatro Evangelhos, porque nos descrevem a vida de Jesus.

Deixem-nos ver em primeiro lugar a “evidência externa” que aponta para os autores.

Tertuliano de Cartago (entre 160 e 220 d.C.) mencionou os quatro evangelistas em “Adversus Marcionem” – “Refutando Marcião”. Para além das alegações de que o Evangelho de Marcião era falso, acrescentou: “Esse Evangelho que Marcos fez está indicado com sendo de Pedro, que Marcos interpretou (ou cujo intérprete foi Marcos)”. Estudaremos sobre este assunto mais tarde.

Santo Irineu, bispo de Lion (140-203), era discípulo de São Policarpo de Esmirna (155-156), o qual, por sua vez, era discípulo de São João, o Apóstolo. Santo Irineu escreveu na sua obra “Adversus Haereses” – “Contra as Heresias” que “Mateus também escreveu um Evangelho entre os hebreus, no seu próprio dialecto”, acrescentando que “Marcos, o discípulo e interprete de Pedro, também fez um (Evangelho) e deixou-nos escrito tudo o que fora pregado por Pedro. Lucas, o companheiro de Paulo, registou em livro o Evangelho por ele pregado. Depois, João, o discípulo do Senhor, que também se debruçou sobre o Seu peito, publicou um Evangelho durante o tempo em que residiu em Éfeso, na Ásia”.

Orígenes (185-254/255), no seu “Comentário Sobre Mateus” declarou: “Aprendi, pela tradição, que o Evangelho segundo Mateus, que fora um publicano (cobrador de impostos) e depois um apóstolo de Jesus Cristo, fora escrito antes; e que ele o redigira na língua hebraica e o publicara para uso dos convertidos do Judaísmo. A segunda obra estava de acordo com Marcos, que a escrevera de acordo com as instruções de Pedro, o qual, na sua ‘Epístola Geral’ reconhece-o (trata-o) como a um filho, dizendo: ‘A igreja que está na Babilónia, eleita contigo, saúda-vos assim como a Marcos, meu filho’”.

E terceiro, o Evangelho recomendado por Paulo estava de acordo com Lucas, o qual ele escrevera para os gentios convertidos. E, no fim, era segundo João.

A “evidência externa” não apenas nomeia os autores, como ainda nos mostra a qualidade dos seus outros trabalhos.

MATEUS – Escreveu de tal forma que Santo Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes e Eusébio declararam que (1) Mateus é o autor do primeiro Evangelho; (2) dirigiu o seu trabalho aos judeus; (3) escreveu em Aramaico; (4) pretendia, ou fortalecer as novas conversões dos judeus, ou atrair (mais) outros interessados.

MARCOS – Escreveu de forma a que Papias, Santo Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes e Tertuliano associaram Marcos a São Pedro, e confirmaram que Marcos foi solicitado, pelos primeiros cristãos de Roma, a escrever os ensinamentos de São Pedro.

LUCAS – São Jerónimo, Eusébio, Orígenes, Santo Ireneu, São Policarpo e São Justino, o Mártir, confirmam que o terceiro Evangelho fora escrito por Lucas, um gentio, médico e companheiro próximo de São Paulo. Este escreveu para os não judeus convertidos ao Cristianismo.

JOÃO – Santo Ireneu, discípulo de São Policarpo, que por seu lado era um discípulo do próprio São João, é uma excepcional testemunha de que São João escreveu este Evangelho. Eusébio, Justino e muitos outros também atestam a sua autoria.

Da próxima vez iremos examinar a “evidência interna” (conteúdo e estilo dos Evangelhos) e verificar se estão de acordo com a “evidência externa”.

Pe. José Mario Mandía

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