São Francisco Xavier celebra-se no dia 3 de Dezembro

SÃO FRANCISCO XAVIER

O Grande Apóstolo do Oriente

Nas missões evangelizadoras, São Francisco Xavier foi o maior conquistador do Oriente, embora não fosse o primeiro. Recebera de Deus uma missão: preparar os caminhos asiáticos para o Senhor. Sem os portugueses a vida do Santo Jesuíta teria sido certamente diferente. A acção missionária de São Francisco Xavier subiu alto e abrangeu vastos horizontes, aproveitando a crista heroica da vaga que percorria o Sul da Ásia, desde a embocadura do Mar Vermelho às costas da China, no desbravamento do paganismo, pelos portugueses, ao longo das rotas marítimas e comerciais que se iam abrindo. De facto, Portugal foi quem o levou, carinhosamente, por todos os Oceanos.

São Francisco Xavier nasce no castelo de Javier (reino de Navarra – Espanha), a 7 de Abril de 1506.

Aos 18 anos foi estudar Humanidades, no Colégio de Santa Bárbara (Paris), acabando por se formar em Filosofia e Teologia, pela Universidade Sorbonne.

Vaidoso e ambicioso, buscava a glória de si até conhecer Inácio de Loyola, com quem fez amizade; e que sempre repetia ao novo amigo: «Francisco, que adianta o homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma?». Com o tempo e intercessão de Inácio de Loyola, o coração de São Francisco Xavier foi cedendo ao amor de Jesus, até que entrou no verdadeiro processo de conversão, tornando-se co-fundador da Companhia de Jesus.

A 15 de Agosto de 1534, na Capela de Montmartre, faz votos de pobreza e castidade perpétua. Recebe as Ordens Sacras em Veneza a 24 de Junho de 1537, seguindo depois para Roma onde se coloca à disposição do Papa para o serviço da Igreja.

A 15 de Março de 1540 parte de Roma com destino a Lisboa, onde chega três meses depois, enviado pelo Papa Paulo III. Era a resposta de Roma aos apelos veementes do Rei de Portugal, D. João III, preocupado com a evangelização da Índia e a expansão da Fé no Oriente.

 

De Portugal para o Oriente – Chegado a Lisboa, São Francisco Xavier refugia-se no Hospital de Todos-os-Santos, onde de imediato se dedica aos doentes e ao ensino da doutrina cristã.

Empenhado no caminho da santidade, São Francisco Xavier foi designado por Inácio de Loyola para a missão a Oriente. Antes da partida, o Rei D. João III entrega-lhe o Breve Papal, nomeando-o Núncio Apostólico nas Partes da Índia, com amplos poderes para estabelecer e manter a Fé em todo o Oriente.

Muitos foram os reis portugueses que impulsionaram a fé e apoiaram as missões, enviando para o Oriente remessas de livros piedosos e catecismos. Por exemplo, D. Manuel I enviou uma boa quantidade de obras espirituais e de teologia aos mosteiros da Índia.

São Francisco Xavier veio assim dar ao Catolicismo um grande impulso na Ásia e continuidade – com grande entusiasmo – ao trabalho entretanto iniciado nos caminhos do Senhor.

A 7 de Abril de 1541 parte na armada das índias, vindo a tornar-se um Apóstolo Santo. Depois de uma breve passagem por Moçambique, São Francisco Xavier chega a Goa a 6 de Maio de 1542 – numa conturbada viagem de treze meses – sendo esta a principal colónia portuguesa no Oriente, onde os europeus esquecidos da sua missão civilizadora se dedicavam ao lucrativo comércio e se deixavam arrastar pela sensualidade e pelos vícios do mundo pagão.

Em poucas semanas fez-se sentir naquela cidade o benéfico efeito da acção da presença das pregações e do activo zelo do novo missionário. “Tantos eram os que vinham confessar-se que se eu fosse dividido em dez partes todas elas precisariam atender confissões”, escreveu em Setembro de 1542 aos jesuítas de Roma. Depois de passar alguns meses em Goa, São Francisco Xavier rumou para terras ainda mais distantes, percorrendo toda a costa sul da península indiana. A partir de então a sua vida tornou-se um ininterrupto peregrinar por terras, mares e ilhas longínquas, alargando sem cessar as fronteiras do Reino de Cristo. Em carta de Janeiro de 1544 disse aos seus irmãos de vocação: “Tanta é a multidão dos que se convertem à fé de Cristo nesta terra por onde ando, que muitas vezes me acontece ter os braços cansados de tanto baptizar (…). Há dias em que baptizo todo um povoado”.

Um ano depois relatava novas maravilhas operadas por Deus naquelas paragens, “notícias destas partes da Índia: faço-lhes saber que Deus nosso Senhor moveu muitos, num reino por onde ando, a se tornarem cristãos, de modo que num mês baptizei mais de dez mil pessoas. (…) Depois de baptizá-los, mando derrubar as casas onde tinham seus ídolos e ordeno que rompam as imagens dos ídolos em pequenas partes. Acabando de fazer isto num lugar, dirijo-me a outro, e deste modo vou de lugar em lugar fazendo cristãos”.

 

No Império do Sol Nascente – Quanto ao Japão, não há notícia de nenhum padre que lá tivesse chegado antes de São Francisco Xavier. No entanto, já alguns comerciantes portugueses tinham naquele arquipélago falado certamente da religião cristã, pois trouxeram consigo um japonês para este se confessar a São Francisco Xavier.

Certo dia, na cidade de Malaca, apresentaram-lhe um homem de olhos oblíquos e mirada inteligente, que havia percorrido centenas de milhas, tendo como único intuito encontrar-se com o célebre e venerável ocidental que perdoava os pecados. Seu nome era Hashiro e a sua terra natal o Japão. Imediatamente vislumbrou São Francisco Xavier a riqueza que seria para a Igreja se o povo representado por esse intrépido neófito fosse santificado pelas águas do baptismo. Escreveu de seguida a Inácio de Loyola, em Janeiro de 1549: “Não deixaria eu de ir ao Japão pelo muito que tenho sentido dentro de minha alma, ainda que possuísse a certeza de que haveria de passar pelos maiores perigos da minha vida, porque tenho grande esperança em Deus Nosso Senhor que nessas terras há de crescer muito nossa santa fé. Não poderia descrever quanta consolação interior sinto em fazer esta viagem ao Japão”.

Entre Junho e Agosto de 1549, viaja para o Japão num junco de um “pirata” chinês e chega a Kagoshima. Lutando contra adversidades de toda a ordem, São Francisco Xavier passou mais de dois anos no remotíssimo Império do Sol Nascente. Fundou igrejas, anunciou a verdadeira fé a príncipes e nobres, a pobres camponeses e inocentes crianças.

Em carta, declarava aos seus irmãos residentes em Roma: “Pela experiência que temos do Japão, faço-lhes saber que seu povo é o melhor dos descobertos até agora”. Entretanto, tendo como objectivo conseguir mais missionários para essa promissora terra, partiu de volta à Índia, deixando no Japão – que não mais veria – uma robusta e florescente cristandade.

 

A última viagem – São Francisco Xavier sai do Japão – onde levantou a Cruz do Senhor no arquipélago nipônico – e regressa à Índia por pouco tempo, apenas o suficiente para atender as necessidades da Companhia de Jesus nessas terras e preparar a tão desejada viagem à China. A China era agora a sua grande meta; pela importância do império chinês, pela sua incalculável população e, sobretudo, pelo seu prestígio e riqueza cultural. Compreendeu que se ali fizesse correr as águas baptismais a Ásia inteira se prostraria aos pés do Divino Redentor. “Este ano espero ir à China pelo grande serviço a nosso Deus que lá se poderá obter”, relatou em Janeiro de 1552 a Inácio de Loyola. No mesmo ano, referindo-se a esta nação, comunicou aos seus irmãos de vocação os anelos e esperanças da sua alma de missionário: “Vivemos com muita esperança de que se Deus Nosso Senhor nos der mais dez anos de vida veremos grandes coisas nestas regiões. Pelos méritos infinitos da Morte e Paixão de Deus Nosso Senhor espero que Ele me dê a graça de fazer esta viagem à China”.

Um dedicado amigo do infatigável missionário, chamado Diogo Pereira, empregou toda a sua fortuna e fretou um navio que carregou com esplêndidos presentes para o Imperador da China. Adquiriu magníficos paramentos de seda e de damasco, e todo o tipo de ricos ornamentos para celebrar a Santa Missa com toda a pompa, de modo a dar aos chineses noção da grandeza da verdadeira religião que lhes seria anunciada.

Antes de viajar, o Santo dirigiu-se ao Rei de Portugal, em Abril de 1552: “Parto daqui a cinco dias para Malaca, que é o caminho da China, para ir dali, em companhia de Diogo Pereira, à corte do imperador da China. Levamos ricos presentes comprados por Diogo Pereira. E da parte de Vossa Alteza levo um que nunca foi enviado por nenhum rei nem senhor a esse imperador: a Lei verdadeira de Jesus Cristo Nosso Redentor e Senhor”.

Assim, no dia 17 de Abril de 1552, embarcou na nave Santa Cruz para conquistar o império dos seus sonhos. No entanto, poucos dias de navegação haviam transcorrido quando se desencadeou uma terrível tempestade. A tripulação do navio, espantada com a violência dos ventos e do mar, perdia qualquer esperança de salvação e pedia com grandes clamores o sacramento da Penitência. São Francisco Xavier, imperturbável, recolheu-se em profunda oração e imediatamente o vento cessou de soprar, e as ondas tornaram-se suaves e calmas, pela fé e pelas preces deste humilde servo de Deus.

Após esta adversidade não cessaram os infernos de levantar obstáculos e contrariar a viagem. “Tende por certo e não duvideis, que de modo algum quer o demónio que os da Companhia do nome de Jesus entrem na China”, disse aos padres Francisco Pérez e Gaspar Barzeo.

Chegado à cidade de Malaca, última escala antes de penetrar em águas chinesas, inopinadamente o capitão português desse porto – que, aliás, devia o seu cargo aos bons ofícios e recomendações de São Francisco Xavier – impediu a continuação da viagem, alegando que só a ele caberia o comando de uma expedição à China. Tendo sido inúteis todas as súplicas e rogos, empregou São Francisco Xavier um último recurso: apresentou a bula papal que o nomeava legado pontifício, a qual até então nunca havia utilizado, e exigiu a plena liberdade de viajar à China em nome do Papa e do Rei de Portugal. Também isto seria inútil. A ambição e a cobiça do infeliz levaram-no ao extremo de insultar e maltratar o peregrino da glória de Deus. Finalmente, após várias semanas de espera, a nave Santa Cruz pôde singrar as águas em direcção à China, mas sob o comando de homens nomeados pelo capitão português, o qual morreu pouco tempo depois, excomungado e corroído pela lepra.

Com o coração partido, São Francisco Xavier revelou ao padre Gaspar Barzeo: “Não podereis acreditar quanto fui perseguido em Malaca. Vou para as ilhas de Cantão, no império da China, desamparado de todo humano favor”.

 

Com os olhos postos na China – Em Outubro de 1552 desembarca o Santo missionário na ilha de Sanchoão, onde os navios europeus costumavam aportar para comercializar com os chineses, a dez léguas de Macau, e onde viria a morrer. A inóspita ilha de Sanchoão situava-se a cerca de 180 quilômetros da cidade de Cantão, que São Francisco Xavier esperava alcançar. Esforçaram-se os portugueses para ali encontrar, entre os numerosos mercadores chineses, alguém que se prontificasse a levá-lo a Cantão. Todos, porém, se escusavam, pois tal estava vedado pelas leis imperiais e os transgressores arriscavam perder todos os haveres e até a própria vida. Por fim, um deles, decidido a correr o risco, dispôs-se a transportar São Francisco Xavier numa pequena embarcação, mediante o pagamento de duzentos cruzados.

“Os perigos que corremos neste empreendimento são dois, segundo a gente da terra: o primeiro é que o homem que nos leve, depois de receber os duzentos cruzados, nos abandone numa ilha deserta ou nos jogue ao mar; o segundo é que, chegando a Cantão, o governador nos mande para o suplício ou para o cativeiro”, escreveu ao padre Francisco Pérez.

Acompanhado de apenas dois auxiliares – um indiano e um chinês – ficou na ilha de Sanchoão à espera do retorno do comerciante que se comprometera a transportá-lo. Celebrava diariamente o Santo Sacrifício do Altar, olhando sem cessar para o continente pelo qual com tanto ardor suspirava. Mas os dias e as semanas foram passando, e em vão aguardou São Francisco Xavier: o chinês, infelizmente, não mais voltou.

 

Morte em Sanchoão – As forças físicas do ardoroso missionário chegaram ao fim. Uma altíssima febre obrigou-o a recolher na sua improvisada cabana, onde desamparado dos homens e padecendo de frio, fome e toda a classe de privações passou os últimos dias da sua heroica existência, na terra de exílio. Havia ultrapassado grandes obstáculos e operado verdadeiros milagres. Alguns dias antes de entregar o espírito, entrou em delírio. Falava continuamente da China, do seu veemente desejo de converter esse império, e da glória que adviria para Deus se esse povo fosse atraído para a Santa Igreja Católica.

Nas primeiras horas da madrugada de 3 de Dezembro de 1552, São Francisco Xavier expirou docemente no Senhor, sem uma queixa ou reclamação, visando ao longe a China que não conseguira conquistar e que tanto havia desejado depositar aos pés do seu Rei, Nosso Senhor Jesus Cristo. Na agonia, António de Santa Fé colocou-lhe uma vela acesa na mão e relatou: “A sua bendita alma partiu-se desta vida, quase sem nenhum trabalho”. As suas derradeiras palavras foram retiradas de um cântico de glória: “Em Vós espero, Senhor. Não me abandoneis para sempre!”.

Em 17 de Fevereiro de 1553 o seu corpo é removido e levado para Malaca, e daqui para Goa, onde chega a 16 de Março de 1554. A recebê-lo, numa impressionante manifestação de Fé, estavam o Vice-Rei, o Clero, a Nobreza e o imenso Povo. A fama de Santo – o “Santo de Goa” – chegava a toda a parte, e as suas virtudes eram exaltadas.

O corpo repousa ainda hoje numa riquíssima urna de prata, na Basílica do Bom Jesus, na Velha Goa. Para lá se dirigem todos os anos milhares de peregrinos, crentes e não crentes, venerando o Apóstolo incansável.

Em 25 de Outubro de 1619 São Francisco Xavier é beatificado pelo Papa Paulo V e canonizado pelo Papa Gregório XV em 12 de Março de 1622.

Macau tem uma capela dedicada a São Francisco Xavier, em Coloane, e guarda uma relíquia do padroeiro dos missionários – um osso do úmero do braço direito – na Igreja de São José.

São Francisco Xavier, rogai por nós!

Miguel Augusto 

com Arautos do Evangelho e Companhia de Jesus.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *