Rota dos 500 Anos

Rota dos 500 Anos

À Vela até Aruba

(Já que o motor continua a dar problemas)

Com mais de um mês de estadia em Curaçao e depois de expirado o meu visto de turista, deixámos a ilha sem que os responsáveis da imigração tenham levantado qualquer objecção.

Os últimos dias passados na ilha dos portugueses foram de despedida e de algumas lágrimas, afinal é um local que nunca mais iremos esquecer. Foi aqui que a nossa vida mudou com a descoberta do cancro da NaE.

No dia em que decidimos sair o mecânico que procedeu à rectificação do motor esteve a bordo. Verificou tudo durante uma pequena viagem na zona dos ancoradouros. Como estava tudo bem tivemos luz verde para prosseguir a viagem. Acontece que como se demorou mais tempo do que o planeado – quando acabámos de preparar o veleiro era já noite – não quisemos arriscar sair da lagoa, uma vez que o canal é pouco profundo. Saímos então no dia seguinte à hora de almoço, sem quaisquer problemas, até que já no mar o motor voltou a fazer das suas… e aqueceu!

Não querendo arriscar continuarmos a viagem sem motor, contactámos a Guarda Costeira para que nos auxiliasse a entrar num dos ancoradouros. Em Curaçao são todos difíceis de aceder sem ajuda de motor. Volvidas algumas horas nada fizeram. Se não tivéssemos contactado amigos em terra, teríamos ficado em apuros. A uma milha do ancoradouro de Santa Cruz veio ajudar-nos o seu único morador, tendo-nos rebocado até ao pontão situado em frente de sua casa. A história de Juri, assim se chama este morador solitário, será aqui relatada numa outra edição. Garantimos desde já que é bem interessante.

No dia seguinte chamámos o mecânico, que veio assim que pôde e abordou rapidamente o problema. Ao que parece, entrou água num dos pistons, devido à forte ondulação do mar. A bomba de água deixou de funcionar. Com o problema resolvido e ouvidas as devidas instruções, o mecânico deixou-nos e reiniciámos a viagem. Mais uma vez, com o tardar da hora decidimos zarpar no dia seguinte de madrugada.

Como estávamos com pouca bateria efectuámos o percurso com quase todos os instrumentos electrónicos desligados. Desta vez velejámos sem quaisquer problemas, numa média muito boa para o pouco vento que se fez sentir. Quando entrámos no canal entre a Venezuela e Aruba aproximámo-nos o mais possível de Puerto Escondido (Venezuela). Assim teríamos um bom ângulo para apontarmos a um ancoradouro, caso o motor não cooperasse.

Em Aruba os veleiros têm primeiro de contactar a Guarda Costeira para saberem onde dar entrada na ilha. Só depois podem ancorar ou ir para a marina. Já antevendo problemas mecânicos preparámo-nos para a eventualidade de termos de cometer uma ilegalidade. Na senda da poupança de energia, até o rádio estava desligado.

Assim que entrámos em águas de Aruba e quando já tentávamos – sem sucesso – colocar o motor a funcionar, fomos abordados pela Guarda Costeira. Eram oito da noite. A NaE estava ao leme e eu às voltas com o motor, sem grande sucesso! Graças ao medicamento para o enjôo, a Maria dormia que nem uma pedra. Nem a presença das agentes a bordo a fez acordar.

Depois de alguns minutos de alguma tensão, as agentes lá compreenderam que nos havíamos aproximado da Venezuela para apanharmos um bom ângulo para Aruba. Mostraram-se então bastante prestáveis e até se ofereceram para nos ajudarem a entrar no ancoradouro. Assim que mudámos a direcção para Aruba atingimos os nove nós, velocidade que no entanto não se manteve até ao destino. A pouca distância da entrada do canal o vento despareceu e a lancha da Guarda Costeira teve de entrar em acção. Esta viagem teria sido bem rápida se o motor tivesse cooperado.

Cumpridos os trâmites da imigração fomos descansar, ficando a questão do motor adiada para quando o Sol raiasse.

Desconfiado de que pudesse haver água nos pistons, retirei os injectores e voltei a montá-los. Também substituí o motor de arranque. Depois de muita sujidade, arranhões e suor, o motor voltou a funcionar.

Ainda faltam alguns detalhes, como parafusos novos para dois dos injectores que parecem pouco apertados e algumas fichas eléctricas para as ligações dos sensores, que se partiram devido à corrosão da água do mar. Esperamos que dentro de dias tudo esteja nos conformes. Queremos desfrutar da ilha de Aruba e convosco partilhar mais algumas histórias interessantes.

Nos últimos dias a pescaria tem sido muito boa. Só numa noite apanhámos seis exemplares (de um peixe conhecido em Macau por Ong Iao) com mais de dois quilos. Deu peixe para todos os veleiros do ancoradouro de Nikki Beach….

João Santos Gomes

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