Passeios por Havana – 5

O português Diogo Colombo

O português Diogo Colombo

Ao prosseguir a passeata ribeirinha deparo com mais uma estátua. Desta feita, a de um multifacetado personagem – aventureiro, corsário, comerciante, capitão de navio, explorador, administrador colonial, cavaleiro da ordem de São Luís –, educado pelos jesuítas, de seu nome Pierre Le Moyne D’Iberville. A ele se deve a fundação da colónia francesa de Luisiana, na Nova França, hoje território norte-americano. Natural de Montreal, D’Iberville é considerado “o primeiro grande soldado nascido no país”, em 1616, e a sua vida é objecto de estudo entre os estudantes canadianos de Ciências Políticas. A carreira do citado é ainda fundamental lembrete acerca da importância do trabalho de casa pós-triunfo. Pois o homem, embora tenha conseguido vencer todas as batalhas em que se envolveu, jamais consolidaria um só ganho. Natural é que esse francês ultramarino, assumido militarão, possua basto cadastro: em quatro meses de campanha arrasou 36 assentamentos indígenas e a expedição que liderou na Terra Nova foi das mais cruéis e destrutivas de que há memória naquela parte do mundo. No início de 1706 vemo-lo ao comando de doze embarcações – já a França se perde de vista – pronto a devastar a ilha de Nevis (consta-se que trouxe consigo prisioneira a inteira população), seguindo caminho depois até Havana onde planeava preparar arrojada expedição contra o colonato inglês de Charleston, na Carolina. Surpreenderia-o porém, em Cuba, a temível febre amarela que lhe ceifaria a vida em Julho desse mesmo ano.

Sepultado na então igreja de San Cristóbal (actual catedral de Havana), D’Iberville veria o seu pretérito ser devassado por conta de uns negócios obscuros em que andou metido e que dariam origem a uma investigação judicial ao longo de trinta anos arrastada. Ou seja, currículo nada abonatório para figurão candidato a estatuária. E, não obstante, teve direito a ela. Cortesia em ferro do Governo do Quebeque presenteada à capital cubana em 1999, sendo assim prestada homenagem a um dos seus sem quaisquer complexos ou auto-flagelações. Fosse D’Iberville português e há muito que teria sido pedida a remoção da sua memória em pedestal. Acaso não ouvis os ecos dos celerados iconoclastas de trazer por casa que ainda não há muito queriam derrubar a estátua do bom do padre António Vieira plantada no Bairro Alto? Não duvidemos: se abrirmos um precedente, em breve teremos um batalhão deles a pedir o abate a eito das estátuas e monumentos que se encontram espalhadas pelas nossas praças e jardins públicos.

Já agora, e a respeito da Nova França, mas também da Nova Inglaterra, da Nova Escócia, da Nova Espanha, etc., um outro talhe de foice: que eu saiba nunca o nosso país impingiu um Novo Portugal em qualquer das sete partidas por onde andou e populou. O mais próximo que tivemos disso foi uma Feliz Lusitânia, denominação usada por colonizadores portugueses para o núcleo inicial do município de Belém (Estado do Pará), infelizmente de curta duração, e uma Nova Lusitânia de iniciativa privada, gerida por Duarte Pacheco na capitania de Pernambuco.

Estranho é – ou talvez não – a ausência de uma menção que seja ao português Diogo Colombo, filho de Cristóvão e da madeirense Filipa Moniz Perestrelo, que ao serviço dos reis de Castela e Aragão desempenharia os cargos de almirante, governador e de quarto vice-rei das Índias de Castela. Foi nessa condição que um decreto real datado de 1511 o incumbiria, “por direito de descoberta de seu pai”, de exercer funções governativas nas ilhas Hispaniola (actual Dominicana/Haiti), Porto Rico, Jamaica e Cuba. Este filho primogénito de Colombo (não consta que alguma vez tenha visitado a ilha) logo tratou de enviar Diego Velázquez de Cuéllar à frente de um batalhão de três centenas de indivíduos à conquista de Cuba; um empreendimento de três anos marcado por actos de extrema brutalidade. Aniquilada a resistência dos indígenas tainas (o bravo Hatuey e outros caciques, após intensa luta de guerrilha, acabariam por ser capturados e queimados vivos na fogueira), novos assentamentos e cidades com edifícios de traça espanhola surgiriam. Primeiro, em Baracoa, em 1511; depois, Santiago de Cuba, em 1514; finalmente, Havana, em 1515.

O dominicano Bartolomeu de las Casas, cronista, teólogo, bispo de Chiapas e, à semelhança do nosso Vieira, grande protector dos índios, anotou diversos massacres perpetrados pelos invasores, nomeadamente “o massacre de Caonao”, perto de Camaguey. De acordo com o seu relato, cerca de três mil aldeãos, “que haviam viajado até Manzanillo para saudar os espanhóis com pães, peixes e outros alimentos”, seriam barbaramente assassinados a sangue frio. Fugiriam os sobreviventes para as montanhas ou para as pequenas ilhas vizinhas, adiando uns meses a inevitável captura e uma previsível vida de vexame em ignóbeis reservas. Guanabacoa, hoje subúrbio de Havana, era um desses locais. Nomeado governador de Cuba, Velázquez cedo enfrentaria o descontentamento dos novos colonos, desejosos de se verem livres da alçada de Diogo Colombo, representante de um poder distante. Pressionado, Velázquez não poupou esforços para tentar negociar directamente com o Reino, tendo nisso sucesso. Afastava assim a autoridade de Diogo Colombo, seu superior hierárquico. Mas, perguntar-se-á o leitor: qual a razão de estar ao serviço de Castela este pouco conhecido navegador português? Nada mais natural. Morta Filipa, Diogo acompanharia o pai até ao país vizinho, tendo aí crescido e estudado, beneficiando do elevado estatuto alcançado por Colombo antes mesmo da descoberta oficial do Novo Mundo, em 1492.

Originalmente construído para defender a cidade dos ataques piratas, não se pode dizer que seja muito adequada a localização do castelo da Real Fuerza – muito longe da baía –, o mais antigo forte em pedra das Américas. É, desde 1982, Património Mundial da UNESCO. Constato que toda a zona ribeirinha é praticamente um museu ao ar livre. Recente placa de bronze comemorativa assinala o local de chegada da lendária expedição em canoa da Amazónia às Antilhas levada a cabo pelo explorador cubano Núñez Jiménez, comprovando assim a sua tese sobre a origem sul-americana dos primeiros habitantes da região das Caraíbas. Os expedicionários que nela participaram percorreram, entre 1987 e 1988, vinte países em embarcações construídas por índios da Amazónia. A sede da Fundação Antonio Núñez Jiménez (FANJ), em Havana, guarda três delas, que bem as vi eu. Mesmo em frente, do outro lado da rua, singela estátua em bronze evoca a figura de Hasekura Rokuemon Tsunenaga, ou melhor dizendo, Francisco Felipe Faxicura, samurai japonês que no início do século XVII (de 1613 a 1620) chefiou uma missão diplomática enviada ao Vaticano, via Nova Espanha. A denominada embaixada Keicho surgiu no seguimento da embaixada Tensho de 1582, que fez a rota do Cabo e teria Lisboa como porta de entrada europeia. A saga de Faxicura serviria de enredo ao livro “Samurai”, de Shusaku Endo, autor do aclamado “Silêncio”, recentemente alvo de uma magistral adaptação cinematográfica com a assinatura de Martin Scorsese.

Ainda no âmbito das navegações, uma outra placa evocativa assinala a partida e chegada àquele local do velejador Gueorgui Gueorguiev, que “num gesto de amizade” escolheu Cuba como início e término da sua viagem em solitário à volta do mundo. Capitão da marinha búlgara, “personalidade de extraordinária importância na história da navegação do seu país”, Guerguiev deixou o porto de Havana em Dezembro de 1976 e concluiu a circum-navegação exactamente um ano depois. Hoje, raríssimas são as embarcações que se aventuram no apertado corredor de acesso à profunda enseada e a internacionalidade do cais, à guarda da Marinha da Guerra Revolucionária de Cuba, como indica a devida placa azul escura, resume-se a um paquete da Royal Caribbean atracado num decrépito pontão.

Fecha a secção da marginal marítima o imponente quão degradado terminal marítimo Sierra Maestra, todo ele entaipado com chapa de zinco. O que significa isso? Que vai ser demolido? Espero bem que não, pois perder-se-ia um dos mais válidos patrimónios arquitectónicos da zona ribeirinha. Manda a lógica, em curso em todo o casco histórico, que seja devidamente reabilitado mantendo incólume a sua fachada neogótica. Aqui, onde começa a Cidade Vieja, o movimento é mais em terra, onde as charretes com cavalos rivalizam com os omnipresentes carros clássicos descapotáveis a quem nunca faltam fregueses.

Joaquim Magalhães de Castro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *