Os Mártires do Cristianismo foram sementes e raízes que floresceram e deram fruto

Dor e sofrimento transportou Jesus à eternidade

Dor e sofrimento transportou Jesus à eternidade.

No passado dia 29 de Junho a Igreja celebrou a solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo. Os dois, cada um com a sua missão, são considerados as colunas da Igreja Católica Apostólica Romana. Em Março deste ano O CLARIM noticiou a estreia do filme: “Paul, Apostle of Christ”. O Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social envidou esforços para exibir o filme no Cineteatro de Macau, mas deparou-se com dificuldades, pois nenhuma distribuidora de Hong Kong o tem disponível. Entretanto, aqueles que anseiam ver esta obra podem-no fazer através do “iTunes Macau Store”. Retrata os últimos anos do apóstolo Paulo na prisão, a sua condenação à morte (decapitado) pelo Império Romano e a relação que manteve com o apóstolo Lucas e com as primeiras comunidades cristãs, que viviam oprimidas e perseguidas. Paulo, pela riqueza do legado neotestamentário e mártir vivo durante o seu apostolado, serviu de mote para os responsáveis do filme fazerem uma homenagem a todos os mártires do Cristianismo, nomeadamente dos primeiros séculos e sob o domínio do imperador Nero. Aproveitamos, assim, nós também, para homenagear e enaltecer a coragem e fé destes irmãos, que foram sementes e raízes por onde floresceu a Igreja de Cristo.

No ano 64 d.C. deu-se um incêndio em Roma que devastou grande parte da cidade. Numa tentativa de desviar as acusações que recaiam sobre si, o imperador Nero atribuiu a culpa do incêndio à comunidade dos cristãos, sobre os quais circulavam outras acusações caluniosas. Oferecendo ao povo motivo de divertimento, mandou prender os cristãos e submeteu-os a vários tormentos (crucificados, queimados vivos…) que serviam de espectáculo para o povo dentro do jardim imperial, o chamado Circo de Nero. Ser cristão significava arriscar a própria vida.

Dava-se início a um período de grande hostilidade em relação aos cristãos, que se prolongou até ao ano 67 d.C. São Paulo e São Pedro foram mártires, assim como quase todos os apóstolos de Jesus. Pedro foi crucificado no local onde veio a surgir a Basílica de São Pedro, e São Paulo – conhecido por Apóstolo dos Gentios – foi decapitado.

Um relato do historiador pagão Tácito – extraído da sua obra “Anais”, escrita no início do século II (entre 115 e 120 d.C.) – sobre a perseguição desencadeada contra os cristãos pelo imperador Nero, logo após o incêndio de Roma, descreve bem o contexto histórico e sombrio que estes mártires viviam: “Nenhum meio humano, nem os gestos de generosidade do imperador (Nero), nem os ritos destinados a aplacar (a ira) dos deuses, faziam cessar o boato infame de que o incêndio havia sido planejado nas altas esferas. Assim, para tentar abafar esse boato, Nero acusou, culpou e entregou às torturas mais deprimentes, um grupo de pessoas que eram detestadas pelo seu comportamento, e que o povo chamava ‘cristãos’. Este nome lhes provém de Cristo, (um homem) que no tempo de Tibério havia sido entregue ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. (…)

À execução deles foi acrescentada a zombaria, cobrindo-os com peles de animais – a fim de que morressem mordidos por cães – ou pendurando-os em cruzes – a fim de que servissem como tochas vivas para iluminar a noite. (…)

Desta forma, ainda que estes homens fossem culpados e merecessem ser castigados com rigor, acabavam por despertar a compaixão, estimando-se que não eram sacrificados pelo interesse da nação, mas pela crueldade de um só homem”.

Este é o contexto histórico em que deve ser visto o filme sobre o apóstolo Paulo, que tendo também perseguido os primeiros cristãos tornou-se um cristão fervoroso e evangelizador incansável por toda a região do Mediterrâneo, depois da sua conversão na estrada para Damasco, quando Jesus lhe falou. E mesmo no crepúsculo da vida aparece sereno, sem julgar ninguém; promove o amor entre os homens, pronto para oferecer-se como sacrifício e continuando a enviar algumas recomendações aos seus filhos na fé.

Lucas, com grande risco, visita Paulo para o confortar, transcrevendo e levando clandestinamente as cartas de Paulo para a crescente comunidade de cristãos, a fim destes espalharem o Evangelho de Jesus Cristo, passando uma mensagem do amor profundo e sincero de Paulo por todos. Mesmo desgastado e perante todas as adversidades, dá um verdadeiro testemunho de fé e encorajamento. Sente que apesar de não ter nada está preenchido pelo amor de Cristo, e quer que cada um reflicta esse amor; que espelhe Jesus nos seus olhos e na sua vida.

Paulo quer transmitir que não teme a morte, antes teme as ameaças que os cristãos ainda têm que enfrentar, e que lhes pode enfraquecer a fé: «Na minha primeira defesa, ninguém esteve ao meu lado. Todos me abandonaram. Que não lhes seja levado em conta. O Senhor, porém, esteve comigo e deu-me forças, a fim de que, por meu intermédio, o anúncio fosse plenamente proclamado e todos os gentios o escutassem. Assim fui arrebatado da boca do leão. O Senhor me livrará de todo o mal e me levará a salvo para o seu Reino celeste. A Ele, a glória, pelos séculos dos séculos. Ámen!» (2Tm., 4:16-18).

São Paulo e São Pedro, e os demais apóstolos, assim como todos os primeiros seguidores de Cristo que deram a vida por Ele, dão também sentido à nossa fé e são uma luz no nosso caminho; inesgotável força e sabedoria nos caminhos do Senhor. Aprendamos com eles os desígnios de Deus para cada um de nós.

Quando colocamos uma lente ao Sol e incidimos a luz que a atravessa sobre uma folha de papel, esta inflama. Que o nosso foco seja em Cristo e se inflame o nosso amor por Ele, o verdadeiro Caminho, a Verdade e a Vida! Os meios que nos levam ao Senhor são muitos, mas por vezes vivemos a fé na superficialidade, estacionados num porto inseguro, levados pelo inimigo, que nos quer levar ao abismo da fraqueza e da incerteza de uma forma – diria – “protestante” de viver em comunhão com o céu: cada um actuando conforme as suas ideias, sentimentos e paixões; colocando de lado a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério secular da Igreja, que nos garante o Norte no mar atribulado da nossa fé.

Nas perseguições a que Pedro e Paulo foram sujeitos, quando levados à presença do Sinédrio e interrogados pelo Sumo Sacerdote, lembramos uma “voz” nas escrituras que ilumina a nossa fé. Um homem no Sinédrio, um fariseu chamado Gamaliel, doutor da Lei, respeitado por todo o povo, disse estas palavras sábias: «E, agora, digo-vos: não vos meteis com esses homens, deixai-os. Se o seu empreendimento é dos homens, esta obra acabará por si própria; mas, se vem de Deus, não conseguireis destruí-los, sem correrdes o risco de entrardes em guerra contra Deus» (ver Actos dos Apóstolos, 5:27-39).

Hoje, a obra revela ser de Deus pela profecia de Gamaliel, e perdurará pelos séculos dos séculos.

Miguel Augusto

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