Olhando em Redor

Prova de fogo

Prova de fogo

O mundo ocidental tem estado nas últimas semanas de olho na Grécia e na China. No último caso, por causa da preocupação gerada em torno da queda das Bolsas de Valores de Xangai e de Shenzhen, a rondar os 30% desde meados do mês passado.

Os problemas actuais residem no programa de estímulo, iniciado pelo Governo da China para proteger o País da crise financeira de 2008, que tem introduzido quantidades massivas de liquidação no sistema.

Parte da problemática está em muitos pequenos investidores inexperientes, que entraram no mercado bolsista e seguiram rumores, porque quando as variações das acções subiram a níveis elevados, enquanto a economia chinesa abrandava, muitos deles começaram a sair de cena, alguns dos quais com empréstimos para investimentos.

Quanto às medidas mais salientes para estancar o descalabro, o Banco Central da China cortou nas taxas de juro para impulsionar a economia e para fortalecer o mercado accionista, enquanto a entidade reguladora ficou de olho nos ávidos especuladores, apontando tudo para que alguns tenham mesmo que prestar contas na Justiça, o que não acontecerá com a ingerência estrangeira que também está a alimentar a forte queda bolsista.

Embora a Associação de Valores Mobiliários da China, o fundo de dívida soberana chinesa e o fundo de pensões tivessem permissão para adquirir acções de modo a injectar liquidez no mercado accionista, por outro lado aconteceu a suspensão por tempo indeterminado das Ofertas Públicas Iniciais (IPO, na sigla inglesa), ficando a decisão de retomá-las a cargo do regulador chinês para o mercado de capitais.

O receio do Governo talvez esteja ligado ao facto destas três instituições não serem suficientes para estabilizar o referido mercado, se tivermos em conta que um grande número de acções não é detido por investidores institucionais, mas sim por investidores com limitados conhecimentos financeiros.

Outra medida para travar a forte queda das acções foi a imposição feita pelo regulador aos accionistas, aos executivos e aos directores de empresas chinesas listadas em Bolsa, com uma posição superior a 5%, para que tivessem de manter as suas participações por um período de seis meses.

 

Receios

O factor psicológico está a ser relevante porque embora tenha havido nos últimos anos grande volatilidade na Bolsa de Valores chinesa, foi sempre com base no contexto do PIB que crescia à média anual de 10% a 12%, situando-se agora nos 7% (resultado do primeiro trimestre de 2015). Daí a sensação de alguma fragilidade que antes não era evidente.

Por forma a garantir a sustentabilidade do mercado accionista, as autoridades chinesas estão agressivamente a garantir a sua liquidez, o que se traduz em tempos difíceis para os investidores.

Também os projectos a envolver as multinacionais, no âmbito da Rota da Seda, e o Banco Asiático de Investimento em Infra-estruturas, liderado pela China, contando com outros 49 países aderentes, garantem a criação de mais postos de trabalho, assim como novas oportunidades de negócio que vão permitir algum impulso do tecido económico.

Contudo, os ganhos e as perdas no mercado accionista são bastante mais acelerados do que a implementação de projectos empresariais, por isso não é tão linear que haja uma compensação imediata a favor dos tão desejados ganhos em Bolsa.

 

Diferença

Várias medidas implementadas pela RPC são vistas no Ocidente como nada habituais, porém, não se pode cair no erro, uma vez mais, de fazer alinhar a China pela bitola ocidental, porque o Império do Meio rege-se por códigos muito próprios que nada têm a ver com as práticas ocidentais, muitas delas provadas como autênticos falhanços.

Confio que os especialistas chineses ao serviço do Poder Central, muitos deles brilhantes, alguns com formação no Ocidente, farão o possível por credibilizar aos olhos do mundo os Índices de Xangai e de Shenzhen.

A China está em profundas transformações, por isso também é necessário intervir num vital sector da economia do País, sob pena de originar uma irreversível crise que leve à desagregação da nação mais populosa do mundo em vários Estados independentes. Por esta e por outras razões acredito que tudo não passa de uma tempestade num copo de água.

 

Macau artificial

Assim como a China não pode crescer para sempre a dois dígitos, também é impossível que o mesmo aconteça em Macau. Por isso, fico “alegre” que a “insuspeita” Bloomberg tenha recentemente considerado que Macau tem o pior desempenho económico, à frente da decrépita Grécia.

Já para não falar como chegaram a tão oportuna conclusão, o que as mentes brilhantes da Bloomberg não sabem, ou não lhes convém fazer passar cá para fora, é que a economia local estava altamente inflacionada, em muito devido à feroz especulação enraizada em sectores vitais do seu tecido económico, que a médio/longo prazo “rebentaria” com Macau.

Posto isto, a bem da estabilidade social, é natural o abrandamento do crescimento económico também neste lado das Portas do Cerco, cabendo agora ao Governo da RAEM não ceder, nem ser conivente, com os interesses oligárquicos, ou empresariais, como aconteceu desde a transferência de poderes até ao passado recente.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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