O Nosso Tempo

Por quem rezou a Polónia?

Por quem rezou a Polónia?

O deambular, algo abstracto, a que me dedico mais abaixo, tem uma âncora em algo muito concreto, saído do mundo das notícias. Na Polónia, no Domingo passado, milhares de católicos abeiraram-se das fronteiras do País e rezaram.

Por quem rezaram os polacos?

As motivações são sempre muito individuais, mesmo que o apelo à reunião tenha invocado razões colectivas. Os polacos foram convocados para rezar pelo seu país. E o lugar escolhido, as fronteiras, sugere inevitavelmente o cordão sanitário que protege a Pátria dos males vindos de fora.

Uns terão pois rezado pela salvação do País, perante as incertezas do futuro. Outros, pela identidade católica da nação. Outros ainda, como o li e ouvi em órgãos de comunicação internacionais, como afirmação contra a expansão do Islão. E daí a dizer-se que a iniciativa foi essencialmente contra os refugiados.

Ao ler isto, tive mais uma vez a percepção do quanto a forma de informar é responsável pela integridade, pela verdade da mensagem.

E como questão subsequente: poderá uma iniciativa religiosa estar desinserida do contexto político e social de cada momento? Ou é sempre portadora de uma mensagem que não se dirige exclusivamente ao Divino? Cada um responderá como melhor julgar. Tendo o cuidado de não embarcar no que certos media sugerem, apostados em envenenar relações inter-confessionais, numa Europa não exactamente isenta de problemas.

Mais: media internacionais que, a pretexto de informarem, não estão senão desejosos de condenar a Igreja e os católicos, sempre que possível.

 

A chave e a lanterna

E assim chego à questão central desta crónica, a informação, suas condicionantes e motivações. Refiro dois instrumentos capazes de detectar ambas: a chave e a lanterna.

Chave e lanterna para abrirem e iluminarem o vastíssimo mundo das notícias… É este o tema que, de forma algo filosófica, me proponho tratar. Que me desculpem os leitores mais práticos ou concretos. A inspiração orientou-me nesta direcção!

Redes sociais. Jornais online. Televisões na Internet. Rádios idem, idem.

Jornais em papel. Boatos e rumores. SMS e e-mails, etc., etc., etc…

Na avalanche dos acontecimentos e das notícias em que estamos continuamente imersos, tenho procurado escolher, nestes cinco anos de colaboração amiga n’O CLARIM, a análise das questões que me parecem susceptíveis de melhor definirem o nosso tempo, tema genérico aliás das minhas crónicas.

É um tempo novo, um tempo perigoso, um tempo fascinante. Tempo que, como todos os tempos, abriga no seu seio as razões da esperança e do desespero . Que comporta o passado para os que têm memória, apenas o presente para quem a perdeu ou não teve oportunidade de a cultivar. E o tempo futuro, o de todos aqueles a quem falta viver.

A omnipresença mediática é para uns uma diversão, para outros uma obsessão e para o número restrito dos mais lúcidos – apenas informação.

Ora, a informação hoje, sempre presente e super-abundante, é uma casa gigantesca, com muitos corredores e muitos aposentos. De cada um é preciso a chave para entrar. E da lanterna para mostrar o caminho, na escuridão.

Da informação global se dirá ainda que ela incide sobre o transitório e o permanente. Sobre a moda que passa e a fome que não passa. Sobre o chapéu original, o penteado “chic”, ou a epidemia do ébola e os refugiados sírios naufragando na praia. Sobre o evento que se esgota nele próprio, qual fogo de artifício que acaba ali, quando termina o ofício do artista pirotécnico e a noite retoma os seus direitos. Ou da questão de fundo, permanente, cuja relevância objectiva a faz ressurgir, de forma regular.

E para além dos acontecimentos, há as ideias. As novas e velhas propostas de interpretar o mundo. As velhas filosofias do eterno renascer, os cultos da natureza, os unguentos que curam o corpo e a alma…

Muitos são hoje os falsos profetas, pregando as suas mensagens isotéricas, no vasto mercado de ilusões. Mercado que armou as suas barracas de feira nos mais diversos Meios de Comunicação Social. E a isso, enganadoramente, também se chama… informação. A recusar ou a aceitar, claro. Mas… informação.

A pretensa objectividade dos conteúdos pode esconder venenos vários – que importa? É generoso e abundante o mercado de ilusões…

 

Refugiados, a actualidade dos Evangelhos

Ambos, a Igreja e o Papa, lêem os desafios do homem de todas as épocas e de todos os lugares à luz de uma Mensagem sempre actual.

Só assim se explica a permanente modernidade das Escrituras, em cujos velhos textos, e ao ritmo semanal das missas dominicais, sacerdotes e diáconos partilham com os fiéis verdades intemporais, quer dizer, que continuam a ter impacto em cada geração, vindas de profetas, de apóstolos, e antes de mais do próprio Cristo Jesus.

Quanto ao problema dos refugiados na Europa, o ensinamento do Papa Francisco é inequívoco: abertura dos corações e por isso das fronteiras.

Fica o pensamento do Papa incompleto, porque não menciona a questão política de fundo, causadora do fluxo de refugiados? Quem assim pensa ou é injusto ou perdeu a memória, porque Francisco tem reclamado incessantemente o fim do conflito sírio, para não falar senão da causa principal e mais recente do problema.

 

Por quem rezou a Polónia?

Volto à questão inicial porque outra me sugere que, no fundo, coabita nela: há uma leitura cristã e ou católica que se impõe hoje sobre a Europa? E de forma mais directa: a realidade do Islão impõe hoje uma resposta cristã e ou católica?

Que urgência ou emergência exige tal leitura e tal resposta? A puramente humanitária, a do Bom Samaritano e só? Isso e mais o apelo a que o poder político legítimo reforce as regras da convivência plural, contra os excessos que venham donde vierem?

O integrismo, sabe-se, não tem cor nem é apanágio de uma só religião. Ora, os integrismos, quando passam do pensamento à acção, são desafios para líderes religiosos, certamente, mas principalmente para os responsáveis políticos.

Lançaram os católicos polacos, ou não, um repto aos católicos de toda a Europa? Em que sentido?

Carlos Frota 

Universidade de São José

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