O nosso tempo

A criança que nunca vê o Sol

A criança que nunca vê o Sol

Ouço, numa estação de rádio internacional, uma história, de entre muitas, das tragédias causadas pela guerra civil síria: um rapazito de nove anos de idade, refugiado na Turquia, trabalha catorze horas por dia, como único ganha-pão da família. No seu local de trabalho antes do Sol nascer e regressado ao abrigo provisório já noite cerrada, é uma das milhares de crianças que nunca vê o Sol.

Por causa da guerra, quantos milhares não serão explorados, em trabalho clandestino, por aproveitadores de todas as espécies, se calhar com a consciência tranquila, de acordo com a lógica do “ou aquilo ou nada”?

O estudo dos conflitos na História não se circunscreve, naturalmente, à macabra contabilidade das suas vítimas, mas também às suas repercussões, a longo prazo, nas próprias comunidades afectadas, desde logo a dimensão do sofrimento humano que não é quantificável: como se mede o luto e a dor, e o sentimento de perda e abandono?

Como se mede a falta que uma mãe ou um pai fazem à criança subitamente desprotegida?

O garoto da história acima faz parte da geração de jovens sírios a quem os horrores do conflito roubaram a infância e a adolescência. Toda a questão para eles está em saber como não perder totalmente a vida adulta, o seu sentido, os seus valores.

Grande parte desses desenraizados palmilha os caminhos de uma Europa sobressaltada pelo inesperado da “invasão”. Mas é a Turquia a quem cabe o peso já insuportável de porto de abrigo, geografia oblige!

E quem ajuda a Turquia?

 

Na morte de Elie Wiesel

Foi a voz do sofrimento humano, sentido por milhões nos campos de concentração nazis.

A sua obra literária e o seu testemunho como cidadão foram o legado que nos deixou de um homem que compreendeu como poucos o que é a desumanidade levada ao extremo pela loucura de uma ideologia, baseada na superioridade racial.

A morte desse grande vulto traduz também o gradual desaparecimento da memória colectiva que é a única possibilidade, se mantida viva, de não se repetir a história.

Ouvi há dias uma líder política “explicar”, com toda a desenvoltura dos seus verdes anos, como para a nova geração, a sua, se tornaram progressivamente de menor significado as razões que levaram à integração europeia, como tentativa de acabar com o flagelo da guerra na Europa.

Para essa jovem líder eu recomendaria a leitura de Elie Wiesel, porque tendo ela nascido muito depois de 1945 talvez devesse reflectir sobre os perigos de uma Europa à deriva, esquecida dos seus fantasmas e só orientada para a “racionalidade” do económico e do social.

Ora a História e a Política (que é a forma mais decisiva de fazer História) estão alicerçadas, para além da racionalidade, na emoção, na paixão e no preconceito. E é isto tudo que está a ser esquecido.

 

A odisseia de Juno

A NASA colocou na órbita de Júpiter uma nave não tripulada, Juno, que prossegue assim o sonho de tentar compreender o nosso sistema solar.

Ínfima parte do universo – que continuamente se expande e que nos deixa cada vez mais perplexos, à medida em que aumentamos os conhecimentos científicos e, ao mesmo tempo, vemos crescer a extensão também da nossa ignorância e da nossa vulnerabilidade como espécie.

Toda a história da conquista do espaço, desde os primeiros êxitos do programa Soyuz, na então União Soviética, até aos momentos brilhantes e os fracassos da agência americana, mormente com o programa Apolo, me puseram, nos puseram a todos, cidadãos comuns, a questão de saber se se justificam os recursos avultadíssimos despendidos numa aventura para além da terra, quando tão desorganizado está o pequeno planeta em que habitamos.

Pergunta “inculta” e de falso senso comum, retorquem sempre os que privilegiam a aventura do conhecimento, sobre a realidade mais comezinha da nossa aldeia, mesmo que agora mais global.

Falsa questão, dirão mais uns tantos, para quem o progresso nunca foi linear nem sujeito às prioridades lógicas de um qualquer código de ética social.

Primeiro os pobres? Primeiro o desenvolvimento? Qual o quê! Então não se está mesmo a ver que o progresso científico acaba por beneficiar todos?

Então e a militarização do espaço e tudo o resto que alimenta a luta pelo poder mundial?

Nesta parte da discussão, só os “eruditos” participam. Os pobres retiram-se e estão mais ocupados em ganhar penosamente a sua côdea de pão…

 

Atacar em Medina

Terminou a Ramadão, o tempo mais sagrado entre todos do calendário religioso islâmico. E o meu pensamento voltou-se mais uma vez para os numerosos amigos muçulmanos que conheci na Indonésia e noutros países, do Magreb e do Médio Oriente, ao sabor das minhas andanças profissionais.

Às mesmas mesas de jantares vi-os praticar o jejum que eu não praticava, nas mesmas salas rezar quando eu estava mudo, imobilizado, distraído.

Religiosidade essa exuberante e… desafiante, só para cristão ver, ou um sentido de proximidade com o divino que outros foram perdendo? Mera afirmação de identidade cultural ou um sentido profundo de vida que o nosso espírito secular foi lentamente estiolando?

É toda a questão – a que cada um, individualmente, responderá no seu foro íntimo e que para as diversas igrejas cristãs e de outras confissões religiosas não deixa de constituir desafio.

Porque quem fala de Ramadão fala de um tempo de espiritualidade mais fortemente vivida e praticada, como nós cristãos no Natal ou, porventura mais ainda, na Semana Santa. É o tempo da renovação interior, essa luta íntima pelo bem que muitos dizem ser a única interpretação admissível da jihad.

Para outros, a jihad tem outro sentido… E o Ramadão é o momento para a máxima violência, subvertida a sua acepção benigna, de puro combate interior.

Fala-se já na mudança de estratégia do ISIS/Daesh, após a perda de Fallujah. E o recente ataque à segunda cidade santa do Islão seria o símbolo dessa nova intenção, a de compensar com o ataque a símbolos fortes o que se foi perdendo no campo de batalha.

Para a sensibilidade comum, esta estratégia, a de atacar lugares de fortíssima conotação espiritual, no seio da mesma comunidade de crentes, não deixa de ser uma estratégia de desespero.

Carlos Frota 

Universidade de São José

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