O meu detestável mês de Agosto

O meu detestável mês de Agosto

É Agosto e o panorama não mudou. Os espantalhos do ecrã pedem-nos para vertermos lágrimas pelo pobre do Usain Bolt que, coitado, na sua despedida das pistas viu-se obrigado a desistir devido a um problema físico; ou então sugerem-nos que curvemos a espinhela em memória da princesa Diana cujo desaparecimento terrestre, já lá vão vinte anos, merece documentário em horário nobre propagandeado, semanas antes da sua transmissão, na dita estação pública de televisão, rendida, como sempre, a tudo o que vem do lado de cima do Canal da Mancha. Os políticos, esses, estão a banhos e continuam a ser notícia. É o caso da lacrimosa quão incompetente ministra da Administração Interna que teve a distinta lata de aparecer numa festa do “jet set” no Algarve pouco semanas depois de ter chorado banha e ranho em Pedrogão Grande. Dá o mesmo. Com ou sem essa gente no hemiciclo de Belém, o País é o desgoverno que se vê.

Quanto ao povoléu, estejam descansados pois durante o dia entretêm-se na praia e à noite assiste ao futebol (não é por acaso que o campeonato começa logo em Agosto) e aos enredos mil vezes repetidos das telenovelas, havendo sempre a possibilidade, em jeito de bónus, do usufruto de uma das dezenas de festivais que do norte ao sul do País marcam a agenda veraneante. Não há terreola que não tenha um festival de Verão. E pouco importa que os montes em redor do palco e das barracas de comes e bebes resplandeçam alumiados pelo fogaréu da nossa maior desgraça colectiva. Alguns dos eventos têm honras de transmissão directa nas rádios com locutores a tecerem piadas de muito mau gosto a respeito dessa calamidade com lugar cativo na Primavera-Verão ou até nas semanas mais soalheiras do brando Outono-Inverno reinol.

O caso dos incêndios é demasiado grave para ser matéria do anedotário nacional, tão querido a uma dita geração rasca – hoje de pedra e cal em muito centros decisores – seja qual for o seu teor. Nesse capítulo, desafortunadamente, somos um país único no mundo. A mata em Portugal pega fogo mesmo com temperaturas abaixo dos vinte graus – a metade do valor registado por esta altura no leste europeu, onde não há fogos de monta. Ademais, em noventa por cento dos casos, estamos perante actos criminosos. Não há qualquer dúvida a esse respeito. Porém, os quem-de-direito continuam a lidar com o assunto com pinças de cirurgião em vez de pôr o dedo na ferida e talhar a eito, bisturi em riste, onde necessário for. Enquanto não houver mão de chumbo que esmague de uma vez por todas as quadrilhas actuantes e seus mandantes, o escabroso regabofe persistirá, e os restantes trinta por cento de arvoredo desta terra tão martirizada irão à vida em menos de cinco anos.

Quando ouço falar de mancha florestal só me dá vontade de rir. Qual mancha, qual floresta, qual carapuça! A paisagem de Portugal está cada vez mais parecida com a de Marrocos Depois de anos e anos de fogos descomunais, restam os invasores eucaliptais. Para mim, muito sinceramente, desde que não estejam em risco vidas e bens, podem arder à vontade. O problema é que desses eucaliptais – e neste caso, sim que há uma mancha em Portugal, sombria mancha – voam faúlhas assassinas até às pequenas bolsas de espécies auctótenes que teimosamente sobrevivem junto aos córregos e ao longo dos soutos. E lá se vão à vida, como foram já quase todos, os castanheiros, os carvalhos, os sobreiros, as nogueiras, as cerejeiras, uns e outros, orgulho e riqueza da velha e resistente Lusitânia.

Eu, que sou do tempo em que se ia comprar caramelos a Espanha, passei a adolescência a ver as matas da minha aldeia e arredores em chamas. Na altura, atribuía-se a origem dos fogos postos aos comunistas. Até as supostas avionetas ateadoras eram de cor vermelha. Desculpas! A verdade é que tibuteava ainda a máfia dos incêndios – alheia a qualquer simpatia partidária; amante, sim, de cifrões – que cresceria em amplitude durante as décadas de 1980 e de 1990 para entrar em total descontrolo no século XXI. Agora, é a pouca vergonha que diariamente nos entra pelos olhos e as narinas adentro. Como se não bastasse, há até casos de bombeiros que ateiam matas só para sentir a adrenalina dos autotanques e as ambulâncias em correria desbragada…

Desgosta-me profundamente frequentar tal antro de pirómanos e dirigentes corruptos sem vontade (ou sem interesse) em agarrar o touro pelos cornos, resolvendo o assunto de uma vez por todos.

Estive no passado fim de semana em Cerva, Ribeira de Pena, um pé já em Trás os Montes, numa adorável floresta de bidoeiros onde deparei com uma casa florestal abandonada. Serve agora de sala de chuto para drogados. Na altura em que tais estruturas estavam no activo, habitadas e cuidadas pelos membros da hoje extinta profissão de guarda-florestal, os incêndios em Portugal eram mais a excepção do que a regra. Hoje de manhã soube pelo telejornal que aquela bela mata ardeu por completo a noite passada.

Mas será que há ainda alguém com dúvidas acerca do hediondo crime em curso e do lucro que muitos conseguem à custa de um património que a todos pertence?

Joaquim Magalhães de Castro

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