Maria Felisbela Bandeira

Maria Felisbela Bandeira

Saudades do passado.

Nascida na década de quarenta do século passado, na freguesia de Santo António, em Macau, Maria Felisbela Bandeira é uma figura conhecida da comunidade macaense, tanto no território como na diáspora. Presença assídua dos encontros que os macaenses vão realizando em Portugal, Maria Felisbela viveu bem perto todo o processo de transição. Sentiu-o como todos os macaenses: um novo passo no caminho em direcção ao futuro da terra que a viu nascer. No entanto, a sua proximidade, pela parte do marido, ao poder colonial de Macau fê-la viver o processo de transição mais por dentro.

Iniciou os estudos primários na Escola de Santa Rosa de Lima e terminou o Ensino Secundário na Escola Comercial, tendo saído de Macau aos dezassete anos, quando se casou com um oficial do Exército Português nos anos sessenta. Fixou então residência nos Carvalhos, no Norte de Portugal.

Estando casada com um militar, a sua vida fez-se em inúmeros locais. Passou pelos Açores, por Moçambique e, entre 70 e 77, por Macau, tendo chegado a ficar sozinha em Portugal durante uma incursão do marido por Angola – uma comissão de serviço em zona de guerra, pelo que decidiu ficar em Portugal a aguardar o seu regresso.

A vida ao lado de um militar obrigava a este tipo de sacrifícios, que Maria Felisbela sempre aceitou, apesar de ser difícil para uma jovem euro-asiática viver num país que pouco – ou nada – lhe dizia.

Embora tenha chegado muito nova a Portugal, sem qualquer família de sangue que a apoiasse numa terra desconhecida, refere que se adaptou muito bem. Felizmente, do lado da família do marido, houve sempre todo o apoio e compreensão.

No novo regresso a Portugal, nos anos setenta, um país que tinha acabado de sair de uma revolução democrática, a vida foi decorrendo normalmente. Enquanto tomava conta da casa, com três filhos à sua responsabilidade, o marido ia “saltitando” entre a Serra do Pilar e Lisboa, entre outros locais onde normalmente os oficiais de carreira têm de prestar serviço.

Já na década de noventa, mais concretamente em 1991, o marido foi novamente enviado para Macau, onde viria a desempenhar as funções de chefe de gabinete do Governador de Macau, o general Rocha Vieira, posição que desempenhou até ao último dia da presença portuguesa em território chinês e que lhe deu uma visão privilegiada de todo o processo de transição.

O regresso a Portugal, como seria de esperar, deu-se já no ano 2000, com a cidade que a viu nascer transformada em RAEM.

Quando confrontada com as memórias do processo de transição, Maria Felisbela afirma: «Senti pena mas era inevitável. Ao contrário do que aconteceu em África, como o processo de Macau se arrastou durante vários anos, deu tempo para que as pessoas se acostumassem à ideia e para que tudo fosse acautelado e planeado, minimizando-se assim os efeitos negativos que poderiam daí advir».

Dos três filhos, um continua em Macau com a sua família, sendo bem conhecido na comunidade local, e os outros dois vivem em Portugal e França.

Maria Felisbela olha agora para a vida passada e lembra-se de «estar sempre de malas às costas». De Macau, diz ter «saudades do Macau antigo. Do Macau actual, não acho graça nenhuma».

As visitas ao território têm sido constantes, ou melhor, foram até 2013, muito por força do filho, da nora e das «netinhas». Mas nada mais a atrai porque «Macau perdeu completamente as suas características», lamenta. Nos anos 70 a diferença ainda era pouca, comparando com a Macau que deixou em 1962 quando veio para Portugal. Nos anos 90, quando regressou com o marido, já se notavam diferenças acentuadas. «Agora a diferença é abismal!».

Num exercício de memória lembra-se que «nos anos 90 ainda era possível andar pelas ruas de Macau, parar e falar com pessoas conhecidas. Era possível descansar nos bancos do quiosque no Largo do Senado e conversar com amigos que ali estavam ou iam passando. Nos anos mais recentes anda tudo a empurrar-se e não se pode ir a lado nenhum sem se estar completamente rodeado de pessoas».

Na situação actual, «Macau não tem qualquer qualidade de vida», atira.

Para já não tem planos para voltar, tanto mais que o que a levava a Macau (o filho, a nora e as netas) começam a regressar a Portugal. «A [neta] mais velha vem este ano para ingressar no curso superior de arquitectura em Portugal, a mais nova vem no próximo ano para estudar veterinária», conclui com um sorriso nos lábios.

João Santos Gomes

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