Jesus: História, Tradição, Fontes – 2

E o Verbo incarnou

E o Verbo incarnou

Jesus nasceu! O Messias veio habitar entre nós! O Nascimento de Jesus, chamado também de Natividade, é um dos mais importantes acontecimentos da história da Humanidade, um marco essencial, um dos fundamentos civilizacionais mais decisivos e essenciais na marcha de vida do mundo. Todavia, como já se referiu, o Jesus da História, o fundador do Cristianismo, diríamos, não é uma das figuras mais contempladas pelas fontes históricas, mais documentadas. O seu nascimento é ainda mais enigmático, mas não deixa de ser uma certeza histórica, noticiada por autores graves e inquestionáveis. As referências bíblicas ao nascimento de Jesus encontram-se principalmente nos Evangelhos de Lucas e Mateus, mas também em alguns textos apócrifos. Lucas (2,1-7) é mais explicativo, embora sem grandes pormenores. Mateus (1,25) resume tudo a uma simples frase: E […] ela [Maria] deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus. Lucas é mais historicista, aludindo desde o édito de César Augusto para recenseamento geral, pelo meio refere Quirino como governador da Síria, mencionando depois o facto de que todos tinham que se ir recensear à sua própria cidade. Como José, que foi com Maria, grávida, desde Nazaré, na Galileia, até à cidade de David, Belém: José era da casa e linhagem de David. Depois, dá-se o notável e maravilhoso acontecimento, quando se “completaram os dias de ela dar à luz (…)” e ela teve “(…) o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria”.

Ambos o proclamam como o Salvador, ambos o aclamam triunfalmente, como até os singelos pastores fizeram. Mateus vai mais longe, alude até à vinda de astrónomos do Oriente, seguindo uma estrela até Belém, levando presentes a Jesus, nascido como “rei dos judeus”, guiados por profecias e referências em textos antigos. Em toda esta excelsa glória, há também uma página negra, da inveja do rei Herodes, mandante do massacre dos Inocentes, ou seja, de todos os meninos com menos de dois anos da cidade, tentando eliminar o jovem “rei de Israel”, recém-nascido, pequeno, indefeso, mas o Salvador, o redentor do mundo, o Verbo incarnado, a superação do pecado de Adão. Mas temido pelos reis da terra, mesmo fantoches presunçosos e malignos como Herodes. Mas a família de Jesus conseguiu escapar para o Egipto, regressando mais tarde a Israel, em segurança, depois da morte daquele tirano. Jesus foi também refugiado, migrante, expatriado, logo na mais tenra idade. Ontem Ele, hoje outros, rostos da demanda por paz, segurança e vida.

Falámos na semana passada do Messias, das profecias, dos anúncios da vinda do Salvador. Eis que Ele veio mesmo, há cerca de dois mil anos. Com efeito, Jesus (em Hebraico: ישוע/ יֵשׁוּעַ ou Yeshua; em Grego Ἰησοῦς, ou Iesous), conhecido também por Jesus de Nazaré, terá nascido entre 7 e 2 a.C., vindo a morrer por volta de 30-33 d.C., ou até 36, segundo alguns. É a figura central do Cristianismo, considerado por muitos e desde sempre como o Filho de Deus. Jesus possuiria talvez um único nome, como quase todos os judeus do seu tempo. Por vezes, têm a denominação do pai ou da cidade de origem, como “Jesus de Nazaré” (Mateus 26,71) ou “Filho de José” (Lucas 4,22) ou até “Jesus, filho de José de Nazaré” (João 1,45). Marcos (6,3), todavia, em vez de o chamar de “filho de José”, trata-o como “o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão”, o que lança mais informações. Jesus deriva do Latim “Iesus”, uma transliteração do Grego Ἰησοῦς (Iesous), que provém do Hebraico ישוע‎ (Yeshua), o qual deriva por sua vez do Aramaico יהושע‎ (Yehoshua). O historiador Flávio Josefo, escritor judeu romano do século I, refere pelo menos vinte pessoas diferentes com o nome Jesus (i.e. Ἰησοῦς). A etimologia do nome de Jesus no contexto do Novo Testamento é geralmente já indicada como “Javé é a salvação”. Jesus é referido também, em complemento, como “[Jesus] Cristo”, do Grego Χριστός (Christos), tradução do Hebraico מָשִׁיחַ (Masiah), “o ungido” numa clara alusão confirmativa ao Messias. Os cristãos denominam quase sempre Jesus como “Cristo”, na sua crença secular de que Ele é o Messias profetizado no Antigo Testamento. Daí o termo Cristão, para os que O seguem ou professam a Sua doutrina e Boa Nova.

As fontes a Jesus são várias, nem sempre coincidentes, e no seu todo são poucas e exíguas tendo em conta a grandeza histórica e importância civilizacional, já para não falar na religiosa, por mais que óbvia. Muitos estudiosos apontam os Evangelhos, canónicos, como os apócrifos, como narrativa mais teológicas, não-históricas, muitos considerando-as até contraditórias. Embora muitos considerem não haver contradição, apontam mesmo semelhanças entre os textos. Como outros entendem que o plano histórico ou cronológico não é o mais importante, mas sim o doutrinal, o simbólico e a dimensão de fé e salvação. Os apócrifos são importantes, com efeito, nomeadamente os chamados “Evangelhos da Infância”, principalmente devido à escassez de informações sobre a infância de Jesus nos Evangelhos canónicos. Muitos cristãos dos primeiros séculos queriam saber mais detalhes sobre os primeiros anos da vida de Jesus. Muitos foram logo os textos do século II d.C. e seguintes a tentar satisfazer essa curiosidade, populares mas nem sempre comprováveis ou rigorosos.

O mais antigo é o “Evangelho da Infância de Tiago” (ou “Proto-Evangelho de Tiago”), a base da maioria deste tipo de textos, como o “Evangelho da Infância de Tomé” e o ulterior “Evangelho de Pseudo-Mateus” (ou “Evangelho da Infância de Mateus”, ou “Nascimento de Maria e Infância do Salvador”), combinação dos dois anteriores. Temos ainda o “Evangelho Siríaco da Infância” (ou “Evangelho Árabe da Infância”), “A História de José, o Carpinteiro”, “A Vida de João Batista” e o “O Evangelho Arménio da Infância de Jesus”, entre outros. Entre os romanos, temos Tácito (séc. II), Plínio o Jovem, governador romano da Bitínia (Asia Menor), no séc. II também, como Suetónio, a falar de Jesus, com maior ou menor precisão. Como Flávio Josefo, nas suas “Antiguidades Judaicas”, onde faz algumas referências a Jesus, “(…) um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeus e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas”. E a verdade é que era, o Messias, o “novo Adão”, o anunciador da Boa Nova do Reino dos Céus. O Natal de Jesus cumpre-se assim.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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