Gonçalo Nemésio, Genealogista e Coleccionador

Gonçalo Nemésio

«Os objectos só têm valor quando os ligamos às pessoas».

Gonçalo Nemésio, embora viva da escrita (é genealogista), admite não ter guardado do avô, Vitorino Nemésio, os genes literários; porém, o seu pai, Manuel Nemésio, esse sim, «tem muita poesia inédita». E, «como todos os filhos dos escritores», viveu à sombra da fama do progenitor. Oficial da Marinha formado em Filosofia, Manuel foi comandante do afamado submarino “Cachalote”. Na verdade, a paixão pelo mar foi característica comum às diversas gerações de Nemésios.

A genealogia ocupa o tempo todo de Gonçalo Nemésio ao ponto daquilo que é a sua profissão ser também o seu passatempo. «Faço colecções de livros de genealogia. Compro tudo o que há sobre a matéria», diz.

Mas essa exclusiva actividade fá-la com o maior dos gostos, e há muito anos. Publicou já quatro obras maiores, tendo levado cada uma delas uns dez anos a compilar.

«O que faço é ingrato pois obriga-me a um minucioso e demorado trabalho de pesquisa», confessa Gonçalo, que aposta sobretudo na vertente social da genealogia. Gosta de interrelacionar as famílias, estando actualmente a preparar um livro sobre as famílias italianas em Portugal.

A genealogia é matéria que interessa a Gonçalo desde os seus 14 anos. Paixão que partilha com o avô Nemésio, que possuía também uma quase oculta faceta de genealogista. O seu primeiro e pouco conhecido romance “A Varanda de Pilatos” é, de certa forma, um romance autobiográfico. Tendo como personagem principal um certo «capitão Maldonado», o palco do enredo é uma terra endogâmica onde há muita consanguinidade, «com os bens e males que daí advêm».

Outro dos pontos em comum entre o Nemésio neto e o Nemésio avô é o gosto pelo coleccionismo. Gonçalo aprecia antiguidades e faz questão de preservar os objectos da família. Já Vitorino coleccionava de tudo um pouco. Tinha um significativo acervo de instrumentos musicais – tambores, ocarinas, bandolins, violas, flautas, pianos – e de bengalas. Mas também juntava medidas e pesos antigos, ferros de engomar e relógios. «O relógio da sua estimação usava-o com uma crina de cavalo», salienta Gonçalo. É conhecida a paixão do consagrado autor açoriano pela equitação, bem expressa num seu livro de poesia intitulado “O Cavalo Encantado”.

Gonçalo considera que os objectos só têm valor quando os ligamos às pessoas. É aquilo que denomina de «humanização dos objectos». Guarda, por isso mesmo, com particular carinho grande parte do espólio fotográfico do avô. A outra parte desse espólio está a cargo de uma prima sua.

O ar aluado e desprendido de Vitorino Nemésio, e aquela sua voz monocórdica e anasalada, não eram propriamente o chamariz ideal para atrair os telespectadores que deparavam com as suas prelecções televisivas, «mas não lhe podemos negar a sua grande bagagem cultural e capacidade de comunicação». Embora o açoriano do “Se bem me lembro” tenha recebido alguns prémios, nos mais recentes anos aos seus livros não tem sido dado o merecido destaque. Não acha o neto que a obra do avô merecia mais?

«O tempo o dirá», responde. Considera, isso sim, que ele podia ter escrito mais alguns romances, «pois tinha estofo para tal».

Gonçalo salienta a capacidade do avô, quase ubíqua, de mudar de assunto, sem nunca perder o fio à meada, e a máquina de escrever, «mais do que o papel e caneta», era a sua ferramenta de eleição: «Tinha várias delas e levava-as para todo o lado. Certamente ter-se-ia adaptado muito bem aos computadores portáteis», comenta a propósito o neto.

A sua tese sobre Alexandre Herculano foi, porventura, das melhores que se fizeram em Portugal, tendo-lhe ocupado muito do seu tempo. «Lá em casa falava-se tanto sobre Herculano que pensava-se que ele fosse alguém da família», lembra Gonçalo, salientando o facto de o seu avô falar muito com a mulher, «pessoa muito culta», que o ajudou em alguns dos seus trabalhos.

Filho de músico amador, Vitorino Nemésio cedo aprendeu a tocar guitarra clássica, chegando a compor uma pequena peça quando tinha dez anos apenas.

Música, para Gonçalo, só mesmo na qualidade de melómano. Já a fotografia, sim, é arte que o seduz. Gosta de retratar pessoas e monumentos, sempre a preto e branco.

Mas, que quota-parte terá ele herdado do génio do avô?

«Herdei a necessidade de comunicar com os outros, embora não tenha o dom da palavra, e, para além disso, a diferença de bagagem cultural entre nós é imensa». Considera-se Gonçalo, no entanto, senhor de algumas vivências, «não necessariamente de cátedra», antes das coisas do dia-a-dia, do contacto com o seu semelhante, pois são elas que fazem as realidades culturais.

Tal como o avô, que era tudo menos uma pessoa austera, Gonçalo cultiva a humanidade dos seus actos, tendo sempre presente a sábia frase proferida pelo escritor no início da sua derradeira lição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 9 de Dezembro de 1971: «Dou a minha última lição de professor na efectividade e em exercício, segundo a lei. Claro que a lei só tira o exercício ao funcionário: o homem exerce enquanto vive».

Joaquim Magalhães de Castro

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *