Filosofia, uma dentada de cada vez (47)

A liberdade é irracional?

A liberdade é irracional?

Vimos que a liberdade é um poder que o Homem possui. Baseados no que já vimos anteriormente, podemos definir liberdade como a capacidade de se fazer escolhas conscientemente e inteligentemente.

A maioria das pessoas pensa a liberdade de maneira diferente: a capacidade de acção sem quaisquer condicionamentos externos. Podemos chamar a isso liberdade sem coação. Este é o significado que normalmente usamos quando falamos da liberdade política, ou da liberdade de expressão, ou dos Direitos Humanos.

Há um outro conceito de liberdade que muitas pessoas têm: a capacidade de fazerem tudo o que quiserem. Mas se pensarmos bem veremos que este tipo de liberdade, na realidade, não existe; não somos ilimitados ou infinitos como Deus. Mesmo se tivéssemos liberdade sem qualquer restrição, ainda assim estaríamos restritos pela nossa natureza humana (exemplo: os seres humanos não podem voar como os pássaros) ou pelas nossas próprias limitações (exemplo: ficamos cansados depois de trabalhar). A realidade, na verdade, é que não podemos fazer tudo aquilo que queremos (ou gostaríamos de fazer). Sendo assim, este tipo de liberdade – fazer tudo o que desejamos – é uma ideia irreal de liberdade.

Voltemos à nossa definição original de liberdade: a capacidade de se fazer escolhas conscientemente e inteligentemente. O Catecismo da Igreja Católica (nº 1731) exprime este facto desta forma: “A liberdade é o poder, radicado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, praticando assim, por si mesmo, acções deliberadas. Pelo livre arbítrio, cada qual dispõe de si”.

A liberdade necessita da razão, ela não é irracional. Não podemos fazer escolhas (tomar decisões), se não soubermos quais as opções que se nos apresentam, se não soubermos quais as consequências que esse facto acarretará.

Quando vamos pela primeira vez a um restaurante, não fazemos um pedido assim que entramos. Antes de pedirmos qualquer tipo de comida solicitamos um cardápio. Para além disso perguntaremos ao empregado de mesa informações sobre o que estamos interessados em pedir: quais os ingredientes usados, se o prato é cozido, assado no forno, grelhado, frito ou cru. Antes de pedirmos informamo-nos, recolhemos dados. Também consideramos as nossas necessidades de momento. A escolha que eventualmente fizermos depende de certos factos, ou realidades, que precisamos de saber antecipadamente.

Só depois de termos reflectido sobre as nossas possíveis escolhas é que podemos tomar uma decisão. Sabemos que poderemos alterar a nossa decisão mais tarde, mas também sabemos que a partir do momento em que ordenarmos algo, como um prato frito, tal significa que não queremos cozido, assado no forno ou grelhado. Assim que fazemos a nossa escolha limitamo-nos a essa escolha.

E isto não é interessante? Quando usamos a nossa liberdade limitamo-nos a nos próprios! É por essa razão que algumas pessoas não querem tomar decisões importantes nas suas vidas; querem ficar com todas as possibilidades em aberto.

No entanto, não podemos viver tantos anos nesta terra sem fazermos escolhas, ficando sempre abertos a todas as possibilidades. Ao não tomarmos decisões não alcançaremos nada, não produziremos nada.

O Catecismo da Igreja Católica acrescenta: “Pelo livre arbítrio, cada qual dispõe de si”. Deste modo, quando alguém nos pergunta porque é que agimos ou reagimos de certa forma, não devemos responder “é a minha maneira de ser”, mas antes “foi a forma como eu me fiz”.

Pe. José Mario Mandía

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