Filosofia, uma dentada de cada vez (37)

Para Quê?

Para Quê?

Da última vez falámos sobre uma das causas extrínsecas: a causa eficiente. Agora vamos estudar uma outra causa extrínseca que é de sobremaneira necessária para que a causa eficiente actue. Esta causa é chamada de causa final.

A causa final existe para que algo possa ser efectuado. A causa final é a razão pela qual a causa extrínseca funciona, é o objectivo da sua acção. A causa final responde à questão: “Porque é/fez isso?” ou “o que é/foi a intensão de quem o fez?” ou, simplesmente, “para quê?”.

Antes que o escultor comece a lascar uma peça de mármore tem de perguntar a si próprio o que é que deseja fazer. Sem um propósito (objectivo) não produzirá uma obra de arte, mas apenas um monte de lixo. É por isso que se diz que a causa final é a primeira na intenção, mas a última na execução. Antes que alguém actue tem que ter em mente um objectivo claro, mas o resultado, ou o produto do que tem em mente, apenas se torna real no final da sua acção.

Todas as pessoas devem ter em mente um objectivo claro (definido). Uma causa final antes de agir. De outra forma as suas acções serão desprovidas de propósito e agirá como um bêbado que não sabe para onde vai. Ou começará muitas coisas mas não acabará nenhuma, ou as acabará mal. “Começar com o fim em vista” é o conselho de Stephen Covey.

Existem muitos tipos de causas finais. Por agora, vamos estudar uma categoria: o Fim Último e o Fim Próximo. O que é o Fim Último? O fim último ou final existe devido a todos os outros fins que existem noutros determinados contextos. E o que é o Fim Próximo? Um fim próximo ou imediato é um final que aparece como uma antevisão de algum fim maior. Um (final) próximo é visto como um trampolim que nos leva ao cume. O cume é o fim último.

Podemos dizer que o valor de uma acção não depende apenas do que é a acção, mas também do fim último que a pessoa deseja alcançar. Deixem-nos ilustrar com um exemplo:

Uma vez, um homem passava por um prédio em construção. Viu alguns trabalhadores a transportar tijolos num carrinho de mão.

Perguntou ao primeiro operário: «– O que está a fazer?».

«– Não está a ver?», respondeu o homem. «– Estou a transportar tijolos. É o que estou a fazer».

Dirigiu-se ao próximo trabalhador e perguntou-lhe: «– O que está a fazer?».

«– Oh, estamos a construir um edifício de escritórios», respondeu-lhe o homem.

Interpelou o terceiro trabalhador e a resposta espantou o homem. «– Estou a rezar».

«– Como é? Está a brincar comigo?».

«– Não, não estou. Sou católico e para nós, católicos, cada coisa boa que fazemos pode transformar-se numa oração. Assim, se nós fizermos o nosso trabalho o mais correctamente possível, podemos oferecê-lo a Deus. Poderá ver-me a carregar tijolos daqui para ali, mas o meu objectivo não se fica por aí. O meu propósito é oferecer o meu trabalho a Deus, e convertê-lo em oração».

Todos nós precisamos de perguntar a nós próprios, agora e sempre que fizermos algo: “Estou a fazer isto, para quê?”. Por vezes somos surpreendidos ao realizarmos que estamos a trabalhar sem um objectivo, ou que confundimos os fins próximos com o fim último. O escritor americano Henry David Thoreau expressou melhor esta ideia numa carta dirigida a um amigo, quando lhe perguntou. “Não basta ser-se diligente, isso são-no as formigas. E tu, és diligente em quê?”.

Algumas organizações, ou empresas, podem sofrer do mesmo defeito. No seu processo de trabalho desperdiçam as capacidades e os talentos dos seus membros, ou empregados, e a longo prazo são esmagadas pela competição.

Assim sendo, é bom fazermos uma pausa de vez em quando e perguntarmos: “Estou a fazer isto, para quê?”.

Pe. José Mario Mandía

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *