Em terras americanas

Rota dos 500 Anos-Em terras americanas

É raro podermos dizer que tudo correu como planeado, mas estas linhas estão a ser escritas já ancorados em território americano.

Saímos de Saint Martin num dia de manhã, depois do pequeno-almoço, e chegámos a Charlotte Amelie no dia seguinte, por volta das nove da manhã. Foram cerca de vinte e quatro horas, 120 milhas náuticas, com vento de popa a todo o tempo. Como não temos pau de balão para manter a vela grande aberta com vento de popa, viemos com a vela principal quase a noventa graus, e com a retranca atada com um cabo como medida de precaução, para que não recuasse com alguma mudança de vento repentina. Não houve qualquer incidente durante a viagem e fizemos uma média bastante boa, apesar do pequeno susto que o nosso motor nos decidiu pregar já na chegada.

A pouco mais de cinco milhas do destino, ainda de noite, decidimos ligar o motor para carregar as baterias, uma vez que o piloto-automático estava a dar sinal. Cumprimos cerca de uma hora com o motor a baixa rotação e já com o dia a nascer, com o Sol a despontar, desligámo-lo. Quando tivemos de apontar ao porto de Charlotte Amelie, com o vento de proa a rondar os trinta nós, ligámos o motor e a temperatura começou a subir, sem que conseguíssemos descobrir o que se passava, uma vez que o sistema de arrefecimento com água do mar estava a funcionar dentro da normalidade – esta é a primeira causa da subida de temperatura dos motores dos barcos. A agravar a situação, a pressão do óleo caiu para o mínimo, pelo que adicionámos mais óleo ao motor, mas sem resultados. A solução foi baixar a velocidade, esperando que o motor não “morresse” antes de ancorarmos.

Felizmente ancorámos sem quaisquer problemas, com o vento mais calmo e o motor a funcionar. Assim que desligámos o motor, o vento levantou e esteve todo o dia a soprar na casa dos trinta nós. Estivemos sempre de alerta para prevenir que a âncora saísse do lugar, embora precisámos de dormir. Felizmente, a âncora aguentou. As dúvidas persistiram quanto à razão para o aquecimento do motor. Sabendo que não havia problema com o sistema de arrefecimento, verifiquei o sistema de lubrificação e descobri uma fuga junto da ligação da bomba para retirar o óleo usado (normalmente os barcos estão equipados com este tipo de bomba, dado que o parafuso do depósito do óleo é, frequentemente, inacessível). Notei ainda que o óleo na tampa do depósito apresentava sinais de condensação. Alarmado com a possibilidade de água no sistema de óleo inspeccionei o motor, tendo drenado todo o óleo. A razão poder-se-ia prender com a falta de qualidade do mesmo, pois é de uma marca desconhecida.

No dia seguinte, já com a fuga resolvida, testámos o motor com óleo novo – de qualidade comprovada – e um aditivo especial para fugas e extra lubrificação do sistema mecânico. Ao mesmo tempo verificou-se o sistema de refrigeração por água do mar. Como a bomba mecânica estava com uma fuga anormal e os rolamentos gripados, instalámos uma bomba eléctrica que adquirimos em Grenada para esse efeito. Há já algum tempo que planeávamos deixar de utilizar a bomba mecânica, uma vez que estava sempre avariada. A conselho de um mecânico da Perkins, optámos por uma solução eléctrica. A instalação deve terminar nos próximos dias, depois de tudo devidamente testado.

Voltando ao motor: assim que o colocámos novamente a funcionar a pressão do óleo voltou aos níveis normais, com a temperatura a não subir acima dos 120 graus Fahrenheit (anteriormente rondava os 180, sendo que o limite é de 220), um bom fluxo de água no sistema de escape e quase nenhum fumo. Podemos concluir que o problema de aquecimento que afectou o motor se deveu, essencialmente, a fuga de óleo e à má qualidade do mesmo.

Ainda por resolver está a substituição de duas peças que ligam o sistema de circulação de água salgada entre o radiador (parecido com o dos automóveis, embora funcione de forma diferente) e o “mixing elbow” (uma peça de metal onde a água e o fumo do escape se misturam antes de serem expelidos para o exterior). Trata-se de uma zona de grande corrosão e ainda não descobri como retirar alguns parafusos. Enquanto o problema não fica definitivamente resolvido – retirar os tubos e substitui-los por novos – tenho recorrido a pasta mastik para metal e a umas braçadeiras com um pedaço de tubo de mangueira resistente a altas temperaturas. Uma das grandes aprendizagens da vida em veleiros é o “desenrascanço”.

Em Charlotte Amelie viemos encontrar alguns velhos amigos. O casal de missionários americanos do catamaran Maná estava à nossa espera, dando-nos as boas-vindas assim que o vento diminuiu. O veleiro brasileiro Arthi também veio ao nosso encontro, depois de nos ouvir no rádio. E os amigos do Gentileza chegaram ao terceiro dia.

Há dois anos passámos cerca de quatro meses em Saint Thomas e foi com surpresa que verificámos que os funcionários da bomba de gasolina da marina e do restaurante chinês ainda se lembravam de nós. Reconheceram-nos principalmente pela Maria, que funciona um pouco como relações públicas não oficial da nossa tripulação.

Nos próximos dias irei ter a visita de um primo, que faz parte da tripulação de um dos navios de cruzeiro da Disney, e que chegará a Charlotte Amelie um dia antes desta crónica ser publicada. Esperamos ter a oportunidade de visitar o navio para que a Maria e a mãe se possam deliciar com as personagens da Disney. Depois iremos começar a preparar o nosso regresso a Guadalupe, onde iremos receber um casal amigo e a sua filha, que vêm de Portugal para passarem connosco dez dias a bordo antes de içarmos as velas rumo ao Panamá.

JOÃO SANTOS GOMES

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