Descobrimentos e os Manuais Escolares – 1

DESCOBRIMENTOS E OS MANUAIS ESCOLARES – 1

Desaconselho europeu.

Tudo indica que Portugal e a sua História, ímpar a nível mundial, provocam azia a muita gente. De acordo com um artigo publicado na revista Visão, o Conselho da Europa quer que os manuais escolares passem a incluir, sempre que sejam referidos os Descobrimentos, “a discriminação e a violência” que a eles estão subjacentes. Segundo os inquisidores de Bruxelas há que “repensar o ensino da história e, em particular, a história das ex-colónias”, alertando, com elevadas doses de condescendência, para o “contributo dos afrodescendentes, assim como dos ciganos, para a sociedade portuguesa”, devendo ser também este assunto, pela sua relevância, devidamente “tratado nos manuais escolares”.

Não satisfeitos com a atrevida atoarda de clara ingerência em matérias que não lhe dizem respeito, e aproveitando a conveniente boleia dos “ciganos e dos afrodescendentes” (certamente a versão europeizada do politicamente correcto afro-americans, neste contexto uma classificação descabida de todo, pois negros e pardos são desde os primórdios do século XV, no nosso rectângulo, tão portugueses como os brancos), acusam-nos de sermos racistas e homofóbicos – vejam lá, a nós, que até somos, e de longe, dos menos xenófobos e dos mais tolerantes para com os homossexuais; uma caminhada por Lisboa, a cidade mais “gay-friendly” que conheço, comprova isso mesmo. A este respeito, atrevem-se os censores de Estrasburgo a sugerir que as nossas forças da ordem passem a andar com câmaras de vigilância nos carros e nos uniformes para, está-se mesmo a ver, apanhar em flagrante toda essa catrefada de agentes “homofóbicos” e “racistas” que por aí anda.

Não restam dúvidas: prossegue, impune e impante, o ataque cerrado à nossa identidade, jogando-se aqui a cobarde e dupla cartada de alteração e enviesamento da história, neste caso sob o ponto de vista e à luz dos padrões dos actuais donos da Europa. Os colaboracionistas de trazer por casa, rafeiros por natureza, esses, como é previsível, tudo farão para que as ordens emanadas do Soviete supremo sejam cumpridas à risca. Aliás, é possível até que a iniciativa censora tenha partido deles. Não me admiraria nada. Não é este uma dessas temáticas fracturantes que tanto gostam e às quais vão buscar o seu sustento e razão de ser?

Acertadamente escreveu um dia o visionário escritor George Orwell: “Quem controla o presente, controla o passado; quem controla o passado, controla o futuro”. A verdade é esta: a Europa, que no presente nos controla, quer manipular o nosso passado para assim melhor nos poder subtrair o futuro, deixando-nos depois à sua total mercê. Ou seja, e trocando isto por miúdos: entende o Conselho da Europa que é incorrecto ensinar às crianças que demos novos mundos ao mundo, que fomos pioneiros nos quatro cantos da orbe, que escancaramos de par em par os pórticos de todas as estradas do mar para que as restantes nações pudessem enriquecer sem ter que sacrificar quase toda uma geração de aguerrida gente do mar, como aconteceu com os portugueses. Na perspectiva dos nossos credores devemos incutir nas nossas crianças o ódio aos antepassados, pois foram malvados e muito cruéis.

Mas não fica por aqui no campo das sugestões a atrevida Gestapo comunitária. Também o pré-anunciado Museu das Descobertas não deverá ter esse nome, pois com isso corre-se o risco de insultar aqueles com quem contactámos há quinhentos anos e que hoje em dia nos recebem de braços abertos sem qualquer animosidade ou complexos. Pretendem os comissários da Stasi europeia privar-nos do mais admirável momento da nossa História, retirando-nos a auto-estima que nos resta. Do Presidente Marcelo e do primeiro-ministro Costa espera-se, no mínimo, um protesto veemente contra esta afronta à memória dos nossos antigos. Basta de vexações e insultos. Um ano depois de eu ter nascido escrevia José Hermano Saraiva o seguinte: “todo o passado é raiz, todo o futuro é destino, todo o presente é enigma. O espaço nacional cristaliza, em cada tempo da História, como laço enigmático que liga o passado ao futuro. Um laço que vem forjado por toda a experiência nacional anterior. Que tem a força e a fluidez do rio que vem de longe que vai embeber na terra da nascente, mas ainda para além dela prossegue no curso subterrâneo das origens, já fora do horizonte que a memória dos homens consegue perscrutar”. Ora, é esse rio, esse caudal, que nos compete agora defender.

Quanto à inveja da Europa, compreende-se. É que os portugueses, embora tivessem despertado tarde para o Renascimento, revelaram-se no processo agentes concretizadores da ideia de um espaço cultural a nível planetário, e – de novo Hermano Saraiva – “fizeram prova da plena consciência da importância desse conceito na definição global de um espaço português”. Essa nossa postura nitidamente cultural, por oposição à soberania meramente política seguida pelos que vieram na nossa peugada, resume-se no seguinte comentário do cronista João de Barros: “as armas e os padrões portugueses, postos na África, na Ásia, e em tantas mil ilhas fora da repartição das três partes da Terra, são materiais, a pode-as o tempo gastar; não gastará porém a doutrina, costumes e linguagem que os portugueses nessas terras deixaram”. Nem mais. Toma e embrulha, ó Conselho da Europa! E vai lá pentear macacos.

Joaquim Magalhães de Castro

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