Crónica de Costumes

Das memórias e das modernidades

Das memórias e das modernidades

Entristece constatar alguma da memória dos macaenses de Hong Kong reduzida a uma arrastada “boua note” da etérea voz de Ray Cordeiro, que o pessoal da newsdesk da RTHK 4 – Samantha Butler, are u there? – pronunciam “Cardeiro”. Que se passa com estes bifes que jamais conseguem soletrar direito os sagrados nomes, apelidos e alcunhas que nos legaram os ancestrais? O Cordeiro a que me refiro, dinossáurico autor do espaço radiofónico “Nostalgia”, entre um Elvis e um Nat King Cole, tem a distinta ousadia de não encontrar réstia de espaço, fímbria de tempo, uma nano referência que seja para catapultar para as ondas hertzianas um samba, uma bossanovazita, um fado até, e porque não? Apesar de ser um incondicional fá do “Nostalgia” e da voz pausada e quente de Ray Cordeiro tinha de exprimir este desabafo.

Parece ser total a capitulação face ao anglo-saxonismo com a cama tão bem feita que já nem precisa de a merecer, basta-lhe chegar e instalar-se. E eis a ovelhada, alegre e diligente, lá como cá, a fazer o trabalho deles, e muito alegremente. Quanto a lusofonias e afins estamos definitivamente conversados. A inconsciente (presumo) capitulação do senhor Cordeiro e de outras plantas por regar é quase tão de mau tom como a decisão de rotular de Karma e Soma as marcas de cadeira de rodas, por acaso, ou talvez não, mais requisitadas do lar de idosos do rés-do-chão do degradado complexo habitacional do Hellene Garden (cuidado com as escorregadelas), onde de quando em vez me cruzo com um velhote que teima em recusar a cruel sentença da idade, sintonizando bem alto o seu aparelho transistor na ópera chinesa. Nunca se esquece de me atirar um jovial e sincero “jo san!”. Aliás, cumprimentam sempre, estes velhos, gente educada, da velha Macau que já morreu (sim, morreu, não tenhamos ilusões quanto a isso), quiçá porque se sentem sós, mas sobretudo porque é gente de outra fibra e educação. Olham-me com a surpresa de quem pensava que os “guailós” de outrora tinham desaparecido. Estes agora, que passeiam catrefas de cães atrelados uns aos outros, qual manada canina, são bem mais altos. E encorpados. E sanguíneos. E mais pálidos.

Para ao norte setentrional me dirigi – Canadá, costa oeste – na esperança de repescar vivências, também alguns resquícios do homem reinol, porquanto universal, entre os portugueses da Ásia que lá escolheram viver. Numa primeira manga, rumo a Xangai. Voo da Air Macau emprestado à China Eastern (o piloto era “tuguês”, o sotaque não enganava) que apesar de ter a duração de duas horas deu direito a uma refeição condigna. Está bem, nada que fizesse baixar o sobrolho do saudoso chefe Silva, mas a massa um tanto ou nada gordurosa, para não desfeitear a douta tradição das casas de pasto do interior continental, acompanhada por uma salada de abóbora, biscoito de caju e fruta fresca, estava a galáxias de distância das miseráveis e ultrajantes sandes quentes oferecidas como única alternativa culinária nos voos nocturnos da Emirates. De um dia para o outro, e reduzindo ao nível lixo a bitola de qualidade dessa reputada companhia aérea, um qualquer iluminado com posto de respeito na empresa, certamente com o fito de impressionar algum CEO e poupar uns trocos à pobrezinha da Emirates, coitada, presumiu que todos os passageiros fossem residentes de Hong Kong e todos tivessem jantado pantagruelicamente antes de rumar ao aeroporto. Vai daí decidiu suprimir as refeições nos voos que partem à meia noite e meia. Resultado: pouparam-se uns tostões e, por menos para mim, lá foi por água abaixo uma reputação que levou anos a consolidar. Assim vai a alimentação a bordo das companhias aéreas. Na minha lista pessoal, o topo da desgraça até hoje foi a comida a saber a lavagem para porcos que me foi servida por um comissário de bordo da TAP – “ersatz” de surfista que parecia ter acabado de domar umas ondas na praia de São João da Caparica – com maus modos e barba por fazer, nada que um bom par de estalos não resolvesse, nesse voo de má memória, entre Lisboa e Luanda, de Julho do ano passado.

Xangai. Facto um: Essa coisa das lindas mulheres de Xangai é um mito. As mulheres lindas de Xangai são, na realidade, de todos os sítios menos de Xangai. Essa é que essa. Facto dois: O aeroporto de Pudong é um verdadeiro elefante branco, já de si pouco prático e que as medidas extra de segurança vêm agravar. Como se não bastasse aqueles tubos brancos, a fazer lembrar tubos de órgão de Sé Catedral, que tornam o espaço ainda mais apertado. Facto três: A China tem ainda um longo caminho a percorrer em termos de civilidade e comunicação com os estrangeiros. Não me refiro ao comum do cidadão, em geral inexcedível, sempre pronto a ajudar, ultrapassando até os seus limites para ser agradável. Refiro-me aos funcionários das empresas estatais que continuam mal educados, mal encarados e, uma vez confrontados, recorrem logo ao cobarde “mei you”, e como eu o conheço bem.

Joaquim Magalhães de Castro

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