Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XXXV

Uma heresia sem Deus: os Bogomilos

Uma heresia sem Deus: os Bogomilos

Já aqui nos referimos várias vezes aos Bogomilos, em associação a várias heresias medievais, como os Cátaros. Mas quem eram afinal? Os Bogomilos, cumpre então clarificar, foram uma seita herética de base cristã, surgida no século X. Eram uma derivação dos Paulicianos, instalados na Trácia (Nordeste da Grécia) e depois na Bulgária. Disseminou-se pelos Balcãs, principalmente na Sérvia e Bósnia, atingindo o Ocidente com os regressos dos Cruzados e palmeiros (peregrinos) da Terra Santa.

O Bogomilismo representou um desenvolvimento doutrinal do dualismo oriental, maniqueísta, que sustentava que a realidade derivava dos princípios do Bem e do Mal, tendo esta corrente estado na origem de outras heresias, como o Catarismo. As suas origens são antigas, ainda que cronologicamente indecifráveis. Na noite dos tempos encontramos muitos dualismos, no mundo clássico, tardo-antigo, que passam para o Cristianismo ou se movimentam nas suas franjas a partir do século IV. Os Messalianos, por exemplo, um movimento religioso carismático, irrompeu na Mesopotâmia no século IV, atingindo o Mediterrâneo Oriental, berço de tantas crenças e credos, doutrinas e movimentos religiosos. Búlgaros, Macedónios e Bizantinos vão receber influências então de todos aqueles grupos siríaco-arménios e mesopotâmicos do Levante, como os Tondraquianos. Muitos membros destes grupos seriam exilados ou deportados nos Balcãs, a mando dos imperadores bizantinos, ali deixando as suas marcas. Nos séculos IX e X eram evidentes esses traços religiosos na região, antes dos alvores do movimento das Cruzadas, a partir de finais do século XI, que teria nos Balcãs uma das regiões de passagem terrestre, na ida e na volta, para a Terra Santa.

A criação da doutrina bogomila é atribuída a um indivíduo (incerto e difícil de precisar se era um ou mais) de seu nome Bogomil (Богомил), corresponde em Búlgaro ao nome de origem grega Teófilo, “que ama Deus”. Bogomil, também, em idioma proto-eslávico representa “bogъ” (Deus) e “milъ” (querido), ou “que quer bem a Deus”. Esta referência surge muitas vezes na literatura precedido de “pop” (padre em Grego), o que faz pensar que se tratava de um sacerdote ou figura da Igreja, provavelmente um monge ortodoxo, que terá vivido no século X e deixado um lastro de seguidores e de ideias a enxamear nos Balcãs. Ou ninguém…

 

A doutrina dos Bogomilos

O estudo da doutrina dos Bogomilos tem sido feito de forma indirecta. Porquê? Porque praticamente todos os testemunhos e referências aos Bogomilos provêm da Igreja Ortodoxa coeva, que os faz no meio das críticas teológicas que lhes endereça, tratando-os pois como heresia, atribuindo aos seus seguidores e aos seus conceitos quase sempre o adjectivo de “estranhos”.

Em síntese, o Bogomilismo retinha que Deus tinha dois filhos: Satanael, primogénito, e Miguel. O primeiro rebelou-se contra o pai, transformando-se numa criatura maléfica. Tendo sido expulsa dos Céus, criou o Inferno e a Terra, intentando logo de criar o homem, mas sem sucesso. Pediu ajuda ao pai, que insuflou a alma no corpo inanimado criado pela besta. Satanael criou assim a parte material do homem, tornando-se seu senhor. Permitiu a Adão, por isso, a colonização da Terra, mas sob a condição de se entregar a si próprio e aos seus descendentes ao seu demiurgo. Isto é, ao maligno Satanael.

Mas o bom Deus, movido pela piedade àqueles a quem tinha dado alma, enviou à assombrada Terra o seu segundogénito, Miguel (significa “quem como Deus”, em Hebraico, curiosamente). O espírito de Miguel penetrou então no corpo de um dos descendentes de Adão, de seu nome Jesus, mas antes do nascimento deste, entrando no seu corpo pela orelha direita de Maria. Por isso, Jesus, no seu advento entre os homens, tinha por missão, na doutrina bogomila, romper o pacto entre Satanael e Adão. Derrotou o demónio precisamente através da Sua imolação sacrifical na cruz. Satanael foi atirado aos infernos, transformado em Satanás e tolhido da parte espiritual humana. Esta, livre da matéria agrilhoante, poderia, por sua vez, ascender ao céu. Todavia, Satanael pôde ainda, mau grado ter perdido parte de seus poderes, instituir a “Igreja Ortodoxa”, com cerimónias, sacramentos e hierarquia, a qual se tornaria na igreja de Satanás, da qual só se podia ser subtraído se se renegasse o mundo material.

Assim entendiam os Bogomilos a criação do mundo e a ideia de salvação. Assim explicavam os Bogomilos a sua condição de “eleitos” totalmente dedicados à vida religiosa, refutando a matéria, praticando por isso um ascetismo severo. Ao mesmo tempo, negavam as imagens sagradas, os sacramentos, o Antigo Testamento (com excepção dos Salmos e dos Profetas), qualquer culto exterior e liminarmente qualquer forma de estrutura eclesiástica. Recusavam o culto da Cruz, como os Cátaros, considerando-a indigna de Cristo. A instituição da Eucaristia por Jesus tinha também uma formulação bogomila, diferente da das Escrituras. Os Evangelhos eram a sua base, tanto os canónicos – que consideravam terem sido manietados e alterados por São João Crisóstomo e outros padres da Igreja – como os apócrifos, que consideravam transmitir melhor a ideia dualista. Esta concepção dualista de Bem e Mal medrava no mundo bizantino, escondida muitas vezes em alguns mosteiros ou disseminada nas crendices populares. Os Bogomilos consideravam-se, os “eleitos” principalmente, descendentes dos Apóstolos, logo os depositários absolutos da verdade evangélica.

A recitação (quatro vezes por dia) do Pai Nosso era a oração essencial dos Bogomilos, arma contra Satanás, e base da sua simplicidade litúrgica (a par de outras orações e da recitação de salmos), já que refutavam completamente a liturgia bizantina. O baptismo era simples, apenas com imposição de mãos. Carne era proibida, ou animais, desde que fruto de coito sexual. Como o matrimónio e a procriação, pois na cópula sexual entendiam perpetuar-se o mundo material de Satanás. Mas havia reprodução, claro, embora alvo de repugnância pelos adeptos da heresia. Jejuns eram frequentes: segundas, quartas e sextas-feiras. Vinho era proibido: as bodas de Caná eram consideradas uma mistificação e completamente ignoradas. Havia uma separação vincada entre o Deus criador do espírito e o Deus criador da matéria, este último sendo considerado de natureza malévola, o demónio. A igualdade social e o afastamento dos pobres do domínio do clero e da nobreza, criando-se elites, eram próprias dos Bogomilos, que acreditavam que Cristo apenas parecia ser humano fisicamente, não espiritualmente. As relíquias e o uso de objectos materiais de veneração eram proibidos, como a Eucaristia e os sacramentos.

Acima de tudo, era necessário lutar contra a parte material, despojar o corpo desse reduto infame e elevar o espírito. Os eleitos, ou perfeitos, como mais tarde os Cátaros, eram ascetas severos e os membros destacados das comunidades de Bogomilos. Podiam missionar, praticando exorcismos também e testemunhando a sua fé. A partir do século XIII a repressão e perseguição na Hungria e noutros reinos a leste da Europa, pelas autoridades e pela Igreja, ditaram o declínio e desaparecimento dos Bogomilos. Sem hierarquia e estrutura, desagregaram-se facilmente, mas deixaram marcas e sementes…

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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