Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XLIV

O Anglicanismo

O Anglicanismo

Anglicanismo é um termo que se usa como referência à crença religiosa e posição dos membros da Igreja de Inglaterra, bem como das igrejas em comunhão nas possessões ultramarinas britânicas, nos Estados Unidos e antigas colónias. Todos os que aceitaram a Reforma Inglesa ou as igrejas que dela provêm em outros países, pelo menos na parte substancial, nas doutrinas, organização e liturgia. Corresponde aos territórios que estão ou estiveram sob a bandeira do Reino Unido. Já aqui falámos de algumas figuras e marcas de aproximação à Igreja Católica, mas analisemos o que é afinal o Anglicanismo.

A Inglaterra, em finais do século XV e alvores da centúria seguinte, vivia as convulsões religiosas que se sentiam na Europa, ou seja, de pré-reforma, ou exigência da mesma. Como sucedeu com John Wycliff, que denunciara a decadência do poder espiritual, além de críticas ao Papado. O Humanismo inglês, por outro lado, desde há muito que defendia uma ideia de reforma baseada nas Sagradas Escrituras, tal como Lutero e Calvino exigiriam mais tarde, entre outros, como William Tyndale, discípulo inglês de Lutero, que traduziria a Bíblia para o Inglês da época, em versão que circularia até ao século XX.

Depois, surgiria a figura de Henrique VIII (1491-1547), rei de Inglaterra (entre 1509 e 1547), campeão da Cristandade, louvado por Papas pela sua fé e zelo religioso, obediente e bem aconselhado. Em 1521, treze anos antes da ruptura com Roma, veja-se que o embaixador de Inglaterra junto do Papa, John Clerk, assegurava ao Sumo Pontífice que o seu reino não era inferior a nenhum país da Cristandade, “nem sequer mesmo Roma”, no “serviço a Deus, e da fé cristã, na obediência devida à Santa Igreja Romana”. Quem diria afinal que seria esta nação tão devota e fiel a Roma a primeira a romper de forma institucional e nacional com a Igreja?

 

Henrique VIII

Pois bem, já há algum tempo que este soberano exercia uma influência marcante sobre a Igreja no seu reino. Tal pode ajudar a explicar o nome da reforma (Anglicanismo) e o facto desta ali ser não resultado de um movimento religioso ou doutrinal de fundo, mas da acção do monarca. Henrique, recorde-se, não estava destinado a ser rei, mas sim seu irmão mais velho, Artur (1486-1502), que faleceria com 15 anos e deixava a Henrique a herança do trono e também a mão da sua viúva, Catarina de Aragão (1485-1536), filha mais nova dos Reis Católicos de Espanha, Isabel e Fernando. Henrique, fora, provavelmente, educado para a carreira eclesiástica, recebendo formação nesse sentido. Herdou o reino e a cunhada viúva, espanhola e rigorosamente católica. Como Henrique, em parte, que foi no princípio um típico soberano obediente a Roma. Defendeu mesmo os sete Sacramentos contra Lutero, o que o Papa agradeceu. Opôs-se ainda, com o seu chanceler Thomas More (santo), à tradução da Bíblia por Tyndale.

A ruptura com Roma teve como causa o seu desejo de anular o casamento com Catarina, que só lhe dera uma filha, Maria (1516-1548), não um varão como pretendia. Em 1533 Henrique casa-se com Ana Bolena, a primeira (1533-1536) das demais mulheres após Catarina: além destas duas, casou com Joana Seymour (1536-1537), Ana de Cleves (1540), Catarina Howard (1540-1541) e Catarina Parr (1543-1547). Antes, em 1536, o Papa Clemente VII negou-se a anular o casamento com a filha dos Reis Católicos, o que provocou em 1536 o rompimento dos vínculos com Roma por parte de Henrique VIII. Nascia a reforma da Igreja Anglicana.

Os anglicanos aceitam os princípios do protestantismo luterano, embora a Igreja continue a manter uma hierarquia eclesiástica e cultos baseados na Igreja (Católica) Romana. O chefe supremo da Igreja Anglicana em Inglaterra é o Rei ou Rainha do País, estando o dogma e a disciplina a cargo da hierarquia eclesiástica, encimada pelo Arcebispo de Cantuária (Canterbury). Os clérigos anglicanos podem contrair matrimónio, aceitam a Santíssima Trindade, mas não praticam o culto das imagens de forma idêntica a outras igrejas. Todos os bispos anglicanos têm o mesmo estatuto, contando com a participação do clero e leigos em todas as decisões. Os bispos são como que os pastores principais.

Como diferenças fundamentais em relação à Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Anglicana não aceita o dogma da Infalibilidade Papal (Concílio Vaticano I, 1879), pois considera não ter base nas Sagradas Escrituras nem na tradição da Igreja dos primeiros séculos. A doutrina da Transubstanciação na Eucaristia do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo não faz parte da fé anglicana, tal como os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção da Virgem, que considera sem base bíblica ou na tradição da Igreja Primitiva. Aceitam-se como devoção privada, mas não são necessários para a salvação. O celibato deixou de ser obrigatório no clero anglicano no século XVI, passando a ser uma decisão do sacerdote assumi-lo ou não. Outro aspecto diferente é o da ordenação sacerdotal e episcopal de mulheres, embora seja matéria de prática e não de doutrina: os anglicanos reconhecem a completa participação no Corpo de Cristo de todos os filhos e filhas de Deus, incluindo os chamados à ordenação. Outra diferença reside na forma de governo da Igreja: clero, laicado e bispos participam, a partir de assembleias de comunidade, que elegem representantes para assembleias diocesanas e até ao nível internacional.

A tradição e doutrina baseiam-se na Bíblia, nos Credos Apostólicos de Niceia e de Santo Atanásio, bem como dos Concílios Ecuménicos (reconhecem-se sete: Niceia I em 325, Constantinopla I em 381 d.C., Éfeso em 431, Calcedónia em 451, Constantinopla II em 553, e III em 680, e Niceia II em 787). Os Textos Litúrgicos são também parte da tradição desta Igreja, enquanto cristalização da doutrina (cerimónias, hinos, rituais, etc.) e produto da história da Igreja. Os Sacramentos são importantes também: o do Baptismo em nome da Santíssima Trindade (Mt., 28,19), a Sagrada Eucaristia (estes com matriz evangélica), Confirmação, Matrimónio, Reconciliação, Unção dos Enfermos e a Ordem. O Episcopado histórico é também fundamental no Anglicanismo. Entre outras características doutrinais, aceitam ainda o “Livro de Oração Comum” como regra prática de fé e de culto, símbolo da doutrina dos Três Credos: o dos Apóstolos, o de Niceia e o de Atanásio.

A Comunhão Anglicana conta na actualidade com mais de setenta milhões de membros e cada Província Eclesiástica é autónoma das demais. As igrejas da Comunhão Anglicana estão livres da jurisdição estrangeira. O Arcebispo de Cantuária é o instrumento de unidade na Comunhão, mas não é o “Papa” anglicano, refira-se.

De recordar ainda os chamados “39 Artigos”, acordados em 1562 por todo o clero, estabelecidos como uma estratégia para evitar a diversidade de opiniões sobre a fé anglicana e ter uma base sólida para se constituir como igreja. Ficaram subscritos em Acta do Parlamento Inglês em 1571 como um instrumento para a rainha Isabel I definir um corpo de crenças da Igreja de Inglaterra.

A aproximação entre a Comunhão Anglicana e a Igreja Católica é hoje um facto, um processo em curso e com desenvolvimentos que permitem afiançar um estreitar crescente dos laços e praxis comum entre ambas.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *