Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XLII

O Calvinismo

O Calvinismo

No passado dia 31 de Outubro comemoraram-se os 500 anos da Reforma Protestante, o processo histórico desencadeado por Martinho Lutero em Vitemberga, na Alemanha, em 1517, a que se seguiu depois Calvino na França e Suíça, e depois o Anglicanismo na Inglaterra. Hoje, antes de abordarmos os preceitos fundamentais do Calvinismo, procuremos explicar alguns conceitos fundamentais que tantas vezes ouvimos e dizemos, mas nem sempre talvez os saibamos explicar.

Em primeiro lugar, explique-se a palavra “Protestante”. A sua origem está na Alemanha, nos príncipes germânicos que emitiram um “protesto” contra o Imperador (do Sacro Império Romano-Germânico) Carlos V (Carlos I de Espanha), o qual ignorava ou recusava os apelos da reforma luterana no seio da Igreja. Esta ainda não era “Católica (Apostólica Romana)”, refira-se, designação que só receberá oficialmente depois do Concílio de Trento (1545-1563), de Reforma Católica, precisamente (muitos designam esta reforma da Igreja como “Contra-Reforma”, termo inexacto e de matriz protestante). Assim, os que defenderam os “protestos” dos príncipes ou que a elas aderiram, começou-se-lhes a chamar de “protestantes”.

Lutero tornou-se o prócer desse movimento, assumindo-o claramente – e a ruptura com a Igreja – depois da sua excomunhão em 1521, depois de ameaçado de tal no ano anterior. Carlos V convocará a Dieta (magna assembleia germânica) em Worms, Alemanha, em 1521, para condenar Lutero, confirmando a excomunhão papal.

As suas 95 teses eram reflexões teológicas sobre a penitência e o uso e valor das indulgências, que criticou asperamente. Depois deixou a vida consagrada (era frade agostinho) e casou-se com uma antiga monja, de quem teve descendência. A sua vida foi depois orientada para a crítica à Igreja, em concreto ao Papado, o que deu origem a movimentos sociais e revoltas. As motivações da Reforma Protestante não foram apenas religiosas. Ou seja, a venda de indulgências que Lutero criticou não é a única razão de ruptura com Roma. A reputação da Igreja estava em baixo, depois do Cisma do Ocidente (1378-1417), com muitos desde então a questionarem a legitimidade dos Papas; depois temos no Renascimento o questionamento do pensamento tradicional, escolástico, com o advento da razão e dos clamores reformistas dentro da Igreja; teremos depois a ascensão de monarcas absolutos na Europa, como Henrique VIII em Inglaterra, que romperá com Roma.

Sola Fide, ou seja, “só a fé” (em Cristo) salva, defendia Lutero, que desobrigava as boas obras. É a crença da Justificação de Lutero, complementada pela recusa da primazia do Papa e pela afirmação da suprema autoridade da Bíblia. Intercessão dos Santos e da Virgem Maria, veneração das imagens e existência do purgatório, serão também refutados por Lutero, como também depois por outras correntes protestantes.

 

O Calvinismo depois

As ideias de Lutero expandiram-se por toda a Europa. Em Genebra, em 1541, surgiu uma nova reforma, por João Calvino, a que se designa, a árvore teológica que dele deriva, como Calvinismo. Assim, Calvino considerava que se deviam eliminar todos os sacramentos da Igreja, até os dois que Lutero conservou, o Baptismo e a Eucaristia (concebida em moldes diferentes). Esta recusa levou a que se designassem os seus herdeiros espirituais como Presbiterianos, Anabaptistas ou Congregacionalistas, por exemplo.

O Calvinismo (também conhecido como Fé Reformada, Confissão Reformada ou Teologia Reformada) pode ser considerado um movimento religioso protestante ou uma ideologia social, cultural, surgida na reforma iniciada por Calvino em Genebra. A Teologia Reformada foi desenvolvida também por diversos outros teólogos como Martin Bucer, Heinrich Bullinger e Ulrico Zuínglio. Todavia, a Fé Reformada costuma levar o nome de Calvino por ter sido ele seu principal expoente, o seu maior teólogo.

Para muitos estudiosos, o Calvinismo é o produto de uma evolução independente das ideias protestantes no espaço europeu de língua francesa, em paralelo à influência do exemplo que na Alemanha a figura de Martinho Lutero tinha exercido. A expressão “Calvinismo” foi aparentemente usada pela primeira vez em 1552, numa carta do pastor luterano Joachim Westphal, de Hamburgo. Mas o movimento suscitou outras denominações na Europa, como na Escócia, com os Presbiterianos, na França os Huguenotes e na Inglaterra os Puritanos.

Entre os mais famosos calvinistas da história desta reforma destacam-se o pastor baptista Charles Haddon Spurgeon, considerado como o “príncipe dos pregadores”, o reavivalista Jonathan Edwards e os teólogos Abraham Kuyper e Gordon Clark.

Actualmente, o termo Calvinismo abrange igualmente as doutrinas e práticas das Igrejas Reformadas. O sistema teológico calvinista costuma ser resumido através dos chamados Cinco Pontos do Calvinismo, elaborados durante o Sínodo de Dort, realizado na Holanda entre 1618 e 1619. Estes Cinco Pontos são conhecidos pelo não menos holandês acróstico TULIP, a partir da língua inglesa:

T-otal Depravity (Depravação Total)

U-nconditional Election (Eleição Incondicional)

L-imited Atonement (Expiação Limitada)

I-rresistible Grace (Graça Irresistível)

P-erseverance of the Saints (Perseverança dos Santos)

Por este motivo, a tulipa é frequentemente utilizada como flor símbolo do Calvinismo.

Todo este sistema, assim como as práticas da igreja, da família e vida política e social, o Calvinismo no seu todo enfim, são o resultado de uma consciência religiosa centrada na soberania de Deus. O poder de Deus tem um alcance total na sua actividade, resultando da convicção de que Deus trabalha em todos os domínios da existência, incluindo o espiritual, físico, intelectual, quer seja secular ou sagrado, público ou privado, no céu ou na terra. Uma soberania absoluta, total. Tudo é resultado do plano de Deus, criador, conservador e governador de todas as coisas, sem excepção, sendo também a causa última de tudo. As actividades seculares não são colocadas em plano inferior à prática religiosa. Deus está tão presente no trabalho de cultivar a terra ou escrever como no acto de rezar ou no culto.

Para um seguidor de Calvino a vida é um culto perene a Deus. Este reata os laços com o homem, que perdeu tudo por se afastar de Deus, ficando “espiritualmente morto” para as coisas de Deus e indisposto para O servir. Surge assim a doutrina bíblica da Predestinação. Deus escolheu alguns dos seres humanos caídos para os salvar da perdição e restaurar para a comunhão com Ele. Deus tomou esta decisão antes da criação do Universo, não por causa de quaisquer boas acções que tenha previsto nos eleitos, mas por Sua única e exclusiva graça. O calvinista é por isso um bom conhecedor da Bíblia, austero, disciplinado, sem luxos. A ética no trabalho é também uma marca do Calvinismo. A rigidez e austeridade não evitaram, porém, a sua disseminação no mundo, com mais de 100 milhões de fiéis.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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