Cartas do Bornéu – 23

A monotonia dos palmeirais

A monotonia dos palmeirais

Se o primeiro contacto com Kota Kinabalu – onde chego, madrugada avançada, vésperas de ano novo, deparando com a cidade apinhada de turistas coreanos e chineses – é por via aérea, já o encontro com a contraparte Kuching, cabeça da província malaia de Sarawak, acontece por via terrestre. Numa primeira camioneta, com origem na capital do sultanato do Brunei, Bandar Seri Begawan, rumo à fronteiriça Mirin, essa invenção urbana chinesa com abundância de bares, restaurantes, salões de massagens e centros de maternidade (mais correcto será dizer clínicas para abortos) e a maior concentração de pensões e hotéis por metro quadrado que estes olhos já presenciaram. Depois, noutro veículo de longo curso (nas primeiras horas praticamente vazio), o resto do caminho, até Kuching. A minha decisão deve-se a um misto de teimosia e curiosidade pois, finda a jornada, concluo que é viagem dispensável. Seja pelo estirão, cansativo quanto baste, seja pela monotonia da paisagem. Na verdade, qual o interesse em avistar, umas atrás das outras e intervaladas com tristes sobrevivências de mata tropical, plantações de palmeiras adultas e outras a medrar desenfreadamente alinhadas na terra vermelha subtraída das suas raízes ancestrais sem qualquer tipo de piedade? Pois, nenhum. Mesmo assim, com ingénua esperança de que alguns troços substanciais de selva tivessem sido poupados, fui. Debalde. A atitude apenas serviu para constatar a quase total devastação da selva do Bornéu. Pelo menos no que diz respeito à área costeira.

A etapa brunaica dessa viagem em dois tempos (com pernoita em Mirin) seria marcada por alguma animação a bordo graças aos vídeos de um desses grupos indonésios de “dangdut”, género musical extremamente popular que sempre me surpreende com ocasionais momentos de grande qualidade e ao qual não é estranha óbvia influência lusitana. Em causa, o “dangdut” de uma tal Sagita, cantora generosa de carnes, como convém, mas sem chegar a ser gorda.

Numa paragem prevista no horário na minúscula estação rodoviária de Seria sou surpreendido com a presença de duas velhinhas camionetas Hinos dignas de um espaço num museu, mas ainda em actividade. Horário de partida e de chegada explanado a caneta vermelha e preta num simples pedaço de papelão colocado no tabliê e encostado ao pára-brisas, e já está. Quem diria que um Brunei moderno e ocidentalizado mantivesse ainda em actividade relíquias destas!

Uns quilómetros adiante, já nas imediações da cidade petrolífera de Kuala Belait, um enorme monumento em forma de bule e de chávena de chá assinala uma rotunda, na boa tradição dos países do Golfo Pérsico. Finalmente, logo após a passagem da fronteira malaia duas ousadas proselitistas de uma seita evangélica qualquer publicitam aulas gratuitas de Inglês na berma da estrada. Talvez, quem sabe, numa tentativa de “redimir” eventuais almas mouras menos convencidas da sua fé e sedentas de quebrar as estritas regras de conduta moral implementadas a tempo inteiro no sultanato.

São quase dezoito horas de estrada. Palmares após palmares, intercalados por uma série de cidades marcadas pela predominância da comunidade chinesa, com destaque para Bintulu onde há uma boa hora de espera que permite um almoço apressado digno do mais rasca dos restaurantes da China profunda. Seguir-se-ão Sibu, Sarikei e Seriam, tudo urbes resultantes da mole humana que para a selva se deslocou em busca de trabalho nas minas de estanho e nas plantações da árvore de borracha. Isto, ao longo de todo o século XIX e até à década de 1930. Hoje, os descendentes desses cules e imigrantes das províncias de Fujian e de Cantão detêm o poder económico e, em muitos dos casos, legislam e governam juntamente com os filhos da terra malaios, com lugar cativo nos postos do funcionalismo público só pelo facto de serem quem são.

Cruzes e igrejas de diversas confissões e as inevitáveis lanternas vermelhas taoistas mostram-se comuns; já as mesquitas, estranhamente, pontuam pela timidez. Uma aqui, outra ali. Dir-se-ia até que nem estamos num país assumidamente muçulmano.

Nas margens dos grandes rios que ocasionalmente atravessamos são várias as barcaças carregadas com o que resta da floresta autóctone. Toros de madeira exótica em vésperas de se transformarem em mobília para acondicionar casas burguesas nos confins do mundo e dar mais conforto ainda aos clientes dos “spas” de luxo locais e de alhures. Já que se condena o madeireiro, condene-se também o inconsciente consumidor que exibe com orgulho aos amigos o móvel lá de casa feito de pau preto, jacarandá da Baía, teca africana, cedro da Patagónia, pinheiro branco ou qualquer outra das muitas espécies de árvores em risco de extinção.

Resumindo e concluindo: uma deslocação terrestre entre Mirin e Kuching justifica-se caso se pretenda visitar alguns dos parques naturais ao longo do caminho, que ainda os há. Assim, e em breves linhas: o parque de Bukit Langir (menos de sete mil hectares) onde a redução drástica do número de mamíferos e de pássaros é já considerado um desastre ambiental; a reserva de Niah, conhecida pelas suas caves e sítios arqueológicos escavados nas décadas de 1950 e 1960 pelo britânico Tom Harrison e a sua mulher Barbara. Bem maiores, e mais interiores, as reservas naturais de Laogan Banut – prendada com um enorme lago – e a de Bukit Tiban, um dos destinos de ecoturismo mais requisitados de Sarawak. Já mais perto de Kuching, as reservas de Maludam (enorme floresta de turfa pantanosa) e de Batang Ai, esta última apenas acessível por barco.

Se não for este nenhum dos destinos desejados, opte-se então pelo voo directo, mais rápido e pouco mais caro do que um bilhete de camioneta.

Joaquim Magalhães de Castro

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