Carta do Bornéu – 2

Do vício e da virtude

Do vício e da virtude

À semelhança do que acontece noutros reinos que chafurdam em poços de nafta – vulgo Emirados, Kuwait, Qatar, e, claro, esse exemplo de probidade moral e política, oh!, ditoso paraíso, chamado Arábia Saudita – no sultanato do Brunei-Darussalam as virtudes querem-se públicas, os vícios mantêm-se privados. Interdição total de venda de álcool, proibição de fumar em todos os lugares públicos, inexistência de discotecas ou bares com música ao vivo, são três factores distintivos do sultanato, daí que haja quem improvise o Karaoke em casa e os bares de alterne, quando ansiados, buscam-se além fronteiras, em Kota Kinabalu e em Miri, verdadeiro enclave étnico chinês de Sarawak, sucursal de micro clínicas e pensões baratas, que foi avançando floresta adentro porque, findo o período da mineração do estanho, o petróleo começou ali a jorrar. Quem diz ali, diz ao largo, umas quantas centenas de metros mar adentro, onde noite e dia lampejam chamas, quais velas acesas na linha do horizonte.

«Mesmo aqui atrás está o palácio do sultão», diz-me um dos filipinos que habita o andar multiusos com quartos para alugar (onde me encontro alojado), paredes meias com um clube de motoqueiros e uns stands de carros onde pontuam alguns modelos da Proton, o orgulho da indústria automóvel malaia. Mesmo por detrás, quer dizer, a umas centenas de metros, intervaladas com um extenso espaço verde que oculta outro devaneio arquitectónico, menos conhecido e bem mais recente, vistosa e rendilhada réplica de um palacete vitoriano, ao que consta, o mais recente brinquedo de um dos filhos do sultão.

A cidade de Bandar Seri Begawan foi crescendo em direcção à floresta estando agora subdividida em bairros – Beribi, Gandong, com o seu colorido mercado nocturno que insiste em contestar o vampirismo dos centros comerciais, e muitos outros – porém, nesse processo de alargamento, foi permitindo que a mata continuasse a ser mata. O verde é tal que por vezes não sabemos onde começa o perímetro urbano e onde dá largas ao seu devaneio aéreo o orgulhoso e belo arvoredo, muito dele centenário. Por exemplo, se quisermos ir até às praias de Jerudong degustar o peixe e o marisco que as embarcações acomodadas no reboque (para passar a noite) ao longo do dia foram buscar, ou simplesmente requisitar a estrada nacional paralela à linha costeira rumo à fronteira – Seria, e logo depois Kuala Baite – somos presenteados com generosas áreas de floresta ao longo do caminho. Edifício de monta, em toda a linha costeira, apenas o faustoso Empire Hotel, uma faraónica unidade hoteleira com um lóbi de encher o olho e piano de cauda e um pé alto que nunca mais acaba e dá acesso a uma praia de areia penteada (como os jardins zen japoneses) onde ninguém se banha, pois grudada a ela, larga, ondulada, longa e apetitosa está a piscina. Embora não seja privada, a dita praia é como se o fosse. Pantai Tungku, o areal do povo, está a uns cem metros, e assemelha-se a outros tantos areais costa adiante, separados por dezenas de paredões destinados a domar o mar, que nos chega manso mas continuadamente traiçoeiro. Nas poucas ondas alheias ao cerco de granito e cimento armado pés-de-galinha, há quem – bicho forasteiro, pois claro – faça surf; e na parte mais recatada do areal, há quem – forasteiro bicho, pois sim – dê largas aos afectos sem mostrar preocupação de monta. Neste domínio, o de uma certa tolerância de costumes no que concerne estrangeiros, o Brunei surpreende-me, pela positiva. Talvez por que estivesse à espera de maiores restrições ao nível comportamental.

As praias desta pátria de gente sedentária, são, não raras vezes, palco para perícias de moto-quatro, motociclo e até simples carro de baixa cilindrada. Pelos vistos, não lhes basta o terreiro da Pantai Tungku – propriedade privada, avisa um cartaz, aguardando projecto similar ao do Empire – com barracas de comes e bebes e de venda de vestuário e bugigangas quais mecos de “slalom” ameaçados pela passagem constante dos veículos, tudo num rodopio de poeira. No domínio dos frescos e refrigerados, o coco é rei. Pela primeira vez o vejo servido quente, depois de “assado” nas brasas. Asseguro-vos, é uma delícia. Dir-se-ia que o aquecimento do involucro adocica o conteúdo, que quente permanece durante horas. Já não direi o mesmo dos rabos de galinha grelhados, especialidade local muito apreciada. Tive, por engano, o meu baptismo de fogo dessa iguaria (!), aqui há uns anos, na África do Sul, quando todo lampeiro meti os dentes naquela que me parecia ser uma deliciosa espetada de frango. Yack! Cuspi tudo de imediato e até hoje me repugna a gordurosa sensação que me ficou no paladar.

Pantai Tungku é local de passeio para família ou casalinhos. Nas clareiras, à sombra da casuarinas, espaços para piqueniques, a horas menos próprias, ideais para momentos íntimos entre namorados. Consta que foi para impedir “indecências tais” que se proibiram os vidros fumados em todas as viaturas do País, à excepção das dos membros da família real. Durante a minha estada de quase duas semanas, avistei apenas um desses veículos, um Lexus. Como dizia, vícios privados; públicas virtudes.

Joaquim Magalhães de Castro

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