Carmen Mascarenhas

CARMEN MASCARENHAS

Entre a Praia Grande e a Ilha Verde.

Com uma infância passada em Macau, Carmen Maria de Almeida Mascarenhas teve a oportunidade, já na vida adulta, de regressar à sua terra natal para desempenhar funções profissionais.

Filha de pai ocidental (português) e mãe asiática (chinesa de Macau), nasceu na Freguesia da Sé em 1973, tendo residido, até aos nove anos de idade, num quinto andar da Rua Bispo de Medeiros. Ali para os lados onde – segundo os entendidos – se confeccionava o melhor Cheung Fun de Macau.

Carmen estudou no Colégio Santa Rosa de Lima e na Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva. Depois deu-se um regresso antecipado a Portugal. A juventude e o período escolar foram vividos entre estabelecimentos de ensino no concelho de Leiria – verdes anos passados muitas vezes dentro de portas, ao contrário dos jovens da sua idade. Carmen gostava de pintura, desenho e de outras actividades que a faziam ficar por casa. No entanto, não dispensava os acampamentos de Verão com colegas de escola, à semelhança de qualquer outro jovem.

Deixou Macau no Verão de 1982 e aterrou em Portugal em Outubro desse mesmo ano, depois de passar alguns meses com os pais a viajar por diversos países. Carmen confessa a’O CLARIM que foi dessa viagem que surgiu a sua «grande paixão por línguas, pelas artes e pela culinária». No mundo das artes chegou a expor alguns trabalhos. A “queda” para a pintura ocupou muito do seu tempo, um período do qual guarda recordações agradáveis.

A ida precoce para Portugal teve a ver com o receio do avô paterno quanto ao aproximar da passagem de soberania. Assim, juntamente com o “patriarca” e restante família, fez as malas e regressou à Pátria, para refazer a vida na zona centro de Portugal.

Mas o destino é imprevisível e depois de tantos anos sem grande contacto com os antigos amigos dos tempos de escola em Macau, encontrou uma ex-colega na universidade. Carmen estudava na área da Fiscalidade e a amiga cursava Direito. «Desse encontro vieram memórias antigas que se foram mantendo e fortalecendo com o passar dos tempos, trazendo mais amigos para o convívio, o que ajudou a restabelecer laços antigos», lembra.

Já na vida adulta, a 21 de Julho de 1995, voltou para Macau. Passados treze anos de ter deixado o território, Carmen reencontrou uma «Macau familiar, mas que não deixava de ser uma “selva de pedra”». Era tudo muito familiar, apesar da ausência prolongada, porque a mãe frequentemente visitava a família que ia relatando as mudanças.

Carmen desabafa que se deparou com uma «“selva de pedra” erguida no meio dos monumentos históricos, tanto ocidentais como orientais, abafados pela poluição». No entanto, «a comida mantinha a sua identidade e as caras eram as mesmas, se bem que mais velhas».

A Macau de infância, dos passeios na Praia Grande (onde viviam os avós paternos), das brincadeiras nos parques, ou dos petiscos na Ilha Verde (onde vivia a família chinesa), «pouco tinha mudado».

A Macau que veio encontrar com olhos de adulta, depois de uma juventude gozada entre as praias da Nazaré e de São Pedro de Moel, entre a cidade e os campos da zona centro de Portugal, «era diferente». «Havia a azáfama do trabalho e o consumismo que se instalou no território, entre a península e as ilhas da Taipa e de Coloane. Havia tempo para sair à noite, conviver com os antigos amigos e os novos colegas de trabalho». Recorda ainda «as idas aos karaokes e as famosas jantaradas de Macau dos anos noventa».

Deixou Macau a quatro meses do final da Administração Portuguesa, a 21 de Julho de 1999, «por razões familiares».

Hoje, desde a morte do pai, em 2011, que tem a família espalhada entre Macau, Taipa e Portugal.

Carmen e o marido vivem em Portugal, mas por ironia do destino a filha mais velha vai ingressar no curso de Tradução e, eventualmente, estagiar um ano em Pequim e depois em Macau – o berço da mãe, onde estão muitas das suas raízes.

Da infância, Carmen guarda as memórias normais de uma criança: cheiros, sabores, sons, de uma vivência entre duas culturas tão distintas como as ocidental e oriental, enfim, dos tempos divididos entre a Praia Grande e a Ilha Verde. Hoje parece não ser muito grande, mas na década de oitenta eram mundos à parte.

Quando lhe pedimos para nos contar um episódio engraçado da vida em Macau, fala de uma inesquecível festa de aniversário: «Estava a viver e a trabalhar em Macau com o meu marido, quando este e alguns amigos e colegas decidiram organizar uma festa surpresa. O problema foi que o meu marido apenas soube de mais um grupo que estava a preparar outra festa surpresa, e não foi informado que um terceiro grupo também tinha tido a mesma ideia. No final, vi-me forçada a frequentar três festas de aniversário. Chegaram mesmo a tirar-me a carteira e os sapatos. Acabei por ficar dois dias em “cativeiro”, no mesmo local, mas sempre em festa!».

João Santos Gomes

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