Bhumibol Adulyadej (1927-2016)

Bhumibol Adulyadej

Adeus sentido ao rei do povo.

Na passada sexta-feira, um dia após o falecimento de Bhumibol Adulyadej, rei da Tailândia desde 1946 (embora tivesse sido coroado em 1950), O CLARIM viajou para Banguecoque a fim de testemunhar “in loco” a dimensão e o impacto do seu desaparecimento físico junto do povo tailandês. De igual forma, procurou saber como irá decorrer a sucessão ao trono de tão carismático monarca.

O primeiro sinal de luto na última sexta-feira foi-nos dado ainda em Macau, quando ao entrarmos numa aeronave da AirAsia nos apercebemos que as hospedeiras de bordo ostentavam uma banda negra no braço esquerdo.

Chegando ao Aeroporto de Don Mueang, deparámo-nos com os ecrãs publicitários com a imagem emoldurada de Bhumibol Adulyadej, “O Grande”, também conhecido como Rama IX, envolta num fundo negro, acompanhada de uma mensagem em Tailandês e da cifra real do monarca. Idênticas imagens iríamos encontrar nos centros comerciais da cidade e durante os intervalos dos programas de vários canais tailandeses de televisão.

Cumpridos os procedimentos de entrada no País, foi-nos fácil encontrar um taxista, a quem pedimos para nos levar até ao Grande Palácio. Na impossibilidade de cumprir com este pedido, pelo menos que nos deixasse o mais perto possível do local, tendo em atenção para fazer sinal a algum moto-taxista que nos ajudasse a completar o percurso.

E assim quase foi, visto a troco de sessenta bahts, para uma corrida a rondar os cinco minutos, um diligente moto-taxista nos ter deixado, não no Grande Palácio, mas numa rotunda com vista para o Monumento da Democracia.

O trânsito estava cortado nesta grande artéria porque há cerca de vinte minutos passara, não muito longe, o cortejo de transladação da urna real, do Hospital Siriraj, onde falecera o rei da Tailândia, até à Sala do Trono Phiman Rattaya, no Grande Palácio.

Centenas de milhares de pessoas – e não milhares, como foi difundido pela Imprensa internacional – inundavam o percurso a rondar os quatro quilómetros, bem como as artérias envolventes cortadas ao trânsito.

Vestidas de preto, por vezes também com algumas peças de roupa branca – as cores de luto na Tailândia – vimos choros de tristeza, lágrimas silenciosas e inúmeros retratos do venerado monarca erguidos nas mãos de muitos tailandeses. Aqui e ali surgiam alguns “farang” (ocidentais) que se associaram à dor do povo tailandês.

Por esta altura já havíamos telefonado a “khun” Suthep Thaugsuban, com o intuito de pedirmos uma reacção ao triste acontecimento, mas o antigo vice-Primeiro-Ministro tailandês para os assuntos da segurança escusou-se gentilmente a aceder ao nosso pedido, visto «não estar preparado para dizer o que quer que fosse no momento».

 

Sanam Luang

As forças de segurança e as equipas de voluntários prestaram um serviço notável a todos os níveis: as primeiras, cumprindo a preceito com a sua missão sem grandes autoritarismos; as segundas, assistindo abnegadamente quem não aguentara às emoções do momento ou distribuindo garrafas de água e refrigerantes a quem disso estivesse necessitado.

Ouvimos, entretanto, salvas de canhões vindas do Sanam Luang, em frente ao Grande Palácio. Muitos tailandeses circulavam neste parque oval, enquanto outros permaneciam sentados no relvado.

Caía a noite… À berma da estrada que contornava parte do parque ainda permaneciam muitos milhares de pessoas, em pé ou sentadas no chão. Esperavam a saída dos veículos que transportavam membros da família real, e demais dignitários que acompanharam o cortejo de transladação da urna real e fizeram parte dos ritos fúnebres budistas na Sala do Trono Phiman Rattaya.

O cerimonial com os membros da família real repete-se durante quinze dias no mesmo local, após o qual nos cem dias seguintes as pessoas em geral vão ter a oportunidade de prestar a sua última homenagem ao falecido monarca na Sala do Trono Dusit Maha Prasat, também no Grande Palácio.

 

Espera

Perto da grade do Sanam Luang, defronte do Palácio Real, ouvimos palavras na língua de Camões entre a multidão. Eram dois estudantes universitários oriundos de Portugal que estão a fazer um semestre na contígua Universidade de Thammasat. Falámos com eles durante alguns minutos (ver página II).

Após este momento, era altura de irmos embora, mas assim que passámos para o outro lado da estrada um polícia ordenou para nos agacharmos, ou nos sentarmos no chão, porque a comitiva real estava prestes a sair do Grande Palácio. Neste espaço de tempo não nos foi permitido recolher imagens de vídeo, nem tirar fotografias. Esperámos quinze minutos, até quatro levas de veículos passarem diante de nós, com muitíssimos milhares de pessoas em silêncio nos dois lados da estrada.

Em seguida, fomos jantar a um restaurante da Khao San Road, onde o bulício e a música que é costume ouvir-se nos bares e restaurantes deste famosíssimo ponto de atracção turística davam agora lugar ao respeitoso silêncio. Apesar de tudo, muitos “farang” continuavam a afluir ao local.

 

Sucessão (CAIXA)

O príncipe herdeiro Maha Vajiralongkorn é o legítimo sucessor do trono, devendo ser coroado oficialmente após a cerimónia da cremação real do seu pai, que terá lugar no Sanam Luang após se completar um ano de luto nacional pelo monarca. Todavia, poderá ser rei antes da coroação oficial.

O ex-presidente do Conselho Privado, Prem Tinsulanonda, antigo Primeiro-Ministro e homem de confiança de Bhumibol Adunyadej, é o actual regente do trono, conforme prevê a Constituição.

Maha Vajiralongkorn pediu tempo para chorar com o povo, o que terá sido aproveitado por alguma Imprensa ocidental para tecer variadíssimas teorias. «Nada que altere o rumo [dos acontecimentos] de acordo com a Constituição» e «a “lei real” [Lei da Sucessão do Palácio]», disse-nos um grande número de tailandeses por nós abordados no Sanam Luang.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

em Banguecoque

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