Bengala e o Reino do Dragão – 42

A partida para o Tibete

A partida para o Tibete

Em 1627, Estêvão Cacela parte para Xigatsé, onde chega em Novembro desse ano. “Resolvemo-nos a fazer esta mudança porque achamos que todos os favores do Lama Rupa eram traças para nos impedir nosso intento, movido do zelo da sua falsa seita”, escreve o português. Pouco depois, em Dezembro ou início de Janeiro, é a vez de João Cabral rumar a Xigatsé, tendo atingido essa localidade a 20 de Janeiro de 1628. Não se sabe qual o trajecto utilizado por ambos os padres. Uma das possibilidades é que tenham seguido o vale de Chagri rumo a Lingzhi, através do passo de Yale La, onde existe ainda hoje um mosteiro fortificado. Outra hipótese é a de terem optado pela rota mais usual, a que de Paro ruma à cidade tibetana de Pagri, via vale de Chumbi. Pelo caminho é quase obrigatória uma visita ao Paro Taktsang, mais conhecido como mosteiro do “Ninho do Tigre”, a principal carta postal do turismo butanês, dez quilómetros a norte de Paro.

O Taktsang foi construído em 1692 na face de um íngreme penhasco e aí se encontra empoleirado, cerca de mil metros acima do vale de Paro. A subida é acentuada e o caminhante leva normalmente cerca de duas horas a concluí-la, sem que seja necessária preparação física especial. Os mais preguiçosos podem sempre alugar uma mula ou um pónei e a meio do caminho há uma cafetaria para repousar um pouco e admirar a deslumbrante paisagem que se estende até onde a vista alcança. O “Ninho do Tigre” é um lugar sagrado para todos os butaneses, pois se acredita que do Tibete para ali tenha milagrosamente voado, no dorso de um fabuloso tigre, o venerado Padmasambhava, pai do Budismo no Butão. Este santo – também conhecido como Guru Rinpoche – ali meditou “durante três anos, três meses, três semanas e três dias”. Entre os mestres que outrora visitaram este local consta o conhecido poeta tibetano Jetsun Milarepa. Constituem o mosteiro uma série de edifícios erguidos na encosta vertiginosa da rocha, e sete deles estão abertos ao público.

Thomas Manning, o primeiro inglês a chegar a Lhasa, residiu em Pagri entre finais de Setembro e o início de Novembro de 1811, tendo caracterizado do seguinte modo as condições de alojamento na cidade: “Sujidade, gordura e fumo. Muita miséria, mas a carne de carneiro é boa”. Pagri passaria a ter importância militar após a sua ocupação pela tropa britânica liderada por Francis Younghusband, em 1904. Pelos vistos, de pouco serviu aos tibetanos o dzong (mosteiro-fortaleza) ali existente. Estamos a falar de um ponto de charneira entre o Tibete e o Butão, onde os viajantes se alojavam em casas tradicionais feitas de pedra ou de madeira como aquelas que ainda hoje vemos espalhadas na estepe alpina de bons recursos hídricos e fartos pastos, o lugar ideal para a criação de gado. Contudo, devido à sua localização geográfica, Pagri é propenso a desastres naturais, sejam as enchentes instantâneas do Verão, os deslizamentos de lama ou as tempestades de neve, o que poderá ter pesado, na negativa, aquando da decisão de Cacela e Cabral em encetar caminho.

A terceira das opções prováveis, é a de terem seguido o vale de Gaza rumo à aldeia de Layla, situada a uma altitude de três mil e 800 metros e habitada pelos nómadas layaps, pastores de iaques no planalto vizinho ao Tibete. Uma das particularidades desse povo são os chapéus cónicos de tiras de bambu, com uma espécie de cruz invertida no topo, usados pelas mulheres. Chamam-lhe “belo” e tornou-se num ícone dos layap. A sua origem é desconhecida, mas as mulheres locais acreditam que se não os colocarem na cabeça sentem-se desprotegidas e podem enfurecer os espíritos da aldeia. Layla foi o primeiro local habitado com que se deparou Shabdrung aquando o seu exílio do Tibete Central, e hoje o monarca é aí muito reverenciado. Os vestidos que as mulheres envergam, por exemplo, mostram que são seguidores do monge-guerreiro. Provavelmente tudo não passa de uma coincidência, mas não deixa de ser curioso o chapéu de nome “belo”, o seu aspecto – a evocar um cálice virado de cima para baixo – e a memória quase divinal da passagem de Shabdrung.

É muito possível que os padres Cacela e Cabral tenham visitado Layla durante o seu périplo de dois meses na companhia do rei. E se não o fizeram então, podem ter escolhido esse caminho por ser mais conhecido e habitado nas pastagens mais altas. Quem sabe se não terão permanecido algum tempo em Layla e inspirado, com as suas alfaias religiosas, o chapéu que hoje as mulheres devotamente usam no seu dia-à-dia? Não seria a primeira vez. Há variadíssimos casos, em África e na Ásia, de chapéus tradicionais inspirados em chapéus ou outros objectos levados pelos portugueses. Os chapéus de palha da ilha indonésia de Roti e os de Fort Dauphin, no sul de Madagáscar, são apenas dois exemplos.

Não temos oportunidade de visitar Layla – tal implicaria autorização especial e uma caminhada de três dias – mas visitámos Gaza, a última povoação antes do planalto onde pastam os iaques e nunca se sabe o que nos pode esperar nessas cercanias fronteiriças ao Tibete. Ao longo da nossa estada temos a oportunidade de ver uma dessas relíquias, um suposto sapato de Shabdrung, calçado pelo monge guerreiro aquando da sua longa caminhada, pois a entrada no acidentado Reino do Dragão deu-se através desta região. É guardado religiosamente por uma idosa local, exposto numa barraca junto a um retrato do rei monge e sempre disponível para adoração pelos habitantes da aldeia.

Joaquim Magalhães de Castro

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