Bengala e o Reino do Dragão – 23

A capital Thimphu

A capital Thimphu

Informa-nos a “Relação” que no dia em que Cacela e Cabral chegaram a Rintam (actual Chapcha, como já vimos) chegou também um parente do homem que lhes negociara a jornada em Rangamati. De imediato, este se dispôs a conduzi-los a Pargão (Paro), principal cidade do reino, e a encontrar alguém que os levasse à presença do rei. Dito e feito. Quatro dias depois os padres jesuítas estavam em Paro.

Não é esse ainda o nosso destino. Lá iremos. A primeira pernoita será na capital Thimphu, onde chegamos é já noite cerrada. O alojamento, se bem que não comprometa, está longe de corresponder às expectativas. Creio que os obrigatórios 180 dólares norte-americanos diários deviam dar direito a algo um bocadinho melhor. Mas, que faço? Por que me queixo? Basta pensar naquilo que suportaram os padres, comidos por mosquitos e percevejos, atacados de febrões e sujeitos a todo o tipo de ciladas e adversas condições meteorológicas, e logo se desvanecem as cogitações menos positivas.

Da feérica passagem pela noite citadina ficam retidas na memória as bem iluminadas fachadas dos mosteiros-palácios e do estádio nacional, assim como uma sucessão de apartamentos em formato casa típica, só que com muitos mais andares.

Chantada a dois mil e 350 metros de altitude, Thimphu é cabeça, tronco e membros do País desde 1961 e, como consequência, a mais populosa urbe. Noventa mil habitantes. O primeiro automóvel faria a sua entrada triunfal três anos depois, logo após a conclusão da estrada que uniu as planícies de Bengala ao vale da capital, e as emissões televisivas só seriam permitidas a partir de 1999 (quase ao mesmo tempo que a Internet!), alastrando-se depois, gradualmente, ao resto do País. Ainda hoje o tráfego é pouco significativo tornando-se desnecessários, tal como na norte-coreana Pyongyang, os irritantes semáforos. Por enquanto, o velhinho sinaleiro vai dando conta do recado.

Em Thimphu se concentram a maioria das repartições públicas, incluindo a Assembleia Nacional da novel democracia parlamentar. O já histórico discurso do velho Wangchuck proferido em Dezembro de 2006, abdicando a favor do filho, veio pôr fim a mais de um século de monarquia absoluta. Seriam nessa mesma manhã anunciadas eleições para 2008, ano em que pela primeira vez na história do País os cidadãos eram chamados às urnas.

Datado de 1953, o palácio Dechencholing, residência oficial da família real butanesa, ergue-se num local com história. Existia aí um pequeno mosteiro-fortaleza que em 1641 Shabdrung reconsagrou com o nome Tashichho-dzong, restabelecendo nele a residência de Verão do seu corpo monástico. A oeste dali, na pequena torre de Ney Khang Lhakhang, preserva-se a veneradíssima estátua de Buda Shakyamuni e outras de variadas divindades protectoras.

Apesar do centralismo político e económico do País, Thimphu transpira ruralidade, estando os campos de cultivo, literalmente, à mão de semear.

Após séculos de isolamento e de naturais receios e indecisões quanto ao inevitável impacto sociocultural de uma abertura ao mundo, o Butão acabaria por conceder visto de entrada a uns quantos estrangeiros. Foi em 1974, o ano zero do turismo. Desde então, o número de visitantes tem vindo a aumentar significativamente e a actividade é estritamente regulamentada por um Governo decidido a apostar “num turismo qualitativo que não interfira com a cultura e as tradições do reino”. Há que evitar a todo custo que se reproduza ali o cenário do vizinho Nepal, onde até nos trilhos de acesso aos picos nevados chega a haver congestionamento de seres humanos nas épocas mais apetecíveis à prática do montanhismo. Constato, contudo, que tal proteccionismo é hoje, de certa forma, uma falácia, pois as medidas restritivas (bastantes frustrantes, pois não há como permanecer um período de tempo razoável sem despender uma fortuna) não se aplicam aos turistas indianos. E da Índia são vários milhões os potenciais visitantes.

Esse voluntário isolamento aliado a uma fraca densidade populacional e a características orográficas bastantes sui generis permitiram ao Butão manter quase intacto o seu ecossistema, sendo este o único país do mundo que absorve mais dióxido de carbono do que emite. É imposto por decreto constitucional que a floresta cubra permanentemente pelo menos sessenta por cento do território, os sacos de plástico foram banidos (entretanto, já regressaram) e – facto único à escala planetária – está interdita a venda de tabaco.

Fumador ou não, como opções de visita, pode o turista deambular pelo mercado, atentar ao delicado processo de fabricação do papel tradicional, pasmar com a quantidade de mezinhas e ervas expostas no Instituto de Medicina Tradicional, aprender um pouco mais sobre a história do País nalgum dos diversos museus da cidade, passear por um parque abençoado por um enorme Buda e onde ocorrem, em datas específicas, as afamadas danças de máscaras, ou simplesmente apreciar, na sua liberdade condicionada, o singular takin, animal nacional do Butão, dir-se-ia cruzamento de cabra com antílope, que no seu habitat natural, no leste dos Himalaias, vive em grupos de duas dezenas de indivíduos e se alimenta de bambu. Há, nos diversos parques naturais do reino, rigorosas medidas de protecção à vida animal. Por exemplo, se alguém matar um grou de pescoço negro, ave considerada sagrada e em risco de extinção, candidata-se a uma pena de prisão perpétua.

Joaquim Magalhães de Castro

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