Bengala e o Reino do Dragão – 18

A árvore de Cacela e Cabral

A árvore de Cacela e Cabral

Prolongam-se os mencionados “jardins de Rangamati” até ao sopé da montanha butanesa de onde brotam as águas do Kaljani, afluente do Torsha, o grande rio que nasce no Butão e as planícies irriga antes de desaguar no Bramaputra. Na sua margem direita se cravou e expandiu Jaigaon.

As ruas da cidade vestem-se essa tarde com grupos de foliões de rosto coberto com pó colorido numa espécie de celebração antecipada do holi, festividade hindu agora em voga após ter sido integrada à pressão, por óbvias razões mercantilistas, no calendário festivaleiro de uma já gasta Europa em busca de novas sensações. Tão ridícula a adopção quanto o é a do Dia de Acção de Graças ou do Halloween carnavalesco, cada uma por si e todas juntas, manifestações alheias à vernácula tradição.

A presença de inúmeros butaneses entre os bengalas e assanes salta de imediato à vista e diferencia esta cidade de todas as outras até então percorridas.

Sangay Dorji, o guia que a Crown Bhutan reservou para nos acompanhar nos próximos seis dias, vem ter connosco ao hotel para combinarmos a entrada no País. Se não se tivesse apresentado impossível seria diferenciá-lo entre os inúmeros comerciantes butaneses de passo. É tal a promiscuidade transfronteiriça, que o consórcio indiano Dantak, responsável pela construção das estradas de acesso e no interior do rugoso reino, se dá ao luxo de desejar as boas-vindas aos turistas estrangeiros em nome das autoridades do Butão. Recorre, para tal, a uma placa estrategicamente colocada no centro de Jaigaon.

Apesar das subtilezas, os trâmites legais indianos serão feitos na manhã do dia seguinte numa repartição governamental arredada da rua principal. Só depois, já com os passaportes devidamente carimbados, passamos sob o colorido arco que assinala o limiar do reino lamaísta e alberga os serviços de imigração butaneses. Aguarda-nos aí Sangay. Desta vez traja um listrado gho, túnica masculina de uso obrigatório para funcionários públicos e alunos. Voluntarioso, de imediato começa a debitar “informação de guia”, relevante ou não, mas verdade é que, apoquentados pelo ofegante calor, ansiamos sobretudo por alguma frescura e atmosfera mais desanuviada.

Após gradual subida com curvas e contracurvas – capto de relance uma ou outra das várias mensagens de circunstância do actual monarca, Jigme Wangchuck, exibidas em painéis ou faixas de pano – muito vagamente se dissipa parte da espessa neblina e a temperatura desce alguns graus, embora se mantenha a humidade.

Onde está o ansiado céu azul?

Desilude o clima e o aspecto geral do País, que esperava ver mais preservado, mais autêntico na sua arquitectura. Afinal, os tectos de zinco também por aqui medram…

Estamos a uma cota de algumas centenas de metros, e Jaigaon rende-se aos nossos pés. Sangay aponta para um longo e serpenteante muro cinzento, perfeitamente visível apesar da névoa. Lapidar, atira: «Foi construído para travar a emigração ilegal e estende-se ao longo de toda a linha fronteiriça que separa o Butão da Índia».

Então também há por aqui um muro e eu não sabia? Como se tivesse escutado o meu pensamento, o guia prossegue: «A planície pertence à Índia, a zona montanhosa ao Butão. Traçou-se esse limite para acabar de vez com o conflito». Ainda no século XIX, o território do Butão estendia-se até à cidade de Cooch Behar. Porém, os britânicos, numa tentativa de submeter os habitantes do aguerrido reino e integrá-lo no Raj, foram-lhes, a partir de 1777, subtraindo território, empurrando-os até aos contrafortes himalaicos, fosse por via das armas ou de tratados impostos à força, artimanha useira e vezeira entre os filhos da Albion que nessa matéria são mestres. O processo de submissão seria completado com a assinatura, em 1910, do Tratado de Punakha, pelo qual os britânicos concordavam em não se imiscuir nos assuntos internos do Butão e este autorizava a Grã-Bretanha a coordenar os seus assuntos estrangeiros.

Após a sua independência, a Índia pagaria compensação monetária ao Butão por essas terras que, não obstante, indianas permaneceriam.

Algures por uma brecha desse muro por construir entraram os padres Cacela e Cabral, munidos das devidas autorizações de viagem, um cavalo e um guia local que o rajá de Cooch Behar amavelmente lhes providenciara.

Sinal promissor. Logo à primeira paragem, Sangay Dorji dá provas de ter a lição bem estudada. Indica-nos o local por onde os intrépidos portugueses passaram, lá para os lado dos “jardins de Rangamati”, onde provavelmente se erguia a povoação entretanto deslocalizada alguns quilómetros para oeste. Diz-nos ainda Sangay que, segundo os locais, no topo de uma colina atravessada pela antiga estrada de Paro (utilizada pelos padres) existe uma ancestral árvore-da-borracha plantada por Cacela e Cabral. «Tomaram essa iniciativa para que pudessem sentar-se à sua sombra todos os viandantes que por ali passassem». Infelizmente não haverá oportunidade de lhe fazer uma visita. A nossa agenda obriga-nos a seguir a estrada principal de acesso à capital Thimphu. Nada habituado a viagens organizadas, sinto desde logo uma primeira e imensa frustração. E assim se perde uma inegável mais-valia para o documentário.

Elementos identificativos por excelência do universo budista dos Himalaias, bandeiras oratórias e pequenos santuários vão surgindo pelo caminho: nos penhascos e nas curvas da estrada; esvoaçando livremente, por vezes roçando as copas das árvores; enfeitando as pontes; presas aos postes, como é devido. Chama-me à atenção um tipo de estandarte com o pano mais comprido do que largo, a evocar essas bandeirolas tão comuns da paisagem japonesa e do norte de Samatra. Sem dúvida uma particularidade local, que associada a tantas outras distingue o budismo butanês do congénere tibetano.

Joaquim Magalhães de Castro

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