Beatificações e Canonizações

A santidade tem truque

A santidade tem truque

Algumas pessoas pensam que a santidade não tem truque, que é inteiro mérito de um super-homem, ou de uma super-mulher. Aparentemente, ser santo implicaria aguentar a dor, como um faquir, controlar o medo como um domador de leões, vencer o cansaço como um atleta da maratona e, talvez, somar a estas proezas a eloquência dos políticos. Tudo isto sem truque.

A Igreja tem uma perspectiva diferente da santidade, a tal ponto que só canoniza alguém quando a intervenção de Deus é manifesta, através de um milagre. A pessoa pode ter realizado com mérito um milhão de proezas, mas isso não chega. Se foi tudo mérito seu, não chega, a santidade genuína tem de ser mérito de Deus. Bento XVI dizia que «o papel do santo é deixar Deus actuar».

É esta a conclusão que se tira das recentes notícias de beatificações e canonizações. Em todas elas aparece, como elemento decisivo, um milagre ocorrido depois de a pessoa morrer, isto é, quando já nada dependia dela. Escrutinada minuciosamente a biografia, o processo fica pendente enquanto não ficar clara a marca de Deus naquela vida. Como tem sido declarado várias vezes pela Santa Sé, a canonização não exige que a pessoa não tenha cometido erros e pecados, mas que tenha deixado Deus actuar na sua vida. A própria inquirição biográfica tem esse objectivo.

O Papa diz que todos poderíamos ser santos e deveríamos ser santos. Há poucos dias, por exemplo, mandou publicar os decretos relativos às virtudes heróicas de Carlo Acutis, Alexia González-Barros, que morreram tão novos que não tiveram oportunidade de realizar feitos notáveis. Carlo morreu com 15 anos, Alexia com 14. Não interessa a notoriedade.

Entre os que vão ser canonizados depois do Verão, conta-se o arcebispo Óscar Romero, de São Salvador, assassinado enquanto celebrava a Missa num hospital. Passados poucos anos, o Papa João Paulo II nomeou arcebispo de São Salvador um padre do Opus Dei que tinha sido o confessor e director espiritual de D. Óscar Romero – sabe-se isso porque o próprio D. Óscar o disse e escreveu. A nomeação deste sucessor acabou por ser importante no arranque do processo de canonização de D. Óscar Romero, porque naquela época alguns confundiam a justiça cristã com a revolução comunista. Com todo o trabalho de reconstrução biográfica, hoje é fácil de reconhecer a simplicidade e virtude daquele homem de Deus, apaixonado da Eucaristia e dos sacramentos, fidelíssimo à doutrina da Igreja, incansável no esforço de ajudar todos e chegar a todos.

No entanto, depois de todo este trabalho, para se chegar à canonização, o Papa quis que Deus interviesse com um milagre.

Em Agosto de 2015, Cecilia estava à espera do terceiro filho. De repente, sentiu dores intensas. O marido levou-a ao hospital e o caso precipitou-se. Tensão muito elevada, perda de visão… os médicos resolveram antecipar o parto, mas a saúde de Cecilia piorou. Diagnosticou-se-lhe a síndrome de Hellp, uma doença gravíssima e rara. A solução foi induzir o coma, à espera que o corpo reagisse, ao mesmo tempo que se faziam diálises para apoiar os rins, que tinham deixado de funcionar. O marido, Alejandro, fez o que costumavam fazer na família: rezava. Na verdade, embora fossem salvadorenhos, não tinham prestado atenção a D. Óscar Romero, talvez porque não o tenham conhecido pessoalmente, mas a devoção da avó de Alejandro decidiu a família a pedir a Deus que curasse a Cecilia por intercessão de D. Óscar. Poucos dias depois, os parâmetros vitais de Cecilia regularizaram-se, ela saiu do coma e teve alta do hospital. Desde então, nem a mãe nem o filho tiveram mais sinais da doença, que costuma ter consequências muito graves quer para a mãe quer para o filho.

Percebeu-se que Deus mostrava à Igreja que queria que D. Óscar fosse canonizado, o que vai acontecer no final do Verão, juntamente com o Papa Paulo VI e outros santos.

José Maria C.S. André 

Professor no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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