A “poeira” das eleições

A “poeira” das eleições

Neste Outono, admiravelmente quente para uns e horrivelmente seco para outros, os portugueses dividem-se entre o prolongar do Verão estival nas praias e a preocupação com a seca e as suas consequências nas culturas vegetais, na criação do gado, na pesca, nos intermináveis incêndios, na insuficiência de água nas albufeiras, barragens, e na dificuldade em obter água potável.

Para os turistas, de todo o género, seis meses de Sol e calor colocaram Portugal na “zona do Equador” e no “top” das férias. Para a maioria de “nosotros”, esta temperatura a rondar os 30º celsius em pleno período outonal, quando a chuva deveria ser já uma constante, colocou este Verão fora do sítio tornando a situação muito preocupante.

Mas se as estradas estão empoeiradas por falta de chuva, também esta se faz sentir ao nível da política interna do até agora maior partido da oposição.

Com o descalabro eleitoral do PSD nas últimas eleições autárquicas, a desistência do seu líder em voltar a candidatar-se e depois de tantos críticos, correligionários deste partido, terem publicitado a sua eventual candidatura à substituição de Passos Coelho e posteriormente vindo a público manifestar a sua desistência, remetendo-se ao silêncio, não “chovem” candidatos à sucessão.

No momento em que vos falo, apenas dois nomes parecem posicionar-se para o cargo: Rui Rio, o antigo autarca do Porto, e Pedro Santana Lopes, um antigo e “temporário” Primeiro-Ministro.

Um facto curioso é que nem um nem outro se arrogam da defesa da herança política de Passos Coelho, a não ser sempre que está em causa a defesa dos superiores interesses do partido, dando a entender que algo de importante se vai modificar na linha política do PSD. Se tal for verdade (ver para crer), estamos perante um verdadeiro desafio digno da quadratura do círculo!

Um partido como o PSD, que se apresenta com a matriz da social-democracia e cujo desvio liberal da Passos Coelho o colocou muitas vezes na chamada “direita” do CDS, debate-se agora (esperemos) com grandes dificuldades em apresentar-se com um rumo independente e um lugar original na cena política portuguesa.

Para mim, em que ser de “direita” ou de “esquerda” já nada tem a ver com estes ideais de há séculos, mas sim com a menor ou maior preocupação com os interesses sociais e o direito à liberdade dos cidadãos, tendo observado sérias deturpações partidárias com estas e outras designações patriarcais para convencer o eleitorado, a social-democracia já tem um representante político em Portugal: o Partido Socialista!

Por outro lado, a chamada “direita” conservadora, com alguns laivos de sensibilidade social, em consequência da sua epistolar referência de pertença à comunidade cristã, também já está representada no País pelo CDS.

Não acreditando que o PSD convirja para os ideais comunistas do PCP, nem para uma aproximação ideológica aos bloquistas ou aos ecologistas, que rumo tomará o partido, acreditando que, no decorrer deste seu próximo congresso, dará mais enfâse ao ideário político do partido do que à projecção pública da personalidade a eleger como seu representante?

“Entalado” no espaço que o espectro político português lhe reserva, virar “ à esquerda” o PSD, aproximando-o das suas origens social-democratas, é entrar na área do Partido Socialista, enfrentando uma disputa ou uma aproximação que o aparelho deste partido, dominado actualmente pelos “boys” passistas e alguns velhos barões partidários, não lhes perdoarão.

“Encostar-se” à direita, junto do CDS, para além de que as consequências das últimas eleições não farão do CDS uma “noiva” tão fácil, tornará obscura a trajectória do PSD e indefinida a sua linha política, propiciando ao CDS “pescar” nas “águas turvas” do PSD, tal como fez recentemente em Lisboa.

Sendo que a ideologia liberal de Passos Coelho arrastou o seu partido para esta recente derrota eleitoral e que a actual situação do País é avessa à continuidade dessas propostas que tanto o prejudicaram, para além de que a própria União Europeia e o FMI já colocaram em causa o efeito das medidas que aconselharam e que o anterior Governo ampliou, não me parece seguro que alguns dos candidatos que se perfilam à presidência do PSD se apresentem como os herdeiros políticos de Passos Coelho.

Então o que fará o PSD?

Na minha modesta opinião não determinará uma orientação ideológica concreta, antes dará “uma no cravo e outra na ferradura”, aproximando-se do Partido Socialista quando considerar necessário à identificação social do partido, e do CDS quando as pressões do empresariado o determinarem. Tentando, com esta ambivalência e poder de persuasão do seu futuro líder, captar as faixas dos respectivos eleitores da concorrência, tornando-se o partido de charneira capaz de disputar com sucesso as próximas eleições legislativas de 2009.

Mas o “Outono” do PSD ainda está muito “quente” e, como a “poeira” ainda não assentou, vamos esperar que “chovam” ideias e não idiotas, como já aconteceu no passado….

LUIS BARREIRA

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