Jarosław Duraj, Vice-Director do Instituto Ricci de Macau

Jarosław Duraj

Inter-religiosidade da Rota da Seda não pode ser esquecida.

Vice-director do Instituto Ricci de Macau e professor de Ciência Política na Universidade de São José, Jarosław Duraj conhece como poucos o pensamento budista. Especialista em diálogo inter-religioso, o jesuíta passou algum tempo em mosteiros no Japão e em Taiwan, e descobriu uma tradição espiritual que tem por base uma percepção profunda da própria natureza do Homem. O conhecimento do outro, defende, é meio caminho andado para que o diálogo inter-cultural seja bem sucedido e a China só teria a ganhar em aplicar o princípio à iniciativa “Faixa e Rota”. A questão dá o mote a um simpósio organizado pelo Instituto Ricci nos dias 22 e 23 de Novembro.

O CLARIMComo é que alguém que nasceu na Polónia assumiu a missão de colocar em diálogo duas tradições tão diferentes, a do Budismo e a do Cristianismo?

JAROSŁAW DURAJ – Há muitos anos que o diálogo inter-religioso me interessa. Durante os meus estudos comecei a explorar o pensamento budista. Não foi muito fácil na altura porque o número de publicações que existiam era muito limitado e eu tive que ler o que estava disponível. Um dos livros que mais me impressionou foi “Siddharta Gautama”, de Herman Hesse, uma obra que é considerada um clássico. Fui, em certos aspectos, muito influenciado por este livro, mas também por outros. Depois de estudar Teologia, dei continuidade aos meus estudos missiológicos, durante os quais tive um professor de Budismo formidável e as expectativas que nutria foram completamente correspondidas durante este período. Graças à Sociedade de Jesus, foi-me concedida a oportunidade de vir para a China depois de concluir os estudos de missiologia e de estudar Chinês em Taipé. Foi para mim uma enorme oportunidade. Tive a possibilidade de conhecer monges e comunidades budistas e de encetar um diálogo verdadeiro com eles. Passei algum tempo em mosteiros budistas, a meditar, a dialogar e cheguei à conclusão que esta tradição é, não apenas fascinante, mas constitui um verdadeiro desafio para o Cristianismo.

CLEm que sentido?

J.D. – De várias formas. Por exemplo, uma das dificuldades que temos na nossa própria tradição é a de combinar a autoridade institucional, a tradição da fé com práticas individuais. Notamos que as pessoas têm vindo a despertar novamente para uma certa ideia de espiritualidade na tradição cristã, em particular desde os anos 90 até agora. O que eu percebi no Budismo – e é neste sentido que digo que o Budismo pode ser um desafio – é que ajudou-me a perceber que a minha responsabilidade individual pela minha vida espiritual está ao meu alcance. Não posso estar à espera que os outros assumam responsabilidade pela minha vida. Buda disse muito claramente: “Trata tu próprio da tua salvação”. Este é um dos mais famosos ensinamentos de Buda. Significa que cada um é responsável pela sua própria salvação. É algo similar ao que São Paulo nos diz: “Faz o que está ao teu alcance, entre o tremor e o medo, para zelar pela tua salvação”. Este é um dos aspectos em que o Budismo se constitui como um desafio. O outro é a questão da prática espiritual que está, de certa forma, relegada para segundo plano no Cristianismo.

CLFalava de espiritualidade. Um dos aspectos em que o Budismo se concentra é num certo desligamento dos bens materiais e do mundo material. O que é que um católico pode aprender com o Budismo neste aspecto em particular?

J.D. – O Budismo, no que diz respeito à percepção psicológica e à percepção espiritual da própria natureza do homem, é algo extremamente profundo. Para além do Cristianismo digo-lhe, honestamente, que não conheço outra tradição religiosa que tenha uma percepção tão profunda da natureza não só da psyché humana, mas também da forma de ser do Homem, de fenómenos como o apego e o desapego e do processo que conduz à libertação desse apego. O que me convenceu por completo foi a capacidade que me ofereceu de tentar perceber as minhas motivações internas ou, como Santo Inácio de Loyola sublinha nos seus exercícios espirituais, “de analisar as pulsões internas dos espíritos”. No meu caso, o Budismo ajudou-me através da meditação, de uma prática de meditação que fui buscar parcialmente ao Budismo Zen. Comecei a aplicar pequenos ensinamentos do método Zen de meditação. Gradualmente comecei a interiorizar esta consciência das moções e dos movimentos que existem em mim. Depois, para os compreender no meu contexto cristão, procurei perceber melhor esses movimentos do espírito, num processo que em última instância me vai conduzir a uma dimensão de discernimento. Neste aspecto, os budistas e o Budismo ajudaram-me a aprofundar a minha espiritualidade inaciana.

CLEssa ideia de meditação, de percorrer os caminhos interiores de nós próprios, parece ter perdido a sua relevância dentro da Igreja contemporânea. O que pode ganhar a Igreja com a reabilitação da meditação como exercício espiritual?

J.D. – De que forma é que o método de meditação Zen pode ajudar os cristãos? A pergunta que devia ser feita é “Precisamos mesmo do método Zen?”. Temos a nossa própria tradição. O próprio Budismo sublinha esta dimensão: “Têm os vossos tesouros. Recuperem-nos”. Nada é mais verdadeiro, mas a grande dificuldade é que os católicos não têm bons guias espirituais, não temos bons mestres de meditação. Diria que a meditação budista não substitui a nossa tradição e não pode substituir a nossa meditação, mas pode ser um instrumento suplementar, um método que me ajuda a atingir estados e níveis mais profundos da minha tomada de consciência.

CLO Instituto Ricci de Macau vai organizar em Novembro um seminário sobre a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” e a importância da antiga Rota da Seda na aproximação de diferentes povos e de diferentes religiões… Será que esta iniciativa pode ter o mesmo poder?

J.D. – Esperamos verdadeiramente que possa contribuir para mudar a China, mas não é fácil prever o futuro. A “Faixa e Rota” tem uma dimensão mais infraestrutural e económica, e é assim que é entendida por muitos países envolvidos na iniciativa, que esperam que a China os ajude a resolver os seus problemas económicos. No entanto, há outra dimensão que não pode ser esquecida. Uma dimensão que esteve sempre presente no passado: a do intercâmbio cultural e religioso ao longo da Rota da Seda. Este pequeno contributo, dado pelo Instituto Ricci em colaboração com a Universidade de São José, tem por objectivo demonstrar que esta dimensão cultural pode complementar os aspectos económicos e políticos. Sem isso, a “Faixa e Rota” pode ser bem sucedida mas apenas até um certo nível. Se a China quiser forjar relações mais profundas e ajudar os países da Nova Rota da Seda não só a desenvolver-se em termos económicos, mas também a criar uma colaboração mais pacífica entre diferentes culturas e países, os factores culturais, religiosos e espirituais não podem ser ignorados. Há muitos elementos chineses a serem promovidos, mas poucos dizem respeito à espiritualidade e à religião, e este é um aspecto que pode ser melhorado, tanto através da rede de Institutos Confúcio, como através da Rota da Seda. Seria uma forma de promover um intercâmbio mais atencioso e tolerante de culturas e religiões de um modo dialógico. A tolerância apenas não é suficiente. Posso tolerar os outros mas não quer dizer que os respeite ou que queira aprender com eles.

Marco Carvalho

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