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Tempo de férias, tempo de descoberta

Cinco escolhas, cinco destinos

Em época de férias lançam-me o desafio de propor aos leitores d’O Clarim cinco destinos. A escolha é muito difícil. Precisamente por isso, e por uma questão de coerência e vício profissional, proponho cinco lugares marcados pelos passos pioneiros de alguns dos nossos antepassados. Não nos ficaria nada mal, antes de voltarmos a ser poeira no espaço, percebermos qual o tipo de gente que para o mundo transportou o molde do lugar onde, aqui e agora, permanecemos. E desse mundo trouxe o molde que obrigatoriamente nos formatará, com ou sem o nosso consentimento, preparando-nos para o lugar onde iremos.

1 – Região tibetana de Ngari

Comecemos por uma viagem ao denominado “tecto do mundo”, directos ao coração do Tibete, à região de Ngari, onde presenciamos algumas das paisagens mais inóspitas, magníficas e sagradas do planeta. O monte Kailash e o lago de Manasorovar, locais de peregrinação budista, ou a cidade perdida de Tsaparang, visitada no início do século XVII pelos jesuítas António de Andrade, Francisco de Azevedo, João Cabral, Estêvão Cacela, entre outros pioneiros europeus nos Himalaias. Aqui, de mochila às costas, o viajante, numa situação de quase clandestinidade, poderá conhecer o Tibete mais recôndito e autêntico, o seu povo, a sua cultura, a grandiosidade dos seus palácios, templos e mosteiros, e a sua profunda religiosidade. Esse, um dos grandes e frutuosos prazeres da verdadeira viagem.

 

2 – Planalto de Adrar

Em pleno Sahara mauritano, a presença de comunidades como os Teize Gua explica-se pelos contactos que os navegadores lusos desde muito cedo estabeleceram com o planalto de Adrar, a partir da costa que minuciosamente exploravam. Chegaram a ser estabelecidas feitorias nas cidades da região, verdadeiros entrepostos na rota para a mítica Tombuctu, a fonte do ouro e do sal, produtos com similar valor na época. Por esta região terá andado, em 1443, João Fernandes, o primeiro “lançado” de que há registo. Ele viveu entre os ovelheiros e cameleiros, inventariando os produtos que ali se comerciavam, tendo um conhecimento pessoal da região e do idioma local. Fernandes simboliza essa forma miscigenada de estar no mundo que sempre caracterizou os portugueses, e com a qual profundamente me identifico.

 

3 – Ruínas de Angkor

Porventura a mais elaborada e misteriosa das construções humanas, as ruínas de Angkor Wat são palco, ao longo do ano, de inúmeras festividades religiosas que ocorrem sempre por altura da lua cheia, congregando aí peregrinos vindos dos mais diversos locais. A descoberta para o mundo ocidental das maravilhas de Angkor é, erradamente, atribuída ao francês Henri Mouhot, em 1860. Vários textos de cronistas portugueses dos séculos XVI e XVII referem-se à descoberta destas ruínas e às visitas a elas efectuadas por vários aventureiros. Frei António da Madalena foi a primeira pessoa a revelar a existência das ruínas de Angkor Wat ao mundo ocidental, e Frei Gaspar da Cruz o primeiro religioso português a visitar o Camboja e reinos circundantes, deixando-nos uma bela discrição, ainda hoje um texto de referência. Para mim, arqueólogo de formação, lugares como Angkor Wat são destinos obrigatórios.

 

4 – Amazónia

Implantado na distante Rondónia, numa Amazónia pródiga em providenciar riqueza, fossem os homens comedidos nas suas ambições, o forte Príncipe de Beira recorda-nos a mais extraordinária bandeira da História do Brasil, aquela que levou Pedro Teixeira aos Andes, em meados do século XVII. De facto, foi com um claro objectivo defensivo e de delimitação de fronteiras que, em 1776, operários e todo o material necessário viajaram, via fluvial, do litoral pernambucano até aos confins da selva amazónica, num percurso de mais três mil quilómetros. Um verdadeiro feito para a época! Recuperado em 1911, o monumento mantém o aviso afixado numa das paredes não deixa margens para dúvidas: “A selva nos une, a Amazónia nos pertence”. Combinam-se em locais como este duas das minhas paixões, a história e a natureza no seu estado mais selvagem, agora que, pelo menos aí, os canhões se calaram e se tornaram fiéis confidentes dos poucos visitantes que as muralhas encerram.

 

5 – Ilhas das Especiarias

Quando, em 1511, Francisco Serrão e António Abreu aportaram nas ilhas a que dariam o nome de Malucas, ignoravam certamente o peso da herança que iriam deixar para as gerações vindouras no vasto arquipélago da Indonésia. Quase quinhentos anos depois, contra todas as adversidades e imponderabilidades, a influência portuguesa enraizou-se ao longo de milhares de quilómetros de mar e ilhas e deixou as suas marcas residuais em domínios como a língua, a música o traje, as lendas, ou a religião. A comprová-lo estão os depoimentos, entrevistas e fotografias que tenho recolhido ao longo das minhas investigações, testemunhos inequívocos de um reencontro de culturas distantes, mas indubitavelmente partilhadas. Esse é um espólio que nos pertence e do qual devemos estar conscientes. Compete-nos, pois, participar na preservação dessa memória da cultura lusa, que assume aqui uma das suas formas mais resistentes.

Joaquim Magalhães de Castro

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