Síria. E agora?

Síria. E agora?

Síria. E agora?

Quando vivíamos no tempo do “equilíbrio pelo terror” as disputas entre os Estados Unidos e a União Soviética levantavam menos receios do que aquelas que hoje confrontam os Estados Unidos com a Rússia. Naquela altura ambos detinham o maior poder nuclear bélico e temiam-se. Hoje, com esses mesmos actores a rivalizarem-se militarmente em muitas zonas de guerra; com vários outros países a exibirem as mesmas armas de destruição; com muitas dessas armas a proliferarem em mãos escondidas do conhecimento público; com uma Organização das Nações Unidas destituída dos seus poderes originais, face às coligações ad-hoc que se fazem e desfazem para determinados objectivos militares, a situação da paz mundial está muito mais perigosa.

Desde que potências da Nato decidiram intervir nos países árabes, tentando “exportar” as suas democracias ocidentais para países com culturas, religiões e sistemas sociais profundamente distintos dos nossos, além de sujeitos a influências externas regionais determinantes, as chamadas “primaveras árabes” foram transformadas num autêntico inferno de guerras fratricidas. Iraque, Líbia, Síria, entre outros, são um bom exemplo dos eternos conflitos que geraram, cujo efeito veio a afectar outros territórios, tornando o mundo numa multiplicação de fogueiras onde ardem vidas ao sabor de incendiários de todos os géneros.

A Síria, onde há cerca de sete anos uma manifestação pacífica contra o desemprego, a corrupção, a arbitrariedade política e a ditadura de Bashar al-Assad se transformou numa guerra civil que destruiu o País e fez centenas de milhares de mortos, é hoje um vespeiro interno de contradições conflituosas. Nela se agrupam grupos e grupúsculos sob o controlo da Al-Qaeda ou do Daesh, entre outros, sujeitos à influência religiosa do Irão (xiita) e da Arábia Saudita (sunita), onde os curdos tentam reconquistar uma parte do seu ambicionado país, mas que enfrentam igualmente a oposição da Turquia que, além de os combater, invadiu uma parte da Síria. Este país, actualmente protegido pela Rússia, cuja influência na região mais “quente” do planeta pode colocar em causa os interesses dos aliados dos Estados Unidos e, nomeadamente, de Israel, tornou-se assim um barril de pólvora.

Neste contexto, a recente operação militar contra alegadas fábricas e armazéns de armas químicas na Síria, levada a efeito pelos Estados Unidos, França e Reino Unido, tornada antecipadamente pública pelas declarações (posteriormente desmentidas) do controverso Trump, e a resposta das autoridades russas sobre as consequências de tal ataque levantam-me dúvidas e justos receios.

Dúvidas porque o ataque feito com pré-aviso teria permitido o esvaziar do conteúdo perigoso das instalações agora bombardeadas; a acção foi feita no dia em que se ia deslocar ao local os peritos da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ); é incompreensível que o alegado ataque com armas químicas ao chamados “terroristas” em Douma tenha acontecido depois das forças sírias e russas os terem derrotado; subsistem dúvidas sobre se estas forças rebeldes ao regime sírio não dispunham igualmente de armas químicas e, por fim, depois das dúvidas não ainda esclarecidas sobre os autores do atentado ao duplo espião em Inglaterra e que desencadearam um enorme conflito diplomático entre os países ocidentais e a Rússia, se tal não foi uma preparação da opinião pública mundial de oposição aos russos, para o que agora veio a acontecer. Mas há uma coisa que não deixa dúvidas, Bashar al-Assad dispunha (e naturalmente dispõe) de armas químicas pois, caso contrário, os russos não teriam vetado tantas vezes nas Nações Unidas as resoluções que propunham a investigação sobre a existência e utilização dessas mesmas armas pelos sírios.

A actual situação provocada por esta “acção punitiva” ocidental à Síria suscita alguns justos receios, mesmo que a mesma tenha sido executada com “pinças” para não atingir alvos russos nem civis.

Embora Donald Trump tenha afirmado querer sair deste país, retirando da Síria alguns milhares de conselheiros militares americanos que ainda ali se encontram e deixando este vespeiro aos russos, a pressão e os interesses de alguns dos seus aliados, como a Arábia Saudita que teme a crescente influência dos xiitas do Irão; os desejos territoriais na zona por parte do Presidente turco Erdogan, membro da NATO ou os receios de Israel com a sua defesa, face aos xiitas do Hezbollah xiita na vizinha Síria, Líbano ou na Cisjordânia, poderão fazer recuar as intenções do actual Presidente americano, conduzindo-o a um novo Afeganistão…

Por outro lado, o constante alimentar do orgulho russo, por parte do Presidente Putin, face a este desafio ocidental e à guerra de palavras e sanções que o antecedeu, pode conduzi-lo a tomar acções de retaliação e produzir uma grave escalada deste conflito.

No momento em que vos escrevo pouco mais aconteceu do que a habitual “propaganda política” entre os vários adversários e que se torna necessário descodificar para tentar perceber as intenções dos inflamados discursos.

Ficamos por aqui? As prometidas represálias de Putin eram um “bluff”? Quem vai ao leilão de armas?

Não gostaria que voltássemos à “guerra fria”, mas admito que há gente a precisar de um “duche frio”.

LUIS BARREIRA

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