Com o que temos de nos preocupar, na realidade?

Síria, A verdadeira história (12)

Com o que temos de nos preocupar, na realidade?

Quando ela me contou esta história, lembrei-me da minha mãe. As suas amigas perguntaram-lhe: “Hei! Mas não viste o noticiário? Não estás preocupada que a tua filha morra na guerra? Como consegues lidar com isso?”

A minha mãe disse-lhes: «Vocês estão a dizer-me isso? Vocês não estão preocupadas com os vossos filhos; eles saem de casa durante os fins-de-semana e regressam embriagados ou drogados – quem sabe por onde estiveram, e com quem, com as suas almas mortas (devido aos pecados). Isto não é muito mais preocupante?». É aqui que está o ponto.

Quantas vezes vemos as mães muito preocupadas, sem conseguirem dormir dias a fio: “Não consigo dormir. O meu filho está engripado, apanhou um resfriado e tem febre, não consigo vê-lo a sofrer desde modo. Já está assim há dias”.

Nós temos de lhes ensinar a sofrer e a oferecer a sua doença (a Deus). Não vemos, nestas mães, nestes casos, a mesma agitação, a mesma preocupação, a mesma ansiedade quando têm um filho que vive em estado de pecado. E quando a morte chega é um ponto de não retorno. E isto deveria ser a nossa preocupação; quando pensamos nos nossos filhos, que queremos dar-lhes o melhor possível, e o melhor possível é o Paraíso. Temos que garantir o Paraíso aos nossos filhos – a vida eterna, que é muito mais do que saúde física, à qual as pessoas dão tanta importância.

Eles (os Sírios) ensinam-nos tanta coisa. Deixem-me dizer-vos: Agora já nem têm medo dos terroristas. Não têm medo deles.

Os jovens da Paróquia dizem: “Deixem-nos vir, ocupem a cidade e cortem-me a cabeça. Sou um cristão e não vou deixar de o ser por causa deles. Além disso, fazer-me-iam um favor – mandavam-me directamente para o Paraíso”.

Esta é a sua única preocupação: a morte da Alma.

Estas pessoas, que obviamente vivem na Fé, não se comportam de uma forma estranha ou extravagante, esperando nas Igrejas, a rezar, à espera de serem mortas. Não, não, não! Estas pessoas continuam com as suas vidas diárias, porque vivem na Fé. E esse facto preenche totalmente as nossas vidas, muda-nos completamente, da cabeça aos pés.

Não é porque tenho Fé que vou rezar bem, rezar muito. Não! Se tenho Fé, e é isso que realmente me motiva, estudo bem, trabalho bem, sou um bom filho, sou um bom pai. E um bom cidadão porque tenho Fé. A Fé dá sentido a tudo aquilo que eu faço no meu dia a dia.

É por causa disso que estas pessoas são capazes de continuar com as suas vidas diárias, com uma admirável fortaleza que – reparem – nunca tiveram antes.

As crianças vão à escola. No primeiro ano da guerra as escolas estiveram fechadas devido à situação. No segundo ano a situação era a mesma, mas os jovens pediram que se reabrissem as escolas. Eles diziam: “O que estamos a fazer aqui com os braços cruzados? À espera que a guerra acabe?”.

E assim as escolas foram reabertas. Contavam anedotas, felizes por as aulas terem recomeçado. Os estudantes do liceu diziam: “Não é fácil ouvir o que os professores nos dizem, por causa dos bombardeamentos, mas nós recomeçámos as aulas”. Até parece uma anedota, mas as crianças têm, literalmente, que evitar as balas para poderem ir à escola.

Irmã Maria da Guadalupe Rodrigo

(Tradução: Pe. José Mario Mandía e António R. Martins)

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