Rota dos 500 Anos-Outra vez em Bequia

Outra vez em Bequia

 

Escrevo estas linhas já ancorado na ilha de Bequia, em São Vicente, depois de termos passado pela ilha de União e de Mayreau, também do mesmo país.

Saímos de Carriacou (Granada), onde estivemos mais alguns dias, para além do programado. Primeiro, devido aos problemas eléctricos que já relatei na semana passada, e depois devido ao muito mau tempo que começou a assolar aquela zona. Terminada a intempérie foi altura de levantar âncora e seguir viagem, o que fizemos num dia bem cedinho, com intenções de ainda pararmos numa outra ilha (Sandy island) de Granada. Tal não chegou a acontecer porque estava muito vento e corrente muito forte. No entanto, como contávamos ancorar por ali e tinha ainda de tirar a capa da vela principal, tivemos mesmo de descer a âncora numa zona de corrente de quase três nós para levantarmos a vela. Até esta altura completámos o percurso a motor. Após subirmos a vela, quando nos estávamos a preparar para seguirmos viagem, voltou a rebentar a correia do alternador. Perante mais este problema, e com o motor a subir de temperatura rapidamente, só me lembrei de desligar tudo antes que sucedesse o que havia acontecido na chegada a Carriacou. Era só o que faltava, outro incêndio a bordo para queimar mais alguns cabos, ou pior… Felizmente foi apenas a correia do alternador e tudo se resolveu atempadamente. O único senão foi o facto de termos ficado sem motor numa zona de correntes fortes, recifes e pouco espaço de manobra. Depois de meia hora de alguma tensão conseguimos chegar a mar aberto, o que permitiu ligar o piloto-automático e verificar os danos.

Depois de nos inteirarmos da situação, decidi, mesmo em plena navegação, proceder à instalação de uma nova correia. Algumas cabeçadas e queimaduras mais tarde, o motor pôde novamente ser usado. Foi de primordial importância para ancorarmos no primeiro destino, a ilha de União, de onde demos entrada em São Vicente. O ancoradouro de Clifton, na ilha de União, tem recifes de todos os lados e teria sido muito arriscado ancorar à vela e com apenas uma pessoa a manobrar. Caso o motor não tivesse funcionado a solução passaria por velejarmos directamente para Bequia, onde agora nos encontramos – aqui pode-se entrar à vela uma vez que a baía é larga, havendo imenso espaço para ancorar e realizar as manobras sem qualquer problema.

Depois de termos ancorado em União, onde nos registámos, levantámos âncora e fomos para a ilha de Mayreau, onde ficámos duas noites e tivemos a oportunidade de ir à praia e visitar uma igreja no topo da ilha onde está uma estátua de Nossa Senhora de Fátima. A baía (Saline bay) é lindíssima. A determinado momento, éramos só nós e os nossos amigos do Gentileza numa praia de areia branca. No segundo dia houve ainda tempo para retirar o malogrado alternador e instalar um dos que tinham sido reparados em Carriacou. Apesar de não estar a cem por cento, funciona melhor que o anterior.

No dia da saída levantámos âncora por volta das sete da manhã, com recurso ao motor. Passados cinco minutos já estávamos só à vela – e assim foi até ao destino onde ligámos o motor apenas para ajudar na ancoragem. Pelo caminho as condições apresentaram-se tão favoráveis que até deu para testar o piloto de vento, aprendendo cada vez mais como funciona. Cerca de um terço da viagem foi cumprida com a ajuda deste auxiliar de navegação, sem recurso ao piloto-automático – um bom augúrio para as etapas mais longas que iremos, em breve, ter pela frente. Pelos testes deu para perceber que consegue manter uma rota com uma variação entre dois e cinco graus, mas as velas deverão estar muito bem equilibradas, caso contrário sai do curso pretendido. Nas próximas pernas, se o tempo ajudar, voltaremos a realizar mais testes. Este mecanismo permite que façamos as viagens durante a noite, poupando as baterias e o motor.

Agora que estamos em Bequia vamos aproveitar para descansar um pouco. O Gentileza não veio connosco: da ilha de Mayreau seguiu para as Tobago Cays, e dali para a ilha de Mustique. No nosso caso, viemos directamente para Bequia, sendo que vamos esperar para seguirmos todos juntos para Martinica, estando previsto pararmos na ilha de São Vicente e nas ilhas de Saint Lucia. Chegados a Martinica iremos comprar alimentos e outros artigos, tendo em vista a travessia para Aruba, Bonaire, Curacao e… Panamá. Se houver espaço, iremos comprar alguns mantimentos para a travessia do Pacífico, em Maio, especialmente artigos que dificilmente se encontram fora da “Europa”, como Compal e outros produtos portugueses que se vendem naquela ilha francesa.

Esta é a segunda visita que fazemos a Bequia. Já aqui tínhamos estado ao rumarmos para Sul. Ficámos com muito boa impressão, apesar de a acharmos um pouco cara em termos de alimentação e de bens de primeira necessidade. Mesmo de frente para o veleiro há uma praia longa, de areia branca e água transparente, de perder de vista, com corais e outras atracções para passar horas e horas a nadar. Nos próximos dias, depois de colocarmos a lavandaria em dia e de arrumarmos o Dee, vamos visitar a praia. Iremos de kayak, pois é tão perto que não vale a pena levar o bote com motor.

JOÃO SANTOS GOMES

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