O NOSSO TEMPO Três epidemias... em vez de uma!

O nosso tempo

Três epidemias… em vez de uma!

As analogias são sedutoras e muitas vezes enganam, não me parecendo ser, todavia, este o caso da crónica que se segue.

As três epidemias que o título invoca são de natureza inteiramente diversa, mas estão a ter iguais efeitos devastadores nesse pobre corpo doente que dá pelo nome de comunidade internacional.

Uma é o ébola. A outra é o radicalismo de grupos armados como o do denominado ISIS, ou Estado Islâmico, que vem recrutando na Europa centenas e centenas de jovens, dispostos à guerra santa para instauração do califado. A terceira é a da falta de identidade generalizada de jovens de origem muçulmana ou recentemente convertidos, da Europa e dos Estados Unidos, dispostos a dar as suas vidas por um ideal errado, o do extremismo assassino e sem retorno.

Ébola, uma praga sinistra

Pela primeira vez na História das Nações Unidas, o Conselho de Segurança reuniu-se há duas semanas, tendo como agenda única, e mais do que inabitual, um gravíssimo problema de Saúde Pública à escala global: o ébola.

Não se tratou pois de discutir a guerra ou a paz, de uma iniciativa militar ou de como a contrariar, mas de lidar contra um inimigo insidioso, inimigo invisível para mais, que está a atravessar fronteiras à velocidade da luz e sem precisar de passaporte!

E o que deveria ser tratado apenas a nível da Organização Mundial de Saúde sobe à última instância do poder mundial – o Conselho de Segurança – para aí se debater e decidir sobre que estratégia internacional adoptar para conter a epidemia.

O número de vítimas é preocupante, os países onde teve origem são manifestamente incapazes de lidar contra o flagelo. E a generalidade dos Estados sente-se impotente para prevenir a expansão da doença, dada a facilidade com que se viaja hoje e a inevitabilidade também com que se é veículo desse e doutros vírus, como o da febre de dengue.

A denúncia mais recente do primeiro caso de ébola em Espanha só vem confirmar o que acima fica dito.

De uma forma resignada, pode dizer-se que este é o preço a pagar por termos convertido o nosso planeta numa imensa aldeia global, onde os vizinhos de um só momento podem viver no outro lado do mundo…

De uma forma pessimista, pode também antecipar-se que a generalização de fenómenos deste tipo não está senão no seu início, dada a acumulação de dois factores multiplicadores.

E estes são a referida internacionalização ou generalização dos contactos privados, por um lado; e a urbanização crescente das comunidades humanas, obrigando-as a viver nessas gigantescas colmeias a que chamamos não já cidades, mas metrópoles.

Importa recordar a previsão: dentro de três décadas, cerca de 75% da população mundial viverá em cidades! Terminada estará a visão idílica (?) de ir passear ao campo, ou de visitar ali a família, pois na sua maior parte o campo estará deserto… ou com o mínimo de pessoas para assegurarem a produção de bens alimentares para os gigantescos monstros urbanos prontos a absorvê-los.

O 1984 de George Orwell reeditado? Sim, mas com mais requinte e crueldade!

O número é impressionante e a previsão implica um crescente esforço de adaptação de todos a condições de vida cada vez mais artificiais, com inevitáveis reflexos no domínio da Saúde Pública. Mas esta é a civilização global que estamos a construir… ou a consentir que se construa.

E até jovens nações do Hemisfério Sul – conheço um pouco da África Ocidental e não apenas lusófona – que poderiam ainda construir modelos alternativos de organização do seu espaço e do tecido social no seu interior, só têm como ambição converter depressa as suas capitais em pequenas Nova Iorque! E tudo isto por vaidade… e por interesse. É mais lucrativa, naturalmente, a especulação imobiliária num espaço reduzido do que um plano inovador de ocupação do espaço em extensão.

Estas opções não podem ser tomadas senão em detrimento do futuro. Pagarão as gerações vindouras um preço exorbitante por essa miopia política a nível mundial.

 

Morrer por Kobane

Agora uma outra epidemia, a da intolerância levada aos extremos mais absurdos.

A luta que se trava na fronteira sírio-turca pela posse da cidade de Kobane é o símbolo mesmo do que está a acontecer de excepcionalmente grave no Médio Oriente.

A consolidação das posições do ISIS em Kobane só confirmaria a realidade a que se assiste nos últimos tempos: um progressivo alargamento do território do “califado”, a despeito dos ataques aéreos da coligação liderada pelos americanos. Elemento perturbador por si só, este novo dado poderá alterar de forma sensível o jogo de alianças tradicionais na região e fora dela, com resultados difíceis de antecipar.

E neste século XXI, século de todas as esperanças e também de todas as contradições, não deixo de admirar o absurdo das propostas ideológicas de construção do presente e do futuro, desde o liberalismo extremo, demagógico porque sem entraves, ao obscurantismo o mais atrasado – e humilhante para essa noção da dignidade humana que há séculos vimos penosamente construindo.

 

A lepra da falta de identidade

Uma terceira praga associada ao extremismo “religioso” me parece dever ser denunciada: a das identidades fracturadas, no seio das minorias étnicas das sociedades ocidentais, onde são recrutados os novos guerrilheiros pela Fé, lembrando outras épocas de um passado, glorioso (para uns) e miserável (para outros).

Vivi cerca de uma década em França e pude constatar o quão difícil era, para os jovens magrebinos da segunda geração, assumirem a “identidade francesa”, em ruptura com a sua pertença muçulmana. Pertença construída através da educação familiar e transmitida por pais que – como todos os pais do mundo – são por sua vez veículos dos valores recebidos das gerações anteriores.

A nova identidade no chamado país de acolhimento – a França neste caso – reduzia-se tão só a estratégias exteriores, de como lidar com os jovens franceses “verdadeiros”, esses outros cujo olhar reenviava os seus colegas árabes à situação de estrangeiros, no país onde haviam já nascido. Ora, uma identidade que não interioriza valores, nem sentimentos de comum pertença – é uma falsa identidade.

Reconduzidos às vias sem saída da sua origem étnica e religiosa, é fácil perceber o desespero dessa juventude sem raízes e sem ideal, porque sem possibilidades de inserção efectiva e de progressão nas sociedades que chamam relutantemente “suas”, mas onde são afinal condenados a viver como estranhos.

Sem subalternizar as reacções das autoridades europeias ou americanas no domínio da segurança, sabe-se que estas respostas “securitárias” por si só são insuficientes para lidar com um mal estar social e individual muitíssimo mais profundo.

Assim, pois, que políticas de integração devem ser repensadas, nessas sociedades plurais, para evitar a frustração, terreno fértil para o recrutamento dos jovens por extremistas?

É essa a questão fundamental.

 Carlos Frota 

Universidade de São José

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