Calor das castanhas lembra fervor da santidade

Novembro tem dois “São Martinhos”- São Martinho de Tours e São Martinho de Lima

Calor das castanhas lembra fervor da santidade.

A Igreja recorda este mês São Martinho de Tours, celebrado a 11 de Novembro, o dia da sua festa litúrgica. Um militar que partilhou a sua capa com “Cristo”, facto que popularizou a palavra “capela” no mundo cristão. A meia-capa de São Martinho de Tours foi colocada numa urna, que se encontra num pequeno santuário construído para o efeito. Como em Latim “meia-capa” se pronuncia “capela”, as pessoas costumavam dizer: “Vamos rezar onde está a capela”. Desse modo, o nome “capela” ficou popularizado e passou a ser usado para designar os pequenos lugares de oração. O dia de São Martinho é festejado um pouco por toda a Europa e pelo mundo, mas as celebrações e costumes variam de país para país.

Em Portugal a tradição é fazer-se um grande magusto, beber-se água-pé e jeropiga. Esta é também a época em que se prova o vinho novo. Como diz o ditado popular, “no dia de São Martinho vai-se à adega e prova-se o vinho”. Acredita-se que na véspera e no dia das suas comemorações o tempo melhora, originando o conhecido “Verão de São Martinho”, proveniente da lenda.

São Martinho, conhecido por cavaleiro e monge, filho de um comandante romano, nasceu por volta do ano 316 d.C., na antiga cidade de Savaria, na Panónia (actual Hungria). Embora os seus pais fossem pagãos, sentiu-se atraído por Cristo, e aos doze anos desejou viver no deserto com os monges. Foi impedido pelo pai e teve que abraçar a carreira militar. Ainda adolescente, Martinho reencontrou o Cristianismo e, superando muitas dificuldades, inscreveu-se entre os catecúmenos rumo ao baptismo, recebendo este Sacramento por volta dos vinte anos.

Em 341 d.C. pediu licença para se retirar do exército. Entretanto, conhece Hilário, o Santo Bispo de Poitiers (França), e por ele é ordenado diácono e presbítero. Regressa posteriormente à Panónia e converte a mãe ao Cristianismo. Tempos depois decide viver como eremita na Ilha Galinária, na costa de Génova. Mais tarde fica a saber que Santo Hilário, havia regressado a Poitiers. Consequentemente, vai de novo ao encontro do Santo Bispo e expressa o desejo de continuar a vida eremita. Obtém licença para construir uma cabana às portas de Poitiers, na qual irá permanecer entregue à oração e à penitência pelo espaço de onze anos. Bem depressa se lhe juntaram, um após outro, muitos discípulos.

No ano 371 d.C., contra a sua vontade, Martinho é nomeado bispo de Tours. Logo depois funda o mosteiro de Marmoutier, também às portas da cidade, e aí fixa residência. Já no final da sua caminhada é informado de que na região de Candes há rivalidades e desavenças entre o clero, e para lá dirige os seus passos. Não mais regressaria ao silêncio do mosteiro de Marmoutier.

 

A LENDA DE SÃO MARTINHO – Num dia frio e chuvoso de Inverno, Martinho seguia montado a cavalo quando encontrou um mendigo. Vendo o pedinte a tremer de frio e sem nada que lhe pudesse dar, pegou na espada e cortou o seu manto ao meio, cobrindo-o com uma das partes, e continuou viagem. Diz a lenda que, nesse momento, as nuvens negras desapareceram e o Sol surgiu. O bom tempo prolongou-se por três dias.

Na noite seguinte, Cristo apareceu a Martinho num sonho. Usando o manto do mendigo, voltou-se para a multidão de anjos que o acompanhavam e disse, em voz alta: “Martinho cobriu-me com esta veste”.

 

CRISTO CAMINHAVA AO SEU LADO – Pregador incansável, Martinho foi também o fundador das primeiras igrejas rurais na região da Gália, onde atendia tanto ricos como pobres. Nas actividades pastorais ocupava-se a visitar os prisioneiros, os condenados à morte, os doentes e até os mortos. Não faltam relatos de milagres.

Extenuado pelas fadigas e pela dedicação ao serviço do Senhor, morre em 397 d.C., em Candes. Milhares compareceram ao seu último adeus, tal era a fama de santidade. Em França, diz-se que à passagem do seu corpo até ao túmulo as plantas nasceram e floriram, os pássaros cantaram, os aromas rescenderam, cantando assim a natureza loas à sua santidade, durante o percurso de vários quilómetros.

É um dos primeiros santos não-mártires a ser proclamado pela Igreja. Embora tenha morrido no dia 8 de Novembro, a sua memória é celebrada três dias depois, dado que foi sepultado a 11, em Tours – local de intensa peregrinação desde o século V. Rapidamente este culto chegou a todos os cristãos, de tal modo que na Idade Média as peregrinações ao túmulo de São Martinho ombreavam com as realizadas aos túmulos de São Pedro e São Paulo, em Roma. A devoção a São Martinho é tão intensa em França, que nada menos do que três mil e 600 igrejas e 480 povoados franceses o tomaram como patrono. Para além de França, São Martinho é também padroeiro da cidade de Buenos Aires (Argentina) e da Guarda Suíça Pontifícia.

O primeiro biografista deste santo bispo, canonizado pelo povo, foi Sulpício Severo.

Miguel Augusto 

com Aleteia e Observador

 

LIMA: O OUTRO SÃO MARTINHO (Caixa)

 

«Eu te medico, Deus te cura»

Filho de um nobre cavaleiro espanhol e de uma negra do Panamá, de origem africana, Martinho de Porres (sobrenome do pai) nasceu em Lima (Peru) a 9 de Dezembro de 1579. Por ter pele escura, o pai não o quis reconhecer. No livro de baptismos foi registado como filho de pai incógnito; não teve pois uma infância feliz. Viveu na pobreza até aos oito anos de idade na companhia da mãe e de uma irmã, dois anos mais nova.

Ao invés de ficar sentido, preferiu transformar a compaixão pelos pobres e pelos desprezados na sua missão de vida e dedicar toda a sua existência a servi-los por amor a Cristo.

Aos quinze anos abandonou tudo e foi bater à porta do convento dos dominicanos em Lima, sendo admitido apenas como terciário e incumbido dos trabalhos mais humildes da comunidade. Fez da vassoura uma espécie de divisa, reservando para si todos os trabalhos mais pesados e repugnantes. Ao final de um tempo, os superiores compreenderam o que representava aquela alma para a Ordem e acolheram-no como membro efectivo a 2 de Junho de 1603.

Exerceu o ofício de barbeiro e enfermeiro, tendo aprendido um pouco de medicina. Atendia pobres e ricos sem fazer qualquer distinção. Era dotado de vários dons de santidade – profecias, êxtases, bilocações… Costumava dizer: «Eu te medico, Deus te cura». Por seu intermédio, Deus realizou milagres de cura instantânea. Houve até ocasiões em que o simples facto de estar presente foi suficiente para curar doentes em fase terminal. Durante uma peste epidémica curou todos os que a ele recorreram. Com o mesmo candor de um São Francisco de Assis, dirigia as atenções a todas as criaturas.

Há depoimentos de pessoas que o viram entrar e sair de lugares cujas portas estavam trancadas, e testemunhos que asseguram tê-lo visto em dois lugares diferentes ao mesmo tempo: o fenómeno da bilocação. Embora nunca se tivesse distanciado de Lima, foi visto em África, na China e no Japão a confortar missionários em dificuldade.

A este humilde irmão recorriam teólogos, bispos e autoridades civis. A admiração do vice-rei do Peru por frei Martinho era tão grande, que no seu leito de morte foi visitá-lo e beijou-lhe a mão. Morreu no ano 1639, no dia 3 de Novembro, enquanto beijava o crucifixo com profunda serenidade.

Martinho de Lima foi beatificado em 1837 pelo Papa Gregório XVI e canonizado a 6 de Maio de 1962 pelo Papa João XXIII, que confirmou a sua festa litúrgica no dia 3 de Novembro.

Miguel Augusto 

com Aleteia e Acidigital

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